Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 28 de setembro de 2014

Eu e Deus não nos falamos...


Pode chocar o título deste texto, mas não há outra forma de colocar as coisas que tenho para dizer.

Na minha infância fomos apresentados um ao outro. A minha mãe teve grande papel nessa aproximação. Desde cedo comecei a frequentar a catequese, onde me deram todos os ensinamentos que me iriam conduzir no caminho da luz e da verdade.

O primeiro revés ocorreu durante a primeira comunhão. Tinham-me sempre dito que após a celebração da comunhão iria sentir-me uma pessoa diferente, iria ter em mim o espírito de Deus, conforme os ensinamentos de Jesus aos apóstolos. Claro que esta linguagem cifrada não é a mais indicada para uma criança de 10 anos. As alegorias e metáforas não são facilmente descodificadas por uma criança.

O resultado foi uma decepção. Não me senti nada diferente após a comunhão. Havia feito sacrifícios durante uma semana, portei-me bem, não disse um único palavrão, não fiz nenhuma das minhas asneiras do costume e afinal de nada valeu. Sentia-me na mesma.

Desde essa altura a minha relação com Deus arrefeceu. Já não me conseguiam convencer a ir à missa com facilidade. Lentamente fui-me afastando da palavra divina.

Por volta dos dezasseis anos li um grande romance de Fernando Namora intitulado “A noite e a madrugada”. É neste livro que encontro eco da maior dúvida que me assaltava na relação com Deus: A vida para além da morte.

Nele, um dos personagens, um contrabandista analfabeto chamado Pencas, responde a uma questão que os amigos na taberna lhe colocaram:

- Oh Pencas! Diz-nos lá, para ti o que é a morte?

E Pencas responde com a maior das simplicidades:

- Tu lembras-te do que eras antes de nasceres? Pois é isso que serás quando morreres!

Este curto diálogo teve um grande efeito em mim. Estava naquela simples frase toda explanação filosófica que mais tarde encontraria no existencialismo de Jean Paul Sartre, com a afirmação “Estamos sós e sem desculpas”.

A definição judaico-cristã de que em Deus temos a plenitude de tudo, para mim era confusa. Se era verdade, em Deus teríamos o bem e o mal. Nesta dialética a iniquidade estava a sair vencedora.

Durante o resto da adolescência fui racionalizando a inexistência de Deus. Conclui que Deus, tal como tudo o que existe, nasceu, viveu e morreu. Esta lógica é corroborada pela teoria do Big Bang, que para mim é a “Partícula de Deus”.

A vida foi-me afastando de Deus cada vez mais. E cheguei á conclusão efetiva da sua inexistência da forma mais cruel. Através dos meus filhos.

Tenho 3 filhos. Todos eles nasceram com problemas. O mais velho com síndrome de hiperatividade com deficit de atenção, o do meio com déficit cognitivo grave, agora moderado e o mais novo com diabetes tipo 1.

Estes acontecimentos tiveram em mim um grande efeito de revolta em relação aos desígnios de Deus. Dei por mim acreditar na existência de Deus. Mas não era por ser bom, ele estava a vingar-se de mim.

Questionei-me durante algum tempo por que razão se vingara ele das minhas iniquidades, em seres que nada de mal tinham feito a não ser o facto de serem meus filhos? Não era suposto Deus ser uma entidade benéfica e justa? Porquê esta injustiça?

Depressa conclui ser um raciocínio inócuo, sem qualquer utilidade. Porque eu estava a iludir-me com a premissa de que Deus me estava a prejudicar por via dos meus filhos. Era esse o erro de base, atribuir culpas a terceiros. Este tipo de desculpabilização, normalmente bloqueia o discernimento, impede-nos de avançar e deixa-nos presos à vontade divina.

Rapidamente me centrei no que de facto é real. Deus não existe. Aquilo que nos acontece tem a ver com a sequência normal da natureza. A genéctica é que define, só temos de atuar de acordo com o que nos é possível. Não podemos inventar desculpas metafísicas para realidades bem terrenas. Seria bem mais fácil agarrar-me a uma entidade divina, pagar umas promessas e aguardar que tudo se ajuste, mas infelizmente não acredito que isso resulte.

Eu e a minha mulher deixamo-nos de misticismos, pusemos mãos à obra e tratamos de criar estes três rapazes de acordo com as regras da natureza e sem intervenções divinas. Houve momentos de dúvida, mas nunca de piedade, o pragmatismo não deixou espaço para que a espiritualidade atrapalhasse.

O amor que lhes demos e que nos temos é bem concreto, real, partilhado, nada pomposo, nada divino e fizemos o nosso milagre.

Posso hoje dizer que temos uma família feliz, simples, sólida, sem cicatrizes delimitadoras de incapacidades. Sem nunca ter incentivado ou desincentivado a relação com Deus, mantemo-nos em paz e harmonia.

Quanto a Deus?

Não nos falamos...
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