Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 4 de março de 2012

O lobo e o leão.

Um Lobo que acabara de roubar uma ovelha, depois de reflectir por um instante chegou à conclusão que o melhor seria levá-la para longe do curral, para que enfim, fosse capaz de servir-se daquela merecida refeição, sem o indesejado risco de ser interrompido por alguém.

Os seus planos foram bruscamente gorados quando no caminho se cruzou com um poderoso Leão, que sem qualquer conversa lhe levou a ovelha.

O Lobo contrariado mas sempre a uma distância segura do seu oponente, disse em tom injuriado, com uma certa dose de ironia:

- Não tens o direito de tomar para ti aquilo que por direito me pertence!

O Leão sentindo-se um tanto ultrajado pela audácia do seu concorrente, olhou em volta, como o Lobo estava longe demais e não valia a pena o inconveniente de persegui-lo, apenas para lhe dar uma merecida lição disse com desprezo:

- Pertence-te ? Por acaso compraste ? O pastor deu-te como presente? Desculpa a ovelha foi tão tua, como agora é minha...

E foi-se embora com a ovelha.

Moral da História:
Aquilo que se consegue a mal, a mal se perde.

Fábula escrita na Grécia por Esopo por volta do ano 620 A.C.

Quando lemos esta fábula 2.600 anos depois, não podemos deixar de sorrir com a sua bonomia e ingenuidade.

Hoje em dia toma-se posse ilegítima de bens ou ideias com a maior desfaçatez, muitas vezes protegidos até pela lei.

Após a apropriação torna-se absolutamente irrelevante a forma como se assumiu a posse. São-lhes prestadas todas as honrarias e benesses, como se sempre lhes tivessem pertencido por direito natural. Muitas vezes são condecorados pelo próprio Estado.

O furtar, extorquir, plagiar, esquivar-se e o especular, vão sendo legitimados por habilidades jurídicas praticadas em oportunismos de circunstancia que apenas servem para branquear e regularizar actos fraudulentos.

São estes "Oportunistas", que hoje são descritos como: "Indivíduos que revelam grande sentido de oportunidade". São pessoas audaciosas e astutas, muito consideradas e vistas pelos seus pares como uns vencedores e exemplos de sucesso.

Uma vez detentores daquilo que não lhes pertence, nunca mais a posse é questionada, até porque ela se esconde em formalismos jurídico-legais que protegem o obscurantismo da propriedade em instrumentos constituídos anonimamente: Sociedades Anónimas, Off-Shores, SGPS, Fundos Investimento, Títulos não nominativos, etc...

Os próprios herdeiros tomam como seu o que ilegitimamente foi subtraído pelos predecessores. Crescem convictos que essa forma de viver é o paradigma do sucesso. Conscientes desses procedimentos, tudo fazem para perpetuarem e engrandecerem a vantagem obtida.

Neste ciclo se mantém a nossa sociedade.

Também com a minha ingénua bonomia acredito que um dia virá em que os Lobos e Leões serão abordados pelos Pastores que lhes pedirão contas pelas ovelhas furtadas.
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