Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

RESPECT


"O rock, como o fado, blues, samba ou jazz, era, nos seus primórdios, musica de marginais, malvista pela sociedade e amiúde frequentada pelos inadaptados. Nem sempre se olhou com reverencia para a carreira dos Rolling Stones, onde a antiguidade é um posto. E a louvada autobiografia de Keith Richards não seria lida com a condescendência e carinho com que o fazemos hoje. É que, e perdoem-me a comparação menos nobre, os Rolling Stones não escrevem uma letra politicamente engajada há mais de 30 anos. Com John Lennon, nunca teria sido assim."

Miguel Cadete
In prefácio de John Lennon, Edição Expresso, 2011
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Meu caro Miguel Cadete,

Vou começar por refutar as suas afirmações acima transcritas.

I go wild ( Voodoo Lounge - 1994 ), Sweet neo-con ( A Bigger Bang - 2005) Undercover of the night ( Undercover of the night - 1983 ) , Indian girl ( Emotional Rescue - 1980 ), Oh no, not you again ( A Bigger Bang - 2005), Respectable ( Some Girls - 1978 ), Winning ugly ( Dirty Work - 1986 ).

Os temas que indico têm referências políticas. São apenas alguns exemplos que desmentem a afirmação de falta de envolvimento político dos Stones nas ultimas 3 décadas. Outras mais lhe apontaria.

Referindo por exemplo a temática de "Indian girl". A letra fala sobre os conflitos na Nicarágua, um país marcado pelo regime ditatorial da família Somoza durante 4 décadas, até a Revolução Sandinista em 1979.

Em "Sweet neo-con" Jagger, critica o falso moralismo vigente na Casa Branca de Bush. O termo Neo-Con é atribuído ao correspondente da BBC em Washington Mark Mardell, que descreveu como neo-cons "full-blooded nacionalistas do século 21", que "insistem que missão da América é trazer a democracia ao mundo".

"Oh no, not you again". Em vários concertos que se seguiram à 2ª vitoria de George Bush Jr., Mick Jagger dedicou, ironicamente, o tema ao presidente recém empossado. Antes haviam mesmo dado apoio a Bill Clinton.

Keith Richards  é filho de trabalhadores de fábrica e neto de socialistas e líderes de lutas pelos direitos civis no subúrbios de Londres.

Quando em 1989 a Republica Checa se desligou das amarras do bloco de leste, os Rolling Stones foram convidados para darem o primeiro concerto em Praga ainda antes da queda do muro de Berlim. A banda incorporava o sentido de liberdade que então se vivia. Vaclav Havel, o presidente Checo, tornou-se grande amigo do grupo.

Quando emitimos opinião, principalmente quando ela é lida por tanta gente, devemos ser rigorosos. Os casos de que lhe falo são objectivos, podemos sim debater a subjectividade do resto da sua afirmação.

O termo "Comparação menos nobre", tomei-o, e desculpe se me enganei, num sentido depreciativo. Não concordo minimamente com o que diz. Vejamos.

Os Beatles surgem como uma pedrada no charco musical britânico. Os Stones relevam essa pedra ás dimensões de um calhau. Passo a explicar.

Os Beatles com toda a sua genialidade, embora tenham rompido com a musica do tempo, nunca quebraram os laços com o "establishiment".

Quanto aos Rolling Stones, inicialmente houve tentativas de controle, mas rapidamente veio ao de cima a rebeldia e liberdade que sempre prezaram.

Foram eles que fizeram a fusão da musica negra (Blues) com a nova musica branca (Rock an' roll), surge em Inglaterra o Rythm & Blues.

Não podemos de forma alguma ignorar a importância que ambos os grupos tiveram para a musica contemporânea. Claro que contributos diferentes e complementares. Prova disso a colaboração que em diversas situações tiveram no trabalho de uns e outros.

A condescendência com que fala dos Stones resvala em 2 afirmações que passo a transpor:

"...Estava um dia pavoroso. Lá estava eu em Mount Street, enquanto uma tempestade infernal desabava sobre Londres. Deixei-me levar por esse espirito enquanto olhava pela janela e via aquela gente toda a tentar que o vento não lhe roubasse os chapéus de chuva, a correr a sete pés. Foi assim que me veio a inspiração (...) Estava um dia de merda e não tinha nada melhor para fazer. Claro que a canção pode ser lida de um modo metafórico..." Declaração de Keith Richards acerca do tema "Gimme Shelter". 

"...sobre as maravilhosas letras de Dylan escreveu-se mais do que alguma vez houve nessas letras, sobre as minhas também. Mas eram os intelectuais que decifravam isso tudo nos Beatles ou em Bob Dylan..." Afirmou John Lennon numa entrevista.

Por estes depoimentos podemos verificar o que se passa quando os críticos pseudo-intelectuais fazem as suas análises. Na maiora dos casos nem preparação técnica têm para emitir juízos.

Verificamos muitas vezes o endeusamento de grupos que terminaram as suas carreiras, muitos deles com merecido destaque. Não podemos esquecer que a sua imagem resulta da cristalização dos seus fins no apogeu das carreiras. Temos alguns exemplos justos: Beatles, Doors, Led Zepplin, Nirvana, etc.

Essas imagens impolutas resultam do facto de já não poderem errar, já não estão no activo.

Ora os Stones ainda por cá andam. Não estou a dizer que tudo o que fizeram é genial porque é impossível manter sempre o mesmo nível numa carreira tão extensa e tão intensa, mas serão sempre um marco definidor da carreira de qualquer músico, quer se goste ou não.

“Mick e eu somos amigos. Mais que amigos, somos irmãos. E, como acontece com irmãos que se amam, nosso relacionamento tem altos e baixos”. Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, sobre seu relacionamento com o vocalista da banda.

Sou contra o estabelecimento de rankings musicais, mas para objectivar a análise vamos verificar que os Rolling Stones são considerados pela generalidade das publicações especializadas como a 2ª banda mais importante da historia da musica logo a seguir aos Beatles e antecedendo os Led Zeppelin.

Albuns classificados com rating máximo pela Allmusic:

"The Rolling Stones Now" 1965

"Aftermath" 1966

"Between the Buttons" 1967

"Beggars banquet" 1968

"Let it bleed" 1969

"Sticky fingers" 1971

"Exile on main street" 1972

"Some girls" 1978

A publicação Rolling Stone Music considera "Exile on main street" o 7º melhor álbum de todos tempos. Penso que com uma produção mais cuidada, poderia ser considerado o melhor álbum da história da musica.

A musica dos Stones emana do coração. Constrói emoções. Não existe nada parecido. É algo que não se ouve...sente-se.

"Mick Jagger e Keith Richards insistiram em cobrir todas as despesas do funeral de Hu­bert. Deus abençoe os Rolling Stones”, afirmou à imprensa a viuva no funeral do guitarrista de blues Hu­bert Sumlin que havia sido uma das referencias do inicio da carreira dos Stones.

Por aqui se apura o perfil destes cavalheiros.

Portanto, caro Miguel, sejamos justos, mesmo de quem não gosta, estes homens merecem algo que se leva muito a sério na Jamaica, uma das terras adoptivas de Keith Richards:

RESPECT.

Com todo o  respeito e sem condescendência...

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