Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 28 de setembro de 2014

Eu e Deus não nos falamos...


Pode chocar o título deste texto, mas não há outra forma de colocar as coisas que tenho para dizer.

Na minha infância fomos apresentados um ao outro. A minha mãe teve grande papel nessa aproximação. Desde cedo comecei a frequentar a catequese, onde me deram todos os ensinamentos que me iriam conduzir no caminho da luz e da verdade.

O primeiro revés ocorreu durante a primeira comunhão. Tinham-me sempre dito que após a celebração da comunhão iria sentir-me uma pessoa diferente, iria ter em mim o espírito de Deus, conforme os ensinamentos de Jesus aos apóstolos. Claro que esta linguagem cifrada não é a mais indicada para uma criança de 10 anos. As alegorias e metáforas não são facilmente descodificadas por uma criança.

O resultado foi uma decepção. Não me senti nada diferente após a comunhão. Havia feito sacrifícios durante uma semana, portei-me bem, não disse um único palavrão, não fiz nenhuma das minhas asneiras do costume e afinal de nada valeu. Sentia-me na mesma.

Desde essa altura a minha relação com Deus arrefeceu. Já não me conseguiam convencer a ir à missa com facilidade. Lentamente fui-me afastando da palavra divina.

Por volta dos dezasseis anos li um grande romance de Fernando Namora intitulado “A noite e a madrugada”. É neste livro que encontro eco da maior dúvida que me assaltava na relação com Deus: A vida para além da morte.

Nele, um dos personagens, um contrabandista analfabeto chamado Pencas, responde a uma questão que os amigos na taberna lhe colocaram:

- Oh Pencas! Diz-nos lá, para ti o que é a morte?

E Pencas responde com a maior das simplicidades:

- Tu lembras-te do que eras antes de nasceres? Pois é isso que serás quando morreres!

Este curto diálogo teve um grande efeito em mim. Estava naquela simples frase toda explanação filosófica que mais tarde encontraria no existencialismo de Jean Paul Sartre, com a afirmação “Estamos sós e sem desculpas”.

A definição judaico-cristã de que em Deus temos a plenitude de tudo, para mim era confusa. Se era verdade, em Deus teríamos o bem e o mal. Nesta dialética a iniquidade estava a sair vencedora.

Durante o resto da adolescência fui racionalizando a inexistência de Deus. Conclui que Deus, tal como tudo o que existe, nasceu, viveu e morreu. Esta lógica é corroborada pela teoria do Big Bang, que para mim é a “Partícula de Deus”.

A vida foi-me afastando de Deus cada vez mais. E cheguei á conclusão efetiva da sua inexistência da forma mais cruel. Através dos meus filhos.

Tenho 3 filhos. Todos eles nasceram com problemas. O mais velho com síndrome de hiperatividade com deficit de atenção, o do meio com déficit cognitivo grave, agora moderado e o mais novo com diabetes tipo 1.

Estes acontecimentos tiveram em mim um grande efeito de revolta em relação aos desígnios de Deus. Dei por mim acreditar na existência de Deus. Mas não era por ser bom, ele estava a vingar-se de mim.

Questionei-me durante algum tempo por que razão se vingara ele das minhas iniquidades, em seres que nada de mal tinham feito a não ser o facto de serem meus filhos? Não era suposto Deus ser uma entidade benéfica e justa? Porquê esta injustiça?

Depressa conclui ser um raciocínio inócuo, sem qualquer utilidade. Porque eu estava a iludir-me com a premissa de que Deus me estava a prejudicar por via dos meus filhos. Era esse o erro de base, atribuir culpas a terceiros. Este tipo de desculpabilização, normalmente bloqueia o discernimento, impede-nos de avançar e deixa-nos presos à vontade divina.

Rapidamente me centrei no que de facto é real. Deus não existe. Aquilo que nos acontece tem a ver com a sequência normal da natureza. A genéctica é que define, só temos de atuar de acordo com o que nos é possível. Não podemos inventar desculpas metafísicas para realidades bem terrenas. Seria bem mais fácil agarrar-me a uma entidade divina, pagar umas promessas e aguardar que tudo se ajuste, mas infelizmente não acredito que isso resulte.

Eu e a minha mulher deixamo-nos de misticismos, pusemos mãos à obra e tratamos de criar estes três rapazes de acordo com as regras da natureza e sem intervenções divinas. Houve momentos de dúvida, mas nunca de piedade, o pragmatismo não deixou espaço para que a espiritualidade atrapalhasse.

O amor que lhes demos e que nos temos é bem concreto, real, partilhado, nada pomposo, nada divino e fizemos o nosso milagre.

Posso hoje dizer que temos uma família feliz, simples, sólida, sem cicatrizes delimitadoras de incapacidades. Sem nunca ter incentivado ou desincentivado a relação com Deus, mantemo-nos em paz e harmonia.

Quanto a Deus?

Não nos falamos...

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Piratas de que ninguém se lembra


Quando pensamos em piratas, imaginamos homens barbudos de cabelos sebosos e compridos, queimados pelo Sol e pelo sal, seres destemidos, impiedosos e brutais. 

O que hoje vos conto não tem a ver com esses, mas sim com mulheres pirata. Vou relatar-vos histórias das mulheres pirata mais infames dos sete mares.

Anne Bonny
Nasceu na Irlanda em 1698, o seu nome verdadeiro era Anne Cormac. Ruiva e de temperamento volátil, tornou-se famosa depois de ter casado com o pirata James Bonny.

O casamento durou pouco. Juntou-se com outro pirata, Calico Jack Rackham, que viria a ser seu marido, a seguir tornou-o seu imediato no galeão Revenge. Em 1720 o navio é capturado pela marinha inglesa. Conta-se que na prisão, enquanto aguardavam julgamento, Anne disse ao seu marido: “ Lamento ver-te nesta situação, mas se tivesses combatido como um homem, não serias enforcado como um cão.”

Rackham foi enforcado, Anne como estava grávida foi poupada. Conta-se que o pai, pessoa influente, terá pago o seu resgate.

Não há registos da sua morte.

Mary Read
Era a melhor amiga de Anne Bonny. Vestia-se de homem. A mãe sempre a vestiu de rapaz para aproveitar a roupa do irmão mais velho e ela assim se habituou. Chegou mesmo a alistar-se no exército inglês sob o nome de Mark Read.

Mais tarde chegou a viver com um soldado um soldado flamengo, após a morte prematura deste, viajou até às Índias Ocidentais.

O barco onde viajava foi tomado por piratas. Os captores eram nada mais, nada menos do que Anne Bonny e Calico Rackham. A partir daí nasce a amizade entre Anne e Mark.

O marido de Anne tinha ciúmes daquela relação, nessa altura é-lhe revelada a verdadeira identidade de Mark.

Após a captura do Revenge, esteve presa com Anne Bonny, mas Mary morreu na prisão em 1721 vítima de febre.

Sadie “A Cabra”
Era líder de um grupo de ladrões das ruas de Nova Iorque no final do sec. XIX. Chamava-se Sadie Farrell.

Em 1869 deixou as ruas para se dedicar a piratear barcos que transitavam no canal de West Side em Manhattan. Com o seu grupo de delinquentes percorriam o rio Hudson e invadiam as aldeias ribeirinhas. Sequestravam alguns habitantes e exigiam resgates, quando estes não eram pagos os reféns eram atirados às águas.

Estes assaltos duraram apenas uns meses porque os locais começaram a organizar-se a reagir às investidas. Sadie e os seus homens voltaram para as ruas de Nova Iorque.

Uma vez numa luta num bar com outra mulher ficou sem uma orelha, mas usou-a num medalhão até ao final da vida.

Não há registo da sua morte.


Rainha Teuta da Illyria
Foi rainha da tribo Ardiaei, um território que hoje corresponde à Croácia.

Durante a sua curta regência de 4 anos encorajou a pirataria. Os seus corsários chegaram a dominar o mar Adriático. O seu reino tornou-se muito rico e poderoso graças aos saques de barcos romanos, gregos e fenícios.

Em 227 AC, após uma guerra de 2 anos, perdida para os romanos, Teuta foi deposta do seu trono e a história de uma mulher outrora poderosa, perdeu-se no tempo.

Jacquotte Delahaye
Filha de um francês e de uma haitiana. Não há registo preciso do seu nascimento, viveu durante o sec. XVII.

Esta pirata famosa, ficou sem os pais muito cedo. Tinha um irmão deficiente, para tratar dele disfarçou-se de homem e tornou-se pirata nos mares das Caraíbas.

Após ter vivido muitos anos como homem, assumiu-se como mulher. Era descrita como sendo possuidora de uma beleza invulgar. Por ser impiedosa e ter cabelo ruivo, recebeu o epíteto de “A Morte vermelha”.

Morreu por volta de 1656 numa batalha quando defendia uma pequena ilha das Caraíbas que havia conquistado uns anos antes.


Jeanne de Clisson
Nasceu numa família nobre francesa no ano de 1300. Casou-se pela primeira com 12 anos. Após a morte do seu marido, casou uma segunda vez com Olivier de Clisson, um bretão que durante anos combateu a Inglaterra.

Em 1341 começa a Guerra dos Cem Anos. Dois anos depois, Olivier, por denúncia de um companheiro de armas Charles de Blois, é acusado de traição pelo Rei de França Filipe VI.

Foi decapitado em 2 de Agosto de 1343.

Jeanne jurou nesse dia que vingaria a morte do seu marido.

Vendeu as terras que lhe pertenciam e arregimentou um pequeno exército para combater as forças pró-francesas da Bretanha. Quando a situação em terra começou a complicar-se adquiriu 3 navios de guerra.

Mandou pintar os navios de preto e colocar velas vermelhas. A sua pequena frota começou a ser chamada pelos ingleses de “Black Fleet”. Patrulhava as águas do Canal da Mancha, seu objetivo era capturar navios franceses, especialmente da frota de Filipe VI.

Conta-se que as suas tripulações eram impiedosas e executavam tripulações inteiras, deixando vivos apenas 1 ou 2 tripulantes, para que contassem ao rei quem os tinha capturado.

Jeanne ficou com o epiteto de “A Leoa de Brittany”. Os acordos que estabelecera com os ingleses garantiam-lhe abastecimento e proteção.

Foi pirata durante 13 anos. Em 1356 casou com o tenente inglês Sir Walter Bentley. Viveu um resto de vida em tranquilidade no castelo de Hennebont em território francês aliado à coroa inglesa.

A vingança sobre Charles de Blois nunca foi consumada. Ele morreu num combate em 1364 e mais tarde foi canonizado pela Igreja Catolica.

Quanto a Jeanne, nada mais se soube da sua vida e tornou-se uma lenda.


Anne Dieu-Le-Veut
Nasceu na Bretanha em 1661. Por motivo de roubo, terá sido deportada para a ilha Tortuga, o paraíso da pirataria.

Casou com um pirata chamado Pierre Lelong, que foi morto em 1690. No ano seguinte torna a casar, desta vez com Joseph Cherel que morreu em duelo no ano de 1693.

Anne para vingar a morte do marido, desafiou Laurens de Graaf para um duelo. Graaf recusou desembainhar a espada contra uma mulher. Preferiu pedi-la em casamento, ela aceitou e casaram em 28 de Julho de 1693.

Anne começou a acompanhar o seu marido nas expedições de pirataria. Era tida como uma mulher corajosa e cruel, comandava o navio e a tripulação
em conjunto com Graaf.

Em 1693 tomam a Jamaica. Como reconhecimento, o rei de França atribuiu ao seu marido, o título de Chevalier do Reino.

Em 1695 os ingleses retaliam e Anne e os seus filhos são feitos reféns. Em 1698 a França paga um resgate e eles são libertados.

Juntamente com Laurens de Graaf acabaram por ir viver para o Louisiana, que na altura era uma colónia francesa.

Do resto da sua vida, não existem registos, sabemos apenas que morreu em 1710.


Sayda El Horra
Nascida no ano de 1495 em Barraxe, província de Xexuão a norte de Marrocos, era filha do alcaide da cidade e da sua esposa castelhana. Diziam que era detentora de grande inteligência e que recebera formação dos maiores estudiosos do seu tempo.

Em 1510 casou-se com Mohamed Al- Mandari, o alcaide da cidade de Tetuão.
Após a morte do seu marido, Sayda montou uma frota que controlava o tráfego naval na área de Gibraltar. Os corsários de El Horra causaram grandes prejuízos aos navios portugueses que faziam a rota para Ceuta, Tanger, Arzila e Alcácer-Ceguer.

O seu sucesso, levou o poderoso rei de Fez a pedi-la em casamento. Após o casamento o rei encarregou-a das relações com a coroa portuguesa.

Após um ano foi destituída das funções através de uma intriga engendrada pelo seu irmão em conluio com o governador português de Ceuta, Afonso de Noronha.

Terá morrido na sua terra natal em 1542.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ele e ela



- Amor queres ir ao ginásio comigo?
- Estás a chamar-me gorda?

- Não! Deixa lá!
- Estás a chamar-me preguiçosa?

- Tem calma, amor!
- Estás a chamar-me histérica?

- Não disse nada disso!
- Então, estás a chamar-me mentirosa?

- Ok! Não vás...
- Espera lá... Por que é que queres ir sozinho ao ginásio?


Um amigo enviou-me por mail, tinha de partilhar convosco.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A Injustiça com ministra da Justiça


A propósito da crise que ocorre na nossa justiça, não posso deixar passar em claro uma situação que me parece por demais injusta.

Andam por aí umas vozes a atirar para a lama o nome da Dr.ª Paula Teixeira da Cruz, só porque a senhora resolveu resolver os problemas da nossa Justiça.

Prometeu aproximar a Justiça aos cidadãos.

Ao reduzir o número de tribunais, constata-se que há menos injustiças. Só se vai tribunal quando se procura Justiça. Quando ela já existe, para que serve um tribunal?

Logo, através de um silogismo, se conclui que, quanto mais longe estamos de um tribunal, mais perto estamos da Justiça. Cumpriu ou não cumpriu?

Prometeu resolver os atrasos na Justica.

A senhora não resolveu o atraso nos processos? Grande parte deles vai prescrever. É ou não verdade que vão deixar de estar atrasados?

Prometeu acabar com as pendências.

Digam-me, em relação às pendências que ela sempre afirmou que havia de acabar com elas, acabaram ou não acabaram?

Os processos que não prescreveram já não estão pendentes, estão empilhados nos corredores dos tribunais. Acabaram ou não acabaram as pendências?

Prometeu poupanças na Justiça.

É ou não verdade que muitos dos prevaricadores vão poupar uma pipa de massa em indemnizações, multas, coimas, etc.Cumpriu ou não cumpriu?

Mais processos prescritos, menos penas, menos presos, menos custos. Cumpriu ou não cumpriu?

O litigio cria mau estar entre as pessoas, reduza-se a litigância e veremos o aumento da paz social. A senhora tem visão.

Finalmente temos uma ministra que cumpre as promessas.

Sejam justos, façam justiça à Ministra da Justiça, não sejam Injustos.

Eu se fosse Presidente, reservava uma medalha de Mérito para atribuir à Sr.ª Ministra no próximo 10 de Junho.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Descoberta a identidade de Jack the Ripper?



Uma análise de ADN pode ter revelado a verdadeira identidade de Jack, o Estripador, o serial killer responsável por, pelo menos, cinco assassinatos em Londres em 1888.

Um xaile encontrado junto ao corpo de Catherine Eddowes, uma das vítimas do criminoso, continha o ADN dela e do assassino.

A descoberta foi possível depois que o empresário Russel Edwards, ter comprado o xaile num leilão e o entregou a Jari Louhelainen, um especialista em análise genética. Através de análises, Louhelainen conseguiu confirmar a compatibilidade do ADN da vítima e do criminoso, segundo o diário britâncio "Daily Mail".

Com uma câmera de infravermelhos, Louhelainen conseguiu confirmar que as marcas escuras não eram apenas sangue, mas respingos de sangue arterial provocado pelos cortes que causaram a morte de Catherine.

Outra descoberta através da fotografia UV demonstrou manchas com características de esperma. "Eu nunca esperei encontrar evidências do próprio estripador, o que foi emocionante", contou Edwards.

A identidade da vítima foi comprovada com análise comparativa de ADN de uma descendente de Catherine.

Para investigar o esperma encontrado no tecido, o especialista pediu o auxílio de David Miler, outro reputado cientista forense.

O mesmo trabalho de investigação foi feito na procura de um parente do principal suspeito que era Aaron Kosminski, um cabeleireiro polaco que tinha 23 anos à época dos crimes.

No início da década de 1880, ele e sua família mudaram-se para Londres. Kosminski tinha problemas mentais. Após ter sido detido como um dos suspeitos, apesar de nunca ter sido provado o seu envolvimento nos assassínios, passou o resto da vida internado em hospícios.

Edwards localizou uma descendente de uma irmã de Kosminski, Matilda. Ela aceitou dar uma amostra de seu ADN para a investigação. Segundo as análises de Louhelainen e Miler, o exame garante com grande percentagem de certeza a identificação do criminoso.

"Agora que acabou, estou animado e orgulhoso pelo que conseguimos, e tenhamos garantido no máximo que pudemos, que Aaron Kosminski é o culpado", conta Louhelainen.

Edwards, afirmou estar satisfeito por ter conseguido respostas sete anos após a compra do xaile. "Ele era uma criatura patética, um lunático que alcançava a satisfação sexual ao esquartejar mulheres de forma brutal. Morreu no hospício de Leavesden, de gangrena, aos 53 anos, pesando apenas 44 quilos".

"Eu, certamente, não tinha ideia de que esse frágil, incompleto e extremamente manchado xaile levaria à solução do mais famoso mistério de assassinatos de todos os tempos: a identificação de Jack, o Estripador", afirmou Edwards ao "Daily Mail".

"Não há dúvida de que uma enorme quantidade de livros e filmes surgirão para especular sobre a personalidade e as motivações de Kosminski. Eu não tenho vontade de fazer isso. Eu quis arranjar respostas verdadeiras usando as evidências científicas, e estou impressionado por ter conseguido resolver o mistério 126 anos depois".

Pode não ter resolvido o mistério mas esta visibilidade não irá prejudicar a sua conta bancária.

Edwards para recuperar o investimento, publicou um livro dia 9 de Setembro, onde explica toda a história e os pormenores da investigação. "Naming Jack the Ripper", virá a ser um "best seller" com certeza.

Quanto ao mistério, esse irá permanecer porque o turismo em torno de White Chappel a isso obriga.




domingo, 14 de setembro de 2014

Ressaca



Ele jazia no quarto
Esperava que a luz chegasse
Mas incapaz de brilho
Deitou-se e adormeceu.

Antes disso era a ideia
De um escriba que conseguiria
Dizer ao mundo
Tudo o que sentia
Mas naquele momento
A luz da apagou-se
Talvez para sempre
Que futilidade
A realização de uma ideia...

Preso que estava na matéria
Da sensação primária.
Nada melhor do que viver o dia-a-dia
Beber cerveja, dizer asneiras
Conquistar mulheres
E não escrever
Porque o real é material.

Assim seja:
A realização de si mesmo
Sendo outro.


20/08/1991

Apenas sós



Estranho o estarmos sós
É sempre alguém que nos lembra
Que estamos sós
Porque temos de o sentir?
Sempre em relação a alguém?
É ilógico...

Devíamos senti-lo apenas,
Porque estar só é estar sozinho
Não é com ninguém...

E porque quando estamos
Apenas sós, connosco
Não nos sentimos sofrer
Se estamos sós
Mesmo sem ser com ninguém

A solidão devia ser apenas isso
Não necessita ser contra alguém
E assim não sofreríamos
Sentir-nos-íamos apenas sós
Sozinhos...



27/10/1993

Por mim, em mim, para mim, sem mim, de mim



A música triste ecoa na sala
A tristeza vive aqui
Na sala onde estou
A pena penando por mim
Dilacera o ar que se torna gelado
Tremo do frio em mim
Na sala as paredes abrem para o céu
Húmido, o ar frio da sala
E se o vento soprasse
Varreria assim o frio daqui
A sala fecharia as paredes ao céu
Húmido, passa para mim o frio
E a tristeza da musica
Voaria assim sem mim

Em silvos de magia
Um filtro de alegria
Viva, viva
Porque assim
Tudo depende de mim

A nossa inquietude



Um sinal, um simples sinal
Do regresso de tudo,
O retorno ao começo
Um susto velado por julgar irreal
Mas existe e tortura.

Não...
Recuso o sinal quero apagá-lo
Mas não se extingue
Saltita brilhante
Ofusca-me a mim.

O calor de um corpo que choca no meu
O suor da derme que mistura salgado
Um escorrer líquido, gelado
É a alma inclusa, confusa
A nádega, o seio, uma célula, um espírito
Arranca do êxtase a parte cerebral
O animal fraqueja, suspira e apaga
Volta o metafísico moral de gente
Inquieta-se o espírito
Fecunda-se a alma com a dúvida
E sofre-se, torna a sofrer-se.


10/06/1993

A vela



A chama lentamente ondula
É uma vela, é um clarão na pequenez do espírito
Se me basta? Não sei...
Talvez a busca da glória fluorescente
Merecesse mais daquilo que quero
Só isto dá para sentir que passo
Falta o resto do que não sei
Para sonhar, viver ou ser

Um dia descobrirei o unguento



Claramente se turva o mundo
Por apenas ter cores suas
Que não as minhas,
Por serem escuras e ténues
Translúcidas e garridas
Impróprias de um arco-íris
Tenebrosas ao vento
Elemento fatal que varre
O vazio
O vazio da morte
Com vida por dentro
Porque recusa render-se
Porque é mais do que isso
Porque a raiva sacode
Violenta semente da dor.
...Não, não quero
Porque não para o mundo?
Sou mais do que tudo
Muito menos do que nada
Mas serei sempre só
Só...Apenas eu
Dono de mim
Arrogante sofredor
Original por ser assim sempre
Para sempre
A faca corta
Separa-me a carne
Dilacerado, grito a dor aberta.
A cicatriz não fecha
Rasga-me de novo
E sonho, sonho
A tintura que curará esta fenda
Mas o sal das lágrimas queima
Carne viva que sangra
E chora o choro chorado
Em circuito fechado.
Porque não vale a pena
Sempre haverá outra lâmina
Que me cortará
E de novo sangrarei
Então para quê chorar?
Do que vale acreditar,
Lutar não vale a pena
Sempre haverá outra lâmina.
Mas um dia descobrirei o unguento
Que para sempre fechará as feridas
E nunca mais a lâmina cortará
E nunca mais chorarei
E nunca mais sangrarei
E para sempre a felicidade.


27/10/1993


Carta de despedida



Que importância temos se aqui estamos tão fugazmente? Se nos vamos na morte e em breve nada seremos?

Já o passado não dói porque passou e a seguir virá o resto, que também, em breve será recordação.

Quando me disseste adeus, chorei. Agora rio dessas lágrimas, porque já nada importa. Sente-se o sangue correr nos vasos, nas veias, nas artérias, que mais quero se ele flui? Basta-me estar a viver a superfície das coisas, porque a profundidade delas reside na morte, exatamente porque o tudo é nada na redundância deste ciclo de vida e morte.

É fria a noite, gelada a solidão, mas calma a sensação de não haver compromissos. Basta-me morar algumas horas em corpos de gente que nem conheço, gente que não sei a que horas jantam, ou se gostam de sopa de brócolos. E que importância tem isso? Muito melhor que sentir a responsabilidade de um objetivo, é viver a disponibilidade de ser incompleto mas vivo.

Da despedida indiferente, brotou a insensibilidade que sinto pela sensação de me sentir oco e inócuo. Vale a pena sofrer por algo? Claro que não, para que serve esta caneta que treme, esta carta inerte? Amanhã nascerá de novo o Sol e tudo se repete, as células de hoje morrem dando vida a outras mais jovens mas iguais, sem haver mutação nesta mudança. Rezam as histórias antigas de que tudo assim se forma e tudo assim se decompõe.

Sentimento para que serve? Até eu me acho ambiguo, incerto; não sei se amanhã vou querer o que hoje desejo. Então porquê exigir dos outros? Claro que não. Vivamos a nossa história com lógica e sem sobressaltos, porque tudo é linear e preconcebido, nada nasce do acaso. Lutar não serve de nada, só prejudica, desacelera o curso das coisas. Mais vale deixarmo-nos levar pela tormenta e nadar sem temor, acompanhando a corrente, porque não há surpresas e porque mais tarde ou mais cedo todos vamos desaguar no mesmo oceano. Que diferença faz ser daqui a cinco ou cem anos, não será igual?

Para que servem os conceitos de amor ou ódio? Não somos tão duradouros como isso, portanto nunca teremos tempo suficiente para os entendermos. Como tal teremos de viver sem os conhecermos realmente. Então como saberemos se eles existem?

Claro que não, nunca o saberemos. Se não sabemos a imensidão das coisas, também não poderemos subverte-las, adivinhar-lhes os princípios. Então nunca poderemos constatar a sua existência, ou antever-lhes os fins...

Tudo tem um ciclo biológico, se não dramatizarmos não sofremos e viveremos e morreremos, então para sempre seremos felizes.

Adeus!


Livro: A noite e a madrugada - Fernando Namora

Publicado em 1950. Foi o romance de maior sucesso de Fernando Namora.

Conta-nos a vivência das gentes raianas da fronteira beirã de Portugal e Espanha.

O realismo das descrições levam-nos a simpatizar com os personagens, que embora foras da lei, são retratados como sobreviventes de uma realidade dura.

O existencialismo surge-nos de uma forma simples e directa no personagem do Pencas.

Um livro a ler, sem dúvida.

Livro: Retalhos da vida de um médico - Fernando Namora

Publicado em 1966.

Fernando Namora relata-nos experiências vividas por ele próprio enquanto médico.

Narrativa praticamente auto-biográfica, sob forma aproximada a um diário.

É uma viagem ao País real. Contacto directo com as gentes do interior.

Um certo desencanto pelo atraso de desenvolvimento a todos os níveis.

Um livro a ler, sem dúvida.

E como viver nessa pergunta?





Nem o cérebro pára, nem o corpo descansa...
Roda a cabeça em busca dos porquês
Não entendo esta ânsia.
Se algo acontece que nos limita
Logo nós partimos em busca da evasão
Se no começo dos tempos assim era,
Porque continua esta procura incessante?

Se a solidez da sabedoria
Nos desse a segurança da certeza,
Que bom seria não haver insatisfação.
Não paro de criar questões que não existiam
Não me contento em ter respostas
Tento sempre encontrar novas perguntas.
Por vezes é a angústia
Emerge se pensarmos no fim dos tempos,
Essa pergunta
Essa armadilha que nos limita
Mas não paramos
Um dia teremos a resposta

A procura da imortalidade do homem
Um dia acabará com a ciência
E ela acabará com o homem
Vivendo este antagonismo
“Ser ou não ser”
E como viver nessa pergunta?


28 Janeiro

Romantismo X Realidade


As nuvens adensam-se
Indiferentes a nós
Pedantes que somos
Convictos na força de tudo alterar...




Que distante me soa esta reflexão. A “maravilhosa” Humanidade tratou de a desmentir com inusitado afinco. É verdade que somos capazes de manipular a criação, grande parte da Natureza submete-se aos nossos caprichos, será que se civiliza?

Uma espécie guerreira (Darwin tinha razão), é a mais forte que até a si mesma se supera.

O homem perdeu o auto controlo. Olha em redor consciente do seu total domínio.

Que satisfação não haver adversário, há que manter o antagonismo como justificação existencial.

O que resta senão matarem-se uns aos outros, sustentando assim uma dialética demente?



A propósito de “1 milhão de minutos para a Paz”

16/09/1986

Lentamente...


Tingem-se de branco os raios
O vermelho sangue da vida esvaindo-se
Quedaram-se os ombros imoveis
Emergindo voláteis os olhos
O espasmo de um grito surdo
Lentamente o músculo oscila
Cai a nuvem cinza na alma
Apaga-se o fogo de nada
Nasce tudo de novo, agora
Na calma vazia do fim...


21/04/1993


sábado, 13 de setembro de 2014

Saudade

Coração apertado
Coagulado o sangue
Não escorre
Permanece imóvel
Peito ferido e aberto
Aguarda o bálsamo
Que cura...
E és tu,
És tu o unguento.

A saudade de te não ter
Ausente me fazes mal
Presente em mim
Me condenas a ser teu
Que tormento este

A saudade de te não ter
Tua voz ecoa no vazio
Teu cheiro me deixa imóvel
Quanto te quero
Agora sei quanto te quero
Agora sei quanto te amo.

Este silêncio mata-me
Esta saudade que me corrói
E volto atrás e digo:
“Quanto errei por não te ver”
Cego, meu espírito se quedou
Não ouvindo o rufar do peito
Agora que estás ausente
O coração aperta-se e ouve-se
Deixando um eco no ar
Escrevendo o teu nome
Gravando-te em mim

Agora sei a saudade de te não ter
Não mais duvidarei
Da voz que vem de dentro
E me diz: Amo-te!

Quando o coagulo desaparecer
Voltará a escorrer o líquido
De novo a vida brotará
Feliz por saber o que é
A saudade de te não ter

Jamais ficarás distante
Porque este frio faz mal
Quero o teu calor, a tua voz
Quero o teu cheiro, teu choro
Quero o teu riso, tua raiva
Quero o teu amor
Quero-te meu amor



Cascais, 2/3/1997

Livro: A minha tia Júlia e o escrevedor - Mario Vargas Llosa

Romance publicado em 1977.

Trata-se de um enredo insólito em que se cruzam duas histórias perpendiculares. O romance de um aspirante a escritor com a sua tia com mais vinte anos e uma novela radiofónica de grande audiência no Peru.

Uma escrita de mestre repleta de ironia.

Um grande livro de um escritor que recebeu o Prémio Nobel em 2010.

A ler, sem dúvida.

Livro: O primeiro Verão das nossas vidas - Pat Conroy

Publicado em 2009.

Trata-se de um romance do mesmo autor de "O Príncipe das marés".

A história inicia-se no final dos anos sessenta em Charleston, na Carolina do Sul. Nela são colocados os preconceitos que compõe a sociedade daquela época, no Sul dos Estados Unidos.

Conta as relações de um grupo de amigos que se conhece durante umas férias de Verão,

Parece um romance talhado para se tornar argumento de um filme. Escrito com grande rigor e desenrolando-se numa intensidade crescente.

Um excelente livro.

Recomendo.

Livro: Ice man - Philip Carlo

Publicado em 2007.

É um relato impressionante da vida de Richard Kulinski, um assassino profissional ao serviço da máfia de New Jersey. Ao longo de 40 anos matou cerca de 200 pessoas.

A forma como ocultou a sua vida dupla da sua própria família, é absolutamente espantosa.

Trata-se de uma biografia dura, com episódios chocantes pelo facto de terem sido reais.

Em 2010 foi realizado um filme em que o Kulinski é interpretado por Mickey Rourke. Ainda não tive oportunidade de ver, mas normalmente os filmes ficam aquém dos livros que lhes dão origem...

Quanto ao livro, recomendo vivamente.