Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

17 gramas


- Rui, é maligno!


Uma névoa perpassou o ar quente daquela manhã de Junho. O calor tornou-se denso e opressivo, quase solido. Custava-me respirar. Por fim reajo.

- Diz-me o que temos de fazer a seguir. Não podemos perder tempo, vou já ter contigo.

Desmarquei a reunião que ia ter e segui para casa...

Durante a viagem de meia hora, na minha cabeça rodavam em espiral projecções de futuro, todas sombrias, sempre negativas. Se as coisas corressem mal, como iria acabar de criar os nossos três filhos? Como iriam conviver com ausência da mãe? Porque tinha de ser connosco que o destino negro se comprazia, como sempre? Quem queria vingar todos os males do mundo em nós? Como culpar alguém?

Quando cheguei abracei-a convicto que aquela meia hora tinha encerrado todo o meu desapontamento. Não havia tempo para mais queixumes. Ela sempre foi uma vencedora não ia ser um bicho mesquinho destes que havia de a derrotar.

Li o diagnostico três vezes, fui à net verificar a nomenclatura.

Carcinoma Intraductal com padrão cribriforme. Tem solução, se não se tornou invasivo o prognóstico é muito bom. Como tem apenas 3mm a sua retirada pode ser definitivamente eficaz.

Não há tempo a perder, ficou agendada para a semana seguinte uma ressonância magnética para confirmar se o cancro não tinha alastrado.

Mais tarde a Rita contou-me o pavor que sentiu durante a ressonância magnética, disse-me que foi o que mais lhe custou neste processo, pela sensação de solidão e claustrofobia.

O esforço foi compensado com a validação do diagnóstico inicial. A operação ficou marcada para a semana seguinte.

Durante este percurso nunca houve espaço para cepticismos ou choros de auto comiseração. As nossas conversas abordavam o tema de uma forma pragmática, como se de uma tarefa se tratasse...e era isso.

Ao longo do processo a Rita apenas chorou no dia do diagnóstico e nos dois dias após a operação quando verificou a cicatriz que tinha no peito direito e soube que haviam retirado 17 gramas de tecido.

Claro que em silêncio deve ter-se questionado da sorte muitas vezes, em casa connosco sempre se mostrou animada. As crianças apenas souberam o que se passava na véspera da operação, não havia necessidade de as preocupar com antecedência.

Finalmente soubemos que tudo tinha corrido pelo melhor. Desde o diagnóstico inicial até à operação haviam decorrido 4 semanas. A equipa médica foi de um profissionalismo inexcedível.

O nódulo havia sido detectado pela médica de imagiologia no exame anual de rotina. Quase por acaso detectou uma mancha com 3mm. Esta circunstância fez toda a diferença no desfecho da historia, alguns meses mais e este carcinoma poderia tornar-se invasivo.

Irá agora seguir-se um tratamento de quimioterapia para garantir a erradicação das células cancerígenas.

Conto-vos este episódio da nossa vida para que se mantenham alerta para este tipo de problemas. O tempo é o factor fundamental. Nunca percam tempo no real sentido do termo e não percam tempo com coisas que não sejam realmente importantes.
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