Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

terça-feira, 13 de junho de 2017

O dilúvio de cerveja



E se de repente as sarjetas deitassem por fora por já não aguentarem a pressão, as caves das casas se inundassem e as ruas se transformassem em rios numa torrente incontrolável de cerveja?

Foi isso que aconteceu em Londres em 1814.

Fundada em 1764 a Horse Shoe Brewery era a maior fábrica de cerveja de Londres. Situava-se na esquina da Tottenham Court Road com a Oxford Street.

Em 1807 Sir Henry Meux comprou a Horse Shoe Brewery, a cervejeira passou a chamar-se Henry Meux and Company.

Em Outubro de 1814 uma ruptura num tonel enorme da fábrica de cerveja, provocou uma enxurrada que levou outras cubas a colapsarem também. Em minutos 1.470.000 litros de cerveja inundaram as ruas do bairro de Camden, por efeito do arrastamento, foram derrubados muros e algumas casas ruíram provocando um total de 18 mortos. Não consta que tivessem ocorrido vitimas por excesso de álcool.

A empresa foi levada a tribunal, mas o júri considerou que o incidente foi um acto de Deus e como tal nada poderia ter sido feito para o evitar. Foram ilibados.

O empresário, que gozava de bons contactos junto do poder politico, consegui que o Parlamento autorizasse a restituição do imposto relativo à cerveja produzida e que antecipadamente havia sido pago, o que lhe permitiu reconstruir a fábrica e manter a laboração.

Em 1841 morre Henry Meux. O seu filho Henry Meux the Second gere o negócio até ser declarado demente em 1858. O negócio passa a ser gerido por 3 sócios, entre os quais o seu cunhado William Arabin.

A cervejeira foi demolida em 1922, o local onde se situava na Tottenham Court Road é hoje ocupado pelo Dominion Theatre.


Após várias aquisições e outras tantas fusões a Meux Brewery vai para às mãos da Carlsberg-Tetley em 1997.

Nestas linhas se contaram as incidências de um acontecimento que há duzentos anos atrás que teve tanto de caricato como de trágico.





domingo, 25 de dezembro de 2016

Triologia O Bom, o Mau e o Vilão: O Vilão...

Em frente ao espelho barbeia-se com lamina, o escanhoado sai com outra apresentação, a sensação de frescura é renovada a cada passagem da lamina. O after shave comprado nas mais caras lojas da especialidade realça o frescor da fragância que fica no ar. Olha-se ao espelho, sente-se impecável. Não usa a habitual gravata, hoje decide-se pelo lenço de seda vermelha requintadamente colocado em torno do pescoço com as pontas guardadas no interior da camisa branca, lisa, os botões de punho dourados e o fato azul escuro dão-lhe um ar respeitável, cuidado e inspirador. Os sapatos cuidadosamente engraxados, brilhando com as passadas decididas e enérgicas. No caminho para o trabalho olha-se nas montras por onde passa, ajeita o colarinho ligeiramente fora do alinhamento, dá uma passagem ao cabelo que com o gel rebrilha à luz. O seu narcisismo impele-o a sentir-se bem consigo. Nada poderá falhar, mesmo que não domine a matéria, nada poderá impedi-lo de conseguir o que quer, aquele lugar foi criado à sua medida.

Quando chega todos os presentes se concentram na sua presença, saem os cumprimentos de circunstância e como tem passado, já não o via há muito, como foram estes meses tão longe. Rodeado de atenção, fala de si apaixonadamente como ninguém. Cheio de si próprio encantado por se ouvir. De inicio os convivas ouvem com atenção, depois um pouco timidamente olham em redor buscando cumplicidade em outro qualquer. Trocam olhares de enfado. O orador continua, cada vez mais entusiasmado consigo, aumenta o tom de voz, o grupo já não reage. Por outro lado ninguém interrompe, não têm coragem de assumir essa responsabilidade porque o palestrante pode aproveitar a oportunidade para renovar o assunto sobre si próprio e redobrar o discurso ainda mais autoconfiante do que antes. Nunca se lembra de ouvir quem quer que seja, a interrupção pode levar a uma quebra de corrente que ele, ingenuamente, acredita ter formado com os ouvintes. Mas ninguém o ouve. Em todos cresce uma vontade enorme de defenestrá-lo janela fora. O seu narcisismo patológico impede-o de ver a rejeição nos olhares que o rodeiam.

Já ninguém aguenta, mas como silenciá-lo sem parecer indelicado?

- Vem aí o chefe !!

O discurso é interrompido abruptamente, tosse nervosamente. Coloca-se em sentido, um pouco curvado para a frente. Enquanto todos cumprimentam o chefe com um simples aperto de mão, ele inclina-se e aplica um duplo aperto de mão ao superior, envolve-o em salamaleques e elogia-o pelos resultados atingidos. Os outros quase juram que o viram babar-se.

Caminham em silencio para a sala de reuniões. Apenas o chefe inchado de importância rejubila no fato talhado anos antes quando nele cabia.

- Venho comunicar-vos que a partir de hoje passo à situação de reforma, pelo que deixo de ser o vosso director comercial. A administração deu indicação que a escolha do meu sucessor será feita de acordo com o ranking de resultados apresentados, sem qualquer hipótese de intervenção da minha parte. Nada mais posso fazer a não ser agradecer-vos pelo profissionalismo e empenho que me dedicaram durante estes anos em que trabalhamos juntos.

O silencio ressoou na sala...Por fim, alguém começou a bater palmas e os outros seguiram-no sem grande entusiamo. O bajulador quedava-se pálido e num automatismo de Pavlov acompanhava-os com as palmas das mãos húmidas.

E agora como seria sem o seu mentor, tanto investira naquela aposta de carreira, tantos meses de companheirismo forjado para acompanhar os interesses do seu chefe. Eram jantares a altas horas, alguns caríssimos, pegar no taco de golfe e levantar-se quase de madrugada para ir ao clube onde o chefe sempre confraternizava com os amigos. Sacrificar a própria família para à noite acompanhar o chefe ao clube de bridge só para estar presente porque nem sabia jogar.  Ter de aturar a sua necessidade de protagonismo, anular-se para satisfazer a sua ansia ser o centro das atenções. Fazer considerações elogiosas mesmo em situações que achava despropositadas, ser condescendente nas fraquezas, menorizando as falhas do chefe. Tanta adulação para nada?

Sem resultados não ia ter hipótese de ficar com o lugar por que tanto lutara. Mas tinha sido um ano muito difícil e além disso o acompanhamento continuo que fizera ao chefe ocupara-o de sobremaneira e tirou-lhe tempo para a sua própria actividade.  Tinha sido uma opção que lhe parecera certa na altura, agora sabia-o fora um risco mal calculado.

De certo ele já sabia que se ia embora e não foi capaz de lho dizer, sentia-se usado e vilipendiado. Não há duvida, há pessoas sem o mínimo de caracter. Logo com ele que não merecia, que sempre fora atencioso, sempre tivera o cuidado de transmitir ao chefe tudo aquilo que sabia passar-se na empresa, quando algum colega tinha um desabafo consigo o primeiro a saber era o chefe, para este estar ao par de toda a informação e melhor decidir. Havia apostado no cavalo errado. Correra o risco de ser proscrito pelos colegas e agora era esta a recompensa?

Tem de voltar à linha da frente. Não é agora ao fim deste tempo todo que se vai matar a trabalhar, não cumprir os objectivos e arriscar-se a ser despedido.

O que interessam os méritos? Mérito tem ele em saber relacionar-se com as pessoas que interessam. Mesquinhos são aqueles que não têm a esperteza de se colocarem em situação de vantagem perante tudo o que os rodeia. Devem estar atentos a tudo o que pode influenciar as suas carreiras, o desempenho nem sequer é o principal porque a inteligência emocional e o sentido de oportunidade sobrepõem-se ás competências efectivas.
Levanta-se por entre os colegas e dirige-se ao WC. Penteia-se, ajeita o lenço no pescoço, mais uma vez renova a sua autoestima olhando-se ao espelho, inspira, autoconfiança ao máximo e sobe ao andar da administração.

Se o novo director for aquele que está a pensar sabe coisas dele que mais ninguém sabe. Tem de o descobrir rapidamente. Para um graxista o mais importante é estar com a pessoa certa, no local certo à hora certa. Vai fazer aquilo que faz de melhor e o ciclo recomeça...


Triologia O Bom, o Mau e o Vilão: O Mau...

Lá estava ele a uma segunda feira debruçado sobre a agenda, o que fazer?

O pior de tudo, o mais chato e moroso era o mais urgente, a vontade de procrastinar o assunto era mais forte.

E porque não? Não há nenhuma urgência que não possa ser tratada amanhã.

Parou de pensar nisso e dirigiu-se à secção do lado, tinha de tomar um café para raciocinar mais claramente.

- Ninguém quer vir tomar um café? Preciso de abrir os olhos...

Um dos colegas aceitou o convite. Os outros continuaram envoltos nos seus afazeres.

- Reparaste naquela cambada de monos? Ninguém fala, só quando o chefe aparece é que se houve alguém dizer algo. Esta empresa é do pior, o que querem é um rebanho de carneirinhos que estão sempre disponíveis para o que eles quiserem...

- Não é bem assim. Se passasses por aqui mais tempo ias perceber que é pessoal dedicado ao trabalho e muito competente. Para tu poderes concretizar negócio alguém tem de garantir a retaguarda. Não deves ser tão simplista nos teus juízos.

Ele encolheu os ombros. As pessoas precisavam de descontrair e relaxar. Não deviam levar as coisas tão a sério. Eram tão snobs, tão focados, tão previsíveis... gente desinteressante.

É tão difícil como desnecessário cumprir horários. Porque motivo teria de estar a horas no local de trabalho, que mais valia poderia ele representar se ainda estava literalmente a dormir?

Por vezes passavam-se dias em que ninguém sabia dele. Quando aparecia tinha sempre uma boa desculpa para justificar a ausência, mas principalmente trazia a concretização de bons negócios.

Muitas vezes o seu director tinha de corrigir seu comportamento. Era preguiçoso e já havia sido encontrado a beber  durante o expediente. Como  era um vendedor brilhante que achava que seu talento o dispensava de seguir as regras da empresa.

Nas conversas com os clientes quando colocado perante uma reclamação, muitas vezes referia-se à empresa num tom jocoso e displicente.

Nas conversas com os colegas ia revelando confidencias de uns e outros. Principalmente na sua ausência, as suas intrigas faziam eclodir litígios entre eles.

Enfim, era um personagem que minava a moral na empresa, mas preponderante no cumprimento de resultados.

Um dilema sempre presente nas reuniões de direção.

Triologia O Bom, o Mau e o Vilão: O Bom...

Num local de trabalho coexistem vários tipos de pessoas, são todas diferentes, mas todas correspondem a um determinado tipo. Podem até nem ser atitudes permanentes, mas sem duvida que se verificam periodicamente. Esta trilogia refere alguns enquadramentos possíveis: O Bom, o Mau e o Vilão.

Exemplar, sempre bem disposto, solicito, impecável no trato. Um trabalhador incansável e envolvido com os objectivos do grupo de trabalho. Forte na oralidade e na expressão escrita, pontual, zeloso, a interdisciplinaridade não representa para ele qualquer dificuldade, a sua rede de contactos possibilita-lhe ter sempre uma solução para qualquer problema. Muito escrupuloso no relacionamento com os demais.

Tem sempre uma atitude positiva e uma palavra amável para algum colega em dificuldade.

Dá conselhos aos outros para que se esforcem por aprender, demonstrando interesse e motivação, entendendo que cada organização tem seus próprios regulamentos e que os mesmos deverão ser cumpridos. Que sejam humildes e procurem entender as razões das ordens emanadas pelas chefias.

Procura relacionar-se bem com os colegas de trabalho, eles são os maiores divulgadores da sua conduta, são eles a sua melhor forma de marketing. Auxilia, colabora, é tolerante. Não faz comentários dos demais membros da empresa e muito menos dos superiores hierárquicos.

É absolutamente pontual. Quando sabe que o transito está complicado sai de casa mais cedo para chegar ao trabalho 15 minutos antes do horário estabelecido, é bom para começar bem o dia e tomar um café.

Por vezes, muitas vezes a sua generosidade é irritante, por não ser normal a infalibilidade provoca tédio e cansaço, mas na maioria das vezes o seu maior problema é a inveja que o rodeia, porque para os elementos mais competitivos não passa de um sonso.

Está sempre de bom humor e desempenha as funções com uma atitude mental positiva diante da realidade. É uma pessoa calma e ponderada que respeita todos em redor, é um excelente apoio para a restante equipa, mas não vende.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Stanislav Petrov, o homem que salvou o mundo.

O alarme toca, as luzes vermelhas de alerta acedem, os avisos sucedem-se, está em curso um ataque nuclear, misseis americanos atacam território da URSS. O que fazer?

A 26 de Setembro de 1983 o Tenente-Coronel Stanislav Petrov era o oficial do dia que tinha a responsabilidade de controlar os computadores da defesa anti-misseis numa base nos arredores de Moscovo.

Vivíamos um dos períodos mais conturbados da Guerra Fria, três semanas antes os soviéticos tinham abatido um Boeing Sul- Coreano com 269 civis a bordo. Alegaram que o avião invadira o seu espaço aéreo sem permissão.

Petrov tinha em mãos um dilema, se aceitasse como válidos os alertas e comunicasse o facto aos seus superiores desencadearia um ataque nuclear aos Estados Unidos, o que despoletaria uma Guerra Nuclear global. Por outro lado se ignorasse os sinais e o ataque americano fosse efectivo, Moscovo seria destruída e ele seria o principal responsável pela catástrofe.

O militar soviético ponderou por momentos. Na sua ideia um ataque nuclear não seria desencadeado por apenas 5 misseis. O sistema já dera mostras anteriormente de ter falhas. Resistiu em aceitar o alarme como genuíno. Tinha apenas alguns segundos para tomar uma decisão. Considerou o alerta como falso alarme por erro do sistema.

Os minutos passaram e então pôde constatar que tinha razão, não havia qualquer ataque. Os sensores do satélite que emitira o aviso haviam sido iludidos por um alinhamento de raios luz sobre as nuvens.

Naquela noite Petrov não deveria estar de serviço, viera substituir um colega. Este acaso terá salvo o mundo da eclosão da Terceira Guerra mundial, porque foi o seu bom senso que evitou a tragédia.

O tenente coronel Petrov veio a ter problemas mais tarde com a hierarquia do exército soviético porque desobedecera ao protocolo instituído. Para os superiores o reconhecimento da falha do sistema era despiciente, mais importante era a disciplina do militar. Foi deslocado para postos sem importância onde não tinha tomar decisões. Veio a ser reformado 2 anos depois.

O mundo foi salvo por um homem anónimo. A sua história foi ocultada até 1998.

Em 2004, a Association of World Citizens premiou Stanislav Yevgrafovich Petrov com o título de Cidadão do Mundo.

Aos 77 anos, vive sozinho numa casa modesta em Fryazino, nos arredores de Moscovo. Devido às pressões que então viveu a família abandonou-o pouco tempo após o incidente.

Não se considera um herói, na sua simplicidade diz que estava no local certo na hora certa.

Este homem nunca ganhou o Prémio Nobel da Paz.