Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O mais antigo Classico do futebol mundial

retirado do site oficial da FIFA.

Edimburgo é a capital e o centro político da Escócia. Todos os anos, ela atrai milhões de turistas ao seu famoso castelo, ao seu renomado festival cultural e às suas históricas ruas de pedra. Porém, no mundo do futebol, a cidade sempre viveu à sombra de Glasgow. A vizinha ao oeste, maior e mais populosa, é sem dúvida a capital futebolística escocesa. Nela foi estabelecido o recorde de público na Europa, quando 149.415 pessoas lotaram o Hampden Park em 1935. O estádio também é palco da acirrada disputa entre Celtic e Rangers pela supremacia do futebol nacional — rivalidade que se renova todos os anos no célebre "Old Firm", o maior clássico do país.

Juntos, os dois clubes de Glasgow — os principais da Escócia — somam nada menos do que 95 títulos nacionais. Por isso, seria normal esperar que o clássico de Edimburgo, entre Heart of Midlothian e Hibernian, fosse considerado menos relevante do que o embate entre Celtic e Rangers. No entanto, o dérbi da capital escocesa acabou desenvolvendo uma identidade própria. No próximo domingo, o Hibernian recebe o seu maior adversário no estádio Easter Road para a 616ª partida entre ambos, reeditando uma das rivalidades mais antigas do futebol mundial.
Como tudo começou
Edimburgo assistiu à primeira edição do seu dérbi no dia de Natal de 1875. O Hearts — apelido carinhoso do clube, fundado um ano antes —levou a melhor, vencendo por 1 a 0 aquela que também foi a primeira partida competitiva do Hibernian. Com o surgimento de outros torneios regionais e nacionais, não demorou para que as duas equipes começassem a se enfrentar até dez vezes na mesma temporada, o que aumentou ainda mais a rivalidade entre ambos.

Naquele tempo, já existiam outros clubes na cidade, mas, assim como em Glasgow, o futebol da capital escocesa acabou polarizado entre um clube da elite, o Hearts, e outro popular nas zonas mais humildes, o Hibernian, apoiado especialmente pela classe operária de origem irlandesa. A diferença entre Edimburgo e Glasgow é a origem da rivalidade. Enquanto na maior cidade da Escócia a religião e os traços étnicos estão por trás da disputa, no caso da capital é a geografia que explica o embate. A maior parte da torcida do Hibs vive nas zonas leste e sul da cidade, enquanto os adversários estão mais concentrados na região oeste.

O clima nos dias de jogo quase sempre é marcado por uma grande hostilidade e, durante a partida, as entradas dos atletas de ambas as equipes são, muitas vezes, duríssimas. Porém, o dérbi de Edimburgo em geral não chega ao ponto de ser influenciado pelo ódio cego que deteriorou o clássico de Glasgow. Por isso, não é tão incomum encontrar famílias "divididas" entre os dois clubes.

Pat Stanton, um dos craques históricos dos Hibs e que também defendeu o Celtic, definiu bem a diferença entre os dois encontros. "Cresci em Edimburgo e sempre torci para o Hibernian", disse. "Por isso, esse clássico sempre foi o momento mais importante para mim. Mas eu tinha e continuo tendo muitos amigos que torcem para o Hearts e sempre nos juntamos para tomar umas cervejas depois da partida. Acho que as pessoas se dão conta de que é só um jogo, mesmo que seja um que todos queiram desesperadamente ganhar."

No entanto, pela complexidade da disputa e pelo fato de que há 50 anos nenhum clube de Edimburgo vence o campeonato nacional, é inegável o clima de tensão às vésperas de cada um dos clássicos da cidade. Csaba Laszlo, técnico húngaro que passou por vários clubes europeus durante a carreira, incluindo o Hearts, atribuiu este nervosismo à importância que o futebol tem na cultura escocesa. "A personalidade das pessoas é diferente aqui", afirmou certa vez. "O que eu adoro na Escócia é que todo mundo só fala de futebol. O interesse pelo esporte é maior e, na cidade, só se comenta sobre o clássico e o esporte. O amor pelo futebol é mais valorizado aqui do que em outros países."

Números
Os dois clubes estão empatados em número de títulos — quatro para cada lado. Mas o Hearts leva uma vantagem indiscutível no confronto direto: tem 273 vitórias, contra 198 do Hibernian. Estes números incluem competições locais e foi em uma delas que o Heart of Midlothian conquistou a maior vitória no clássico: um 10 a 2 em 1893, partida que também registra a maior quantidade de gols entre os dois clubes.

A torcida do Hearts também lembra saudosamente da sequência de 22 partidas invictas contra o rival entre as décadas de 1980 e 1990, além da vitória por 2 a 1 no dia em que o clássico teve o seu maior público: em fevereiro de 1955, 65.860 pessoas lotaram Easter Road. O único consolo do Hibs nas estatísticas é ter a maior vitória no dérbi pelo Campeonato Escocês: uma celebrada goleada por 7 a 0 sobre o arquirrival no dia 1º de janeiro de 1973.

Lendas e anedotas do passado
Aquele encontro talvez seja considerado um dos pontos altos da cultura popular que gira em torno do Hibs, mas o jogo mais marcante entre ambas as equipes aconteceu há 114 anos, na final da Copa da Escócia de 1896. Foi a única vez na história que a decisão do torneio foi disputada fora de Glasgow e apenas por equipes de Edimburgo. E quem saiu triunfante foi o Hearts, que venceu por 3 a 1. Aliás, os primórdios do clássico são marcados por vitórias memoráveis da equipe de Tynecastle. A vitória por 8 a 3 em 1935, por exemplo, é uma das que teve mais incidentes nos embates entre os dois clubes.

Contudo, o Hibs logo começou a ter os seus ídolos. Foi o setor ofensivo com os "Cinco Famosos" que ajudou o clube a conquistar três Campeonatos Escoceses entre 1948 e 1952. Gordon Smith, um dos integrantes daquele histórico quinteto, voltou a vencer a competição em 1960, dessa vez defendendo o Hearts. Por conta disso, ganhou um lugar na história do futebol de Edimburgo. Mais tarde, em 1962, conquistou novamente o torneio nacional com um terceiro time de fora de Glasgow, o Dundee.

Aliás, foi Eddie Turnbull, outro integrante dos "Cinco Famosos", quem dirigiu o Hibs naquela histórica vitória por 7 a 0, durante o bom período que teve como técnico da equipe. No entanto, não demorou muito para que a balança voltasse a pender para o outro lado. Na década de 1980, o Hearts ganhou o seu herói do clássico contra o arquirrival: John Robertson, apelidado de "O Destruidor do Hibs", é até hoje o maior goleador do dérbi em jogos pelo campeonato nacional, com 27 gols.

Recentemente, entre os jogos mais inesquecíveis protagonizados pelos dois clubes, está o empate em 4 a 4 de 2003. Naquele jogo, o jovem Graham Weir, de apenas 18 anos, marcou duas vezes nos descontos para dar um ponto ao Hearts. A semifinal da Copa da Escócia de 2006 foi ainda mais marcante. Naquela partida, o Hearts goleou por 4 a 0, antes de conquistar o troféu que o Hibernian vem cobiçando desde 1902. No entanto, o clube de Easter Road conseguiu a revanche e uma taça no ano seguinte, após derrotar o arquirrival por 1 a 0 nas quartas de final da Copa da Liga e depois levar o título.

O momento
Os raros e espaçados triunfos dos dois clubes e a incapacidade compartilhada de disputar troféus com as equipes de Glasgow levaram o então presidente do Heart of Midlothian, Wallace Mercer, a fazer uma proposta radical em 1990: fundir os dois times. Um "Edinburgh United", capaz de romper o domínio de Rangers e Celtic, era o sonho de Mercer, que chegou a comprar 60% das ações do Hibs, mas viu o seu plano ir por água abaixo diante da forte oposição da indignada torcida do Hibernian.

A chegada do investidor lituano Vladimir Romanov ao Hearts, em 2005, despertou a esperança de títulos sem a necessidade de medidas como a proposta de Mercer. No entanto, apesar da conquista do vice-campeonato no ano seguinte — que acabou com o monopólio de mais de uma década das equipes de Glasgow nas duas primeiras posições da tabela —, a promessa não se cumpriu.

Por sua vez, nos últimos dez anos o Hibs tem revelado uma série de jogadores que se tornaram titulares da seleção escocesa — todos saídos das categorias de base do clube. No entanto, a equipe segue mergulhada em uma fase de instabilidade. Prova disto é o fato de o recém-contratado técnico Colin Calderwood ser o oitavo treinador do time em menos de nove anos.

Desde que assumiu o comando, Calderwood viu a sua equipe despencar para o penúltimo lugar na classificação. Por isso, o clássico do próximo domingo não parece ser o momento ideal para a estreia de um treinador diante da própria torcida. Para ele, no entanto, este pode ser "o início perfeito" para a sua gestão. Se conseguir uma vitória que dê aos torcedores do Hibernian a chance de fazer piadas com os adversários, ele pode estar certo.
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