Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

D. Branca, a banqueira do povo


“D. Branca é há 20 anos banqueira privada e recebe milhares de depósitos, incluindo de altas figuras da vida pública. Apoiada por uma vasta rede de angariadores, ela paga infalivelmente 10% de juros todos os meses.”

Foi com esta notícia que o jornal “Tal & Qual” de 3 de Fevereiro de 1984, trouxe a público uma atividade que já era conhecida em privado há mais de 20 anos. Nessa reportagem ela afirmou: “Só quero ajudar os pobres”. A sua história inspirou uma novela produzida pela RTP em 1993, intitulada “A banqueira do povo”.

Maria Branca dos Santos nasceu em Lisboa em 1902. Pouco se sabe acerca das suas origens. Consta que a sua família era extremamente pobre e Branca nunca chegou a completar a instrução primária. No entanto era arguta e com grande apetência para o raciocínio matemático.

Desde cedo, começou a sua prática bancária. Nos anos 50 guardava o dinheiro da venda das varinas de Lisboa ao longo do dia, no final da tarde recebia uma compensação pela guarda dos valores. Era uma pessoa muito considerada, pela sua honestidade. O seu carisma serviu para convencer os vendedores ambulantes a confiarem-lhe os seus valores. A pouca instrução dos seus clientes foi possibilitando à banqueira que começasse a intermediar os depósitos, pagando juros mais elevados que a banca para que as pessoas lhe confiassem as economias. Estes valores, para além de serem utilizados no pagamento dos juros (10%) dos clientes anteriores serviam para financiar outros negócios com juros que poderiam atingir 50%.

D. Branca tinha criado o seu próprio esquema Ponzi (e ela possivelmente nunca ouvira falar). Charles Ponzi criara o esquema em pirâmide nos anos 20, que consistia no pagamento de rendimentos anormalmente altos ("Juros") aos investidores, à custa do dinheiro pago pelos investidores que chegarem posteriormente. Os rendimentos gerados tinham por base a simples circulação dos fluxos financeiros, sem qualquer atividade produtiva (faz lembrar algo, não?).

O esquema funcionou desta forma durante décadas. O sucesso desta operação obrigou-a a estender o negócio a várias zonas do país. Mas a sede era num escritório no bairro de Alvalade, onde as filas de espera de investidores, por vezes chegavam à rua. Inicialmente a colaboração era de familiares e amigos que eram aliciados por comissões muito interessantes. Claro que este crescimento atraiu angariadores menos escrupulosos e começaram a entrara verbas exorbitantes no circuito.

Nesta altura o negócio começa a chamar a atenção das autoridades, que foram sendo controladas durante bastante tempo, à custa de subornos.

Quando a notícia surge no Jornal “Tal & Qual” em 1983, a sua notoriedade torna-se nacional e internacional. O El País e o The Guardian publicam reportagens acerca do tema. De notar que na altura a banca pagava os depósitos a uma taxa de 30% ao ano, D. Branca pagava 10% ao mês. Estas notícias fizeram disparar o negócio de tal maneira que o Banco de Portugal já não podia ignorar a situação.

Hernani Lopes, Governador do BdP na época, veio à televisão alertar as pessoas para o perigo que corriam ao manter as suas poupanças numa operadora não licenciada. Este facto provocou uma corrida aos escritórios da banqueira. Houve colaboradores e alguns clientes a correrem rua fora com sacos de dinheiro, outros menos informados perderam as economias que haviam confiado à banqueira.

Como sempre acontece nestas situações, houve oportunistas que se apropriaram de dinheiro e bens móveis ou imóveis que serviam de garantia a operações em curso. Hoje em dia andam por aí e ninguém sabe quem são.

Em Outubro de 1984, foi finalmente detida. Juntamente com 68 arguidos foram acusados de associação criminosa, múltipla prática de emissão de cheques sem provisão, burla agravada, falsificação e abuso de confiança. O julgamento iniciou-se em 1988, ao fim de 1 ano D. Branca foi condenada a uma pena de 10 anos de prisão, 24 dos arguidos foram absolvidos, todos os outros foram condenados a diversas penas.

Pouco tempo depois do julgamento, e devido ao seu débil estado de saúde, foi-lhe reduzida a pena e saiu em liberdade. Acabou os seus dias num lar da terceira idade, cega e na miséria absoluta. Morreu a 3 de Abril de 1992, foi a enterrar no Cemitério do Alto de S. João e assistiram à cerimonia 5 pessoas.

Não vou fazer qualquer juízo ou analogia, deixo para vós as conclusões.

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