Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 15 de janeiro de 2012

As lendas que são lendas


WYATT EARP (1848-1929)
No cinema é retratado como um jogador profissional e honesto, pistoleiro rápido e certeiro e homem corajoso, que teria muito sucesso com as mulheres.

Embora seja retratado como um temido xerife, apenas desempenhou funções policiais durante 5 anos. A sua restante vida é passada a jogar à batota e a viajar pelo sudoeste americano investindo os lucros do jogo em bares e casinos. Roubou cavalos, foi vigarista, abandonou a mulher em pleno deserto.

Participou num tiroteio famoso em Tombstone. Os irmãos Earp sobreviveram e mataram 3 elementos do outro gang já depois destes se terem rendido. Nada honroso.

Wyatt Earp morreu de morte natural, pouco antes que Stuart Lake, o escritor, publicasse a falsa biografia que o celebrizaria e que faria Wyatt o protótipo do herói do Oeste. O cinema e a televisão ergueram-lhe um monumento que o mundo admira. Um homem tão corajoso que uma vez foi esbofeteado num bar e não reagiu. 

Ficam as palavras do Juiz Benson: “Wyatt Earp... Bígamo, trapaceiro e velhaco.”


JESSE JAMES (1847-1882)
O realizador Nicholas Ray deu-lhe um tratamento benevolente e generoso, dando a ver que ele não passou de mais uma vítima da violência e das injustiças sociais, provocadas pela Guerra Civil Americana e que só agiu movido pelas circunstâncias. É retratado como um "fora da lei" que roubava aos ricos para dar aos pobres.

Na verdade roubou diligencias, comboios e assaltou 11 bancos. Não consta que tivesse oferecido fosse o que fosse. Matou 16 pessoas, duas das quais eram funcionários bancários desarmados.

Foi morto pelas costas por um companheiro do gang que recebeu uma recompensa pela captura.

A mãe morreu na miséria a vender lembranças aos turistas que vinham visitar a campa do seu filho mais famoso em Kearney, Missouri.





BILLY the KID (1859-1881)
No écran transparece uma figura jovem que praticamente foi obrigado a seguir uma carreira no crime. Afinal ele apenas queria divertir-se. Praticamente foi obrigado a seguir uma carreira no crime.


Nem de propósito James Dean foi convidado para fazer o papel, mas não chegou a fazê-lo.


Na realidade Billy the Kid não foi mais que um psicopata que matou 21 pessoas, pelo menos, dado que na época mexicanos e indios não contavam. Estas mortes eram perpetradas em emboscadas e assaltos, não em duelos por defesa da honra.

Tal como Jesse James, foi morto por um amigo numa emboscada.


KIT CARSON (1809-1868)
O guia do Oeste selvagem, defensor da justiça e dos indios. Enquanto percorreu os estados do norte esta imagem correspondeu aquilo que tantas vezes li nos livros de quadradinhos da minha infância. Possivelmente porque o indios Cheyennes e Utes nunca manifestaram oposição aos avanços do exército americano.

Só quando o coronel Carson foi incumbido de fazer o mesmo no Novo México e Arizona é que tudo passou a ser diferente. Privou os Navajos dos seus pastos e retirou-lhes o sustento de Inverno, levando à morte por fome guerreiros, mulheres e crianças. Os indios foram então obrigados a confinar-se ás reservas.


BUFFALO BILL (1846-1917)
O corajoso aventureiro e batedor da cavalaria americana. Foi carteiro da Pony Express, condutor de diligencias, ferroviário e gerente de hotel.

A maioria das suas aventuras nunca ocorreram, faziam parte de um espectáculo, uma espécie de circo, que ele organizou: O Buffalo Bill's Wild West Show.

Na verdade ele tinha sido um intrépido caçador de búfalos, pensa-se que só à sua conta terá abatido cerca de 5.000. Deu um elevado contributo para a quase extinção da espécie.

É triste chegarmos à conclusão que o nosso imaginário da juventude não passa disso mesmo: imaginário.

As figuras são manipuladas ao sabor de interesses comerciais para se tornarem exemplares aos nossos olhos. 

Hoje sabemos que estes pseudo-heróis afinal não passaram de uns párias para a sociedade em que viveram.

O romantismo daqueles personagens é derrotado pelos factos da historia e nós que queremos acreditar em algo belo e puro, somos confrontados com a dura verdade de que as lendas se constroem a partir da deturpação da realidade.
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