Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

sábado, 29 de novembro de 2014

O homem que podia ter mudado a história


Como 13 minutos podem fazer a diferença entre a morte e a vida de 60 milhões de pessoas?
O muro de Berlim foi construído nos anos sessenta em consequência desses 13 minutos.

No dia 8 de Novembro de 1939, o aeroporto de Munique foi encerrado devido à forte neblina. Nessa noite Adolf Hitler iria discursar na cervejaria Burguerbraukeller, como fazia todos os anos nas comemorações da tentativa falhada de golpe de estado dos nazis em 1923, que iria conduzir Hitler à prisão onde escreveu “Mein Kampf”.

Como teria de viajar de comboio Hitler adiantou o seu discurso em 30 minutos. Começou pelas 20h e acabou às 21h. Deixou a cervejaria com pressa, às 21,07h. Pelas 21,20h uma forte explosão rebenta com o teto por cima do palco. Morreram 8 pessoas e ficaram feridas 63. Adolf Hitler havia escapado à morte por 13 minutos.

O atentado tinha sido planeado por Johann Georg Elser. Hoje é reconhecidamente um herói para a Alemanha, tem o seu nome gravado num quarteirão residencial de Munique e numa sala de espetáculos. Mas nem sempre foi assim. Para os alemães, durante muitos anos, Elser havia sido um carpinteiro irrelevante. Para os de Leste era alguém que agiu individualmente e não tinha ligações a atividades comunistas. Para os alemães do Ocidente corriam boatos absurdos de que havia sido um agente da Gestapo; por outro lado, Elser estava fora dos cânones do herói representado por Claus Von Stauffenberg da Operação Valquiria, que envolveu mais de 100 pessoas na tentativa de matar o ditador em 1944.

Elser nasceu em Hermaringer, no Sudoeste da Alemanha, em 1903. Não era político, mas em tempos votou no partido comunista e pertenceu ao sindicato dos marceneiros. Naquela época era muito difícil não acreditar nas ideias de Hitler, basta dizer que quando chegou ao poder em 1933, havia cerca de 6 milhões de alemães desempregados, 3 anos depois a situação era praticamente de pleno emprego, os planos bélicos de Hitler tinham trazido um crescimento industrial espantoso. No entanto este simples carpinteiro confessou a um amigo que “a Alemanha nunca poderia ter um governo melhor, a não ser que alguém derrubasse o seu líder. Mas não contes a ninguém”. Segundo contou mais tarde, durante o seu cativeiro, não confiava em Hitler, tinha o pressentimento que aquele homem havia de destruir o mundo.

Entre 1925 e 1929 Elser trabalhou numa fábrica de relógios, foi aí que adquiriu conhecimentos que mais tarde utilizou para fazer a bomba relógio que colocou debaixo do palanque na cervejaria.


Ainda não havia sido detonada a bomba e já Elser estava detido junto à fronteira com a Suiça. O alemão tentava cruzar a fronteira em Constança, os guardas fronteiriços quando esvaziaram a mochila que transportava consigo descobriram os esboços de construção de uma bomba e vários utensílios suspeitos. Ainda sem saberem concretamente do que se tratava prenderam-no e encaminharam-no de volta para Munique. Apesar de inicialmente negar qualquer envolvimento no incidente, não teve alternativa senão confessar a autoria do atentado.

Foi torturado na sede da Gestapo em Berlim. Himmler recusava-se a acreditar que aquele acto contra o Führer fosse engendrado por um simples carpinteiro, sem apoio de mais ninguém. Os nazis tentaram engendrar uma conspiração que envolvia os ingleses. Elser não foi logo executado porque os nazis mantinham a esperança que ele um dia revelasse os seus cúmplices.

Foi transferido para o campo de concentração de Dachau, onde foi um prisioneiro com estatuto especial até ser executado com um tiro, em Abril de 1945, dias antes do suicídio de Hitler.

Neste breve relato constatamos como minúsculos pormenores podem fazer a diferença na vida de milhões de seres humanos. Os “se” da vida de alguém representam o aleatório que a todos envolve e nos deixa impotentes perante os acontecimentos.

Georg Elser podia ter mudado a história, mas por 13 minutos não conseguiu evitar a Segunda Guerra Mundial.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O direito à indignação de Mário Soares



Em primeiro lugar quero fazer uma declaração de interesses: Não sou um admirador do Dr. Mário Soares, mas concordo com ele neste caso.

A declaração do ex-presidente da República acerca da Operação Marquês, cujo protagonista é o ex-primeiro ministro José Socrates, obrigou-me a tecer este comentário sobre atualidades, coisa que pouco gosto de fazer dado que não me sinto devidamente habilitado para o efeito. De qualquer modo não posso deixar de expressar a minha opinião.

O Dr. Mário Soares declarou que era uma malandrice de pessoas que querem mal a José Sócrates e ao PS.

Estou solidário com ele e compreendo os motivos de tal indignação.

Se há alguém que sabe reconhecer o que é uma malandrice, é um verdadeiro malandro.

Segundo consta, o Dr. Mário Soares e o seu clã ao longo da sua vida sempre deram motivos suficientes para haver intervenção da Justiça. No entanto tal nunca aconteceu. Sempre saíram incólumes de todas as situações, por mais dúbias que fossem. É, portanto muito natural que o nosso ex-presidente tenha dificuldade em compreender o processo instituído a um pobre rapaz ainda jovem que, segundo consta, apenas se apropriou de forma indevida de 25 M€?

Não há direito de tratar assim o moço, só porque não teve a habilidade suficiente para criar uma Fundação que lhe possibilitasse esconder os proventos duvidosos.

A classe politica está disponivel para arcar com os privilégios da visibilidade publica, mas devido ao seu elevado espirito de missão, abdica voluntáriamente das suas consequências. Aquele juiz faz parte dos malandros que querem mal a pessoas, que com elevada dedicação e sem interesses pessoais, sempre fizeram o melhor pelo nosso país.

A forma como tem sido mediatizada a Operação Marquês, também me parece ser censurável. Não é normal o espalhafato público sobre alegados crimes que foram perpetrados de uma forma tão discreta.

Não me lembro do senhor Engenheiro José Sócrates, agora em vias de se tornar Doutor, ter anunciado aos quatro ventos, que tinha sido licenciado a um domingo. Nunca propalou que havia falsificado o certificado de habilitações que entregou no parlamento. Não me recordo de nos ter feito saber que tinha tido intervenção no processo de tratamento de resíduos da Cova da Beira. Não apregoou que assinou projetos de moradias enquanto tinha acordo de exclusividade no parlamento. Nunca fez eco da participação no caso Freeport, na forma como adquiriu as casas, e porque comprou os seus próprios livros com dinheiro que não era seu. Também foi sempre muito contido em muitas outras coisas que afetam o erário público, mas que nem sequer ainda sabemos. Um dia poderemos vir a saber, mas nunca será por indiscrição dele próprio.

Se os seus atos decorreram sempre em recato e com o devido distanciamento para com o interesse publico, é legítimo exigir do sistema de Justiça a mesma discrição.

Só foi um bocadinho indiscreto na exibição dos sinais exteriores de riqueza. Mas digam-me, de que serve ser rico se o não podermos mostrar aos outros?

Devemos todos mostrar algum respeito por alguém que depois de habituado a tomar o “petit-dejeuner” nos Champs Elysees, de repente se vê privado de um determinado nível de vida e tem de comer uma carcaça com margarina e meia de leite. É uma mudança demasiado brusca, por isso estou de acordo com o Dr. Mário Soares, sinto-me indignado...

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Malthus e o fim da humanidade


Lembrei-me deste tema depois de observar um post de Bill Gates no Facebook, em que revela a sua preocupação no combate à fome no mundo. Tem sido uma causa muito defendida pelo multimilionário, que já doou milhares de milhões de dólares para muitas causas nobres.

A Teoria demográfica de Malthus baseia-se no Principio da escassez. A população humana tende a crescer mais rapidamente que a produção de alimentos, o que torna a escassez num conceito de extrema importância para a economia. A visão pessimista de Thomas Robert Malthus acerca dos padrões de vida, ficou resumida na sua afirmação: "Estamos condenados pela tendência de a população crescer em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética”.

Malthus desenvolveu várias outras teorias económicas, mas vamos centrar-nos na teoria da População.

Em 1798 escreveu um ensaio sobre o crescimento da população na medida em que afeta a melhoria do futuro da sociedade. Na perspetiva de Malthus existiam dois obstáculos:

. Positivos, no sentido de aumentar a taxa de mortalidade (a fome, as epidemias, doenças ou pragas, a desnutrição e as guerras).
. Preventivos, no sentido de reduzir a taxa de natalidade (as práticas anticoncepcionais voluntárias).

Thomas Malthus afirmou: “O crescimento da população tem uma progressão geométrica (1, 2, 4, 8, 16, 32, 64...) se não for travado, a população mundial duplicará de 25 em 25 anos. Nas condições atuais da terra e nas circunstâncias mais favoráveis, a produção agrícola será aritmética no máximo (1, 2, 3, 4, 5, 6...). Nestas condições será inevitável que a pressão demográfica seja superior à capacidade do planeta fornecer meios de subsistência ao homem, assim a morte prematura visitará a raça humana.”

Com este raciocínio Malthus concluiu que no futuro a capacidade de aumento das áreas de cultivo estariam esgotadas em todo mundo porque viriam a estar ocupados por atividades agropecuárias, mas entretanto, população mundial continuaria a crescer. Os vícios humanos são os agentes da desgraça. Agem como um exército de destruição, mas se não conseguem vencer uma guerra de exterminação, surgem as epidemias, as pestes e as pragas que acabam por ceifar dezenas de milhares. Para concluir o equilíbrio esperado, vem então uma onda de fome generalizada, que nivela novamente a população com os recursos existentes. Estes ciclos repetidos conduziriam ao fim da humanidade.

A Teoria de Malthus havia surgido como contraponto ao otimismo então vigente, preconizado por William Godwin e Adam Smith.

A chave do desenvolvimento económico, para ele, residia no controlo de natalidade.

As catástrofes de Malthus acabaram por ocorrer em grande escala no sec. XIX na Irlanda, com a crise da batata (da qual falaremos outro dia) e no sec. XX com as 2 grandes guerras e com os surtos de fome na Etiópia e Somália. Estes acontecimentos reforçaram o poder de influência do seu pensamento.

Entretanto continuou a registar-se um aumento populacional devido aos progressos da medicina e melhoria generalizada das condições de vida. Mas esse crescimento foi acompanhado pelo acréscimo exponencial da produção, por via do desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias. Hoje em dia a produção global supera as necessidades dos 7 biliões de seres humanos.

O problema actual reside na distribuição. É esse agora o principal desafio que se coloca à humanidade: fazer chegar o mínimo de subsistência a todos os seres humanos.

O mundo está muito longe do pleno bem estar, mas os ideólogos fatalistas ainda não têm razão. As premonições catastróficas de Thomas Malthus de há duzentos anos, ainda não se confirmaram.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Lidice e Lezáky


Hoje ia escrever algo acerca dos animais e os circos, mas notei que já há muita gente iluminada e preocupada que debitou os seus pareceres sobre o tema. Como nada venho a acrescentar a esse assunto, resolvi debruçar-me sobre um relato verdadeiramente animalesco da história da humanidade.

A 27 de Maio de 1942, Reinhard Heydrich, responsável nazi pelos territórios da Boémia e Morávia, sofre um atentado à bomba. O seu automóvel cai numa emboscada da resistência checa nos arredores de Praga. Heydrich fica gravemente ferido e vem a falecer a 4 de Junho.
O ataque havia sido perpetrado por 2 resistentes, Kubis e Gabcik. Haviam sido treinados em Inglaterra e que tinham sido largados de paraquedas nas imediações da cidade.

Segundo os nazis, os resistentes teriam usado Lidice como esconderijo antes e após o atentado. Mas na verdade os dois haviam estado escondidos numa igreja em Praga. Ter-se-ão suicidado para evitar a captura pelas tropas nazis.

Heydrich era um dos homens mais próximos de Hitler, tinha colaborado nos planos para a “solução final” com vista à eliminação dos judeus em território do Terceiro Reich. Hitler não conformado com o ocorrido, ordenou represálias.

Lidice, nos arredores de Praga, sempre foi um foco de resistência à ocupação nazi e viria a ser o objeto de retaliação.

Em 10 de junho, as tropas nazis cercaram Lidice, impedindo a saída dos habitantes. Todos os homens maiores de 15 anos foram colocados num celeiro e fuzilados. As mulheres e crianças foram mandadas para o campo de concentração feminino de Ravensbruck onde a esmagadora maioria viria a morrer. Estima-se que ao todo 199 homens, 195 mulheres e aproximadamente 88 crianças foram vitimados pelo ataque nazi.

Em Lezáky, uma povoação próxima, havia sido descoberto um emissor de rádio da resistencia. O pesadelo foi igual. A população foi dizimada, excepto 2 crianças que foram levadas e entregues a familias alemãs.

Por indicação expressa de Hitler é arrasada a vila. Foram detonadas as casas. O terreno foi aplanado com tratores e foi semeado para se transformar em pasto. Lidice foi apagada dos mapas.

Os alemães noticiaram ao mundo o que aconteceu em Lidice, como propaganda para aterrorizar os resistentes e inimigos. Por seu lado nos países aliados passaram a utilizar o evento para alimentar o ódio contra os nazis.

Hoje, onde outrora havia sido a vila de Lidice, existe um memorial em homenagem aos habitantes mortos no massacre. A área é considerada terreno sagrado e  monumento perpétuo da República Checa. A vila foi reconstruída e ampliada a partir de 1949, e está situada a cerca de 700 metros do campo reservado à memória dos mortos.

domingo, 16 de novembro de 2014

Ilegalizar a Maçonaria, porque não?



“A Maçonaria é uma Ordem iniciática e ritualística, universal e fraterna, filosófica e progressista, baseada no livre-pensamento e na tolerância, que tem por objetivo o desenvolvimento espiritual do homem com vista á edificação de uma sociedade mais livre, justa e igualitária.

A Maçonaria não aceita dogmas, combate todas as formas de opressão, luta contra o terror, a miséria, o sectarismo e a ignorância, combate a corrupção, enaltece o mérito, procura a união de todos os homens pela prática de uma Moral Universal e pelo respeito da personalidade de cada um. Considera o trabalho como um direito e um dever, valorizando igualmente o trabalho intelectual e o trabalho manual.

A Maçonaria é uma Ordem de duplo sentido: de instituição perpétua e de associação de pessoas ligadas por determinados valores, que perseguem determinados fins e que estão vinculadas a certas regras.”
(Excerto do texto retirado do site da Maçonaria de “Introdução á Maçonaria” de António Arnaut)

O excerto acima constitui a abertura do portal da Maçonaria Portuguesa. Seria difícil encontrar palavras mais opostas à realidade. Penso que esta “seita” é a principal responsável pelas desgraças do nosso país, especialmente a partir de 1974. Mais do que uma associação secreta, estes senhores formam uma seita interessada apenas em defender os interesses dos seus próprios membros. Trata-se de uma plataforma que facilita a corrupção, o nepotismo, a cleptocracia e que compõe a oligarquia que nos governa.

Na génese da maçonaria estava a defesa dos artistas da construção. Na sua criação não estavam envolvidos interesses filantrópicos ou de progresso, o que os movia era a proteção aos profissionais da construção, para os maçónicos quantos menos soubessem os segredos da profissão mais oportunidades de negócio teriam. Os valores que este sindicato defendia eram os valores financeiros e de poder, os interesses dos membros maçons sobrepunham-se aos da restante população. Quanto mais poder financeiro possuísse, maior viria a ser a sua influência junto de quem decidia.

Hoje em dia as lojas maçónicas portuguesas mantêm estas práticas com elevado rigor. Claro que os participantes já não são exclusivamente ligados à construção civil. Existem membros dos mais variados quadrantes da atividade económica. O esquema baseia-se numa cultura de tráfico de influências, de compadrios e favores que serve para o progresso dos próprios membros. Vão deixando o legado aos seus filhos, perpetuando o poder de influência e estatuto dos seus membros, independentemente dos seus méritos, impera o factor C (cunha).

Ainda recentemente se noticiou o caso dos Golden Visa, em que alguns dos envolvidos fazem parte da maçonaria. Houve uma tentativa da ministra da justiça em instituir uma declaração de interesses a quem mantém cargos públicos, obrigando-os a declarar se fazem parte de alguma organização; logo vozes do seu próprio partido se levantaram contra, da parte do PS nem uma palavra. Por aqui se vê que a maçonaria não tem partido politico.

A grande parte das nossas elites frequenta estas lojas, bem como a Companhia dos jesuítas e a Opus Dei. Reside em parte, aqui, a explicação para o estado calamitoso do nosso Estado.


"O sistema de justiça português é constituído por lojas maçónicas e controlado pela maçonaria. Além de controlar as decisões dos processos, controla igualmente a carreira dos juízes e dos magistrados do Ministério Público e dos altos funcionários do Estado" - disse José da Costa Pimenta, um juiz jubilado, em carta dirigida à atual ministra da justiça.

Alguns exemplos do tipo de influência que exercem na nossa sociedade:

Caso CTT: (Citações do Ministério Público) Em escutas telefónicas, um indivíduo faz alusões à sua condição de maçom para obter informações do caso da venda de prédios
Caso Moderna: (Citações do Ministério Público) Uma conspiração maçónica, com a Moderna como ponto de reunião, para tomar conta das estruturas do poder em Portugal, é revelada num documento de Nandim de Carvalho.
Caso Portucale: (Citações de Abel Pinheiro) Nos governos de Guterres, o GOL era conhecido por o "gabinete", dado o número de socialistas por metro quadrado.

Um ex-Diretor do Serviço de Informações Estratégicas da Defesa (SIED), utilizou os seus conhecimentos na maçonaria para facilitar a reabilitação de um edifício que pertencia à empresa que o viria a contratar, a Ongoing. Foi igualmente acusado um líder da loja Maçónica Mozart 49, de utilizar a loja como plataforma para instrumentalizar indevidamente instituições do Estado e para servir as suas ambições pessoais. O dirigente utilizou conhecimentos que adquiriu a partir da loja Mozart para recolher informação para a empresa de informação Ongoing que mais tarde o viria a contratar. Foi a maçonaria que facilitou a obtenção da licenciatura do ex-ministro Miguel Relvas na Lusofona. Relvas, por sua vez, solicitou um relatório e informações sobre o igualmente maçom Francisco Pinto Balsemão.

A maçonaria é um instrumento de corrupção que dilui a separação de poderes, promovendo a promiscuidade entre os ricos e os poderosos. Grande parte da classe política é apenas a face visível dos poderes escondidos das lojas maçónicas. Os membros destas “seitas” acreditam ser indivíduos dotados de superioridade intelectual face aos seus concidadãos e pensam serem merecedores de privilégios porque se distinguem dos demais. Julgam mesmo que devem ter mais direitos que os outros, têm acesso a informação preferencial em operações de bolsa, fazem sempre os melhores negócios imobiliários, estão sempre na linha frente quando o assunto é poder ou dinheiro, os seus filhos têm direito a frequentar as melhores escolas e se as notas não são boas, algo terá de ser feito.

Dado o comportamento dos seus membros, uma organização tentacular deste tipo pode colocar em causa um Estado de Direito, porque não ilegalizar uma colectividade que tanto prejudica um país?

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Livro: A sangue frio - Truman Capote


Foi publicado pela primeira vez na revista New Yorker, em 1965, dividido em 4 capítulos.

Truman Capote baseou-se num acontecimento ocorrido em 1959. Dois delinquentes assassinaram uma família na cidade de Holcomb no Kansas.

Capote era um jornalista/escritor que para fazer o relato dos acontecimentos, deslocou-se ao local e viveu na cidade cerca de 1 ano, falou com a população e entrevistou os criminosos que haveriam de ser enforcados em 1965.

É um romance impressionante, de uma frieza cortante. Considerado um dos melhores livros do século XX.

Penso que se trata de uma obra imprescindível. A ler, sem duvida.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Perguntas que valem milhares de milhões de Euros



Recentemente durante a apresentação do orçamento de estado para 2015, assisti a alguns membros do nosso governo afirmarem que ao nível da despesa pública, não havia mais custos que eventualmente pudessem ser reduzidos, havíamos chegado ao limiar máximo de contenção da despesa primária. A partir daqui o único caminho seria o de continuar a reduzir as prestações sociais ou o aumento de impostos.

Sendo eu um contribuinte ativo e líquido do erário publico, penso ter o direito a que me sejam respondidas algumas questões.

Em 2011 o Estado português não sabia ao certo quantos organismos públicos existiam. Não havia um inventário geral. Pensava-se que na administração central, local, regional, institutos, fundações e associações públicas, existiriam cerca de 13 740 entidades que se alimentavam do Orçamento do Estado e consumiam cerca de 81 mil milhões de Euros, aproximadamente 48% do PIB.

Qual foi a redução obtida com a reestruturação, fusão ou encerramento destes organismos?

Qual é realmente a situação atual dos organismos que auferem ou dependem de fundos públicos?

Porque será que a oposição não insiste nesta questão?

Porque é que os nossos jornalistas não questionam o nosso governo acerca do ponto de situação desta realidade?

Outro tema em que gostaria de ser esclarecido e que não tem só a ver com a despesa primária, são as amortizações e os juros das PPP.

Sabemos que grande fatia do nosso endividamento se deve às participações público-privadas que foram contratadas no passado recente.

Dado que vivemos uma situação extraordinária, é nas situações extraordinárias que devemos tomar medidas extraordinárias, exatamente como foi feito no congelamento de alguns encargos públicos. Mas claro, aí foi fácil actuar, com os mais fracos não custa nada.

Quanto a este tema ocorrem-me algumas questões:

Que negociação foi feita com os credores?

Quanto representa a poupança conseguida face à divida total?

Porque motivo não foram propostas moratórias sobre as amortizações ou perdão de juros sobre as dividas ?

Porque motivo continuamos a honrar os contratos com credores que entraram em incumprimento com o Estado português?

Porque é que os nossos jornalistas não questionam o nosso governo acerca do ponto de situação desta realidade?

Temos o direito de perguntar, o governo tem o dever de responder. Nunca devemos esquecer que o Estado somos nós, os governos passam, nós ficamos para pagar.

domingo, 9 de novembro de 2014

A melhor selecção de sempre



Eu sei que a escolha não é concensual. Todos nós temos no nosso imaginário recordações próprias ou inconscientemente impostas por quem nos rodeia. Por outro lado o tempo também vai alterando as memórias.

Mesmo tendo consciência de todas essas circunstâncias, assumo que, para mim a melhor seleção de futebol de todos os tempos, foi uma equipa que não ganhou nada.

Tinha 16 anos quando assisti pela televisão, ao mundial de Espanha de 1982. Durante cerca de um mês o meu mundo parou para assistir ao Campeonato do Mundo de Futebol. Na altura apercebi-me que a seleção brasileira exibia um futebol fora do normal. Jogavam como se tratasse de um carrossel que confundia os adversários.

Era esta a seleção que encantou o mundo:

Waldir Peres: brilhou no São Paulo e ganhou a confiança do treinador Telê Santana, embora muitos tenham dito que o melhor na posição era Leão.

Júnior: jogava no Flamengo, foi considerado o melhor lateral esquerdo da história do futebol brasileiro depois de Nilton Santos.

Luisinho: defesa central, foi um dos maiores ídolos da história do Atlético Mineiro.

Oscar: defesa central do São Paulo, impunha respeito e fazia muitos golos de cabeça.

Leandro: foi lateral direito no Flamengo durante toda a carreira, tinha muita habilidade e visão de jogo.

Cerezo: trinco do Atlético Mineiro, jogador muito experiente.

Falcão: um dos maiores craques do futebol brasileiro e mundial, médio centro que jogava na Roma.

Éder: um dos melhores extremos esquerdos do futebol brasileiro, dono de um pontapé invejável, fez história no Atlético Mineiro.

Zico: considerado pelos adeptos como o maior jogador da história do Flamengo, foi o maestro do Brasil no mundial de 1982.

Sócrates (Capitão): o doutor do Corinthians, foi um dos líderes daquela equipa. Um craque habilidoso, com uma visão de jogo formidável e futebol puramente artístico.

Serginho: jogava no São Paulo, só foi titular porque Careca estava lesionado. Não tinha muita habilidade, mas era eficaz, ainda hoje é o melhor marcador da história do São Paulo.

Telê Santana (Treinador): formou uma seleção primorosa que merecia a ter ganho o Mundial. Apesar daquela derrota continuou até o fim de sua vida (2006) como fã incondicional do futebol arte. Até hoje os brasileiros esperam o regresso daquele futebol mágico.

A lenda começou a ser construída quando o Brasil encantou os europeus um ano antes numa digressão pelo velho continente. Obteve três vitórias de peso, 1-0 com a Inglaterra, 3-1 frente à França e 2-1 com a campeã europeia, a Alemanha. O Brasil era apontado como o maior favorito do Espanha 82. O tetra era apenas uma questão de tempo.

No mundial, o Brasil ficou no Grupo F, com União Soviética, Escócia e Nova Zelândia. Era um grupo relativamente tranquilo, mas que tinha jogadores complicados como os escoceses Dalglish e Souness e os soviéticos Dasaev e Blokhin.

Na estreia, o Brasil enfrentou a URSS. Ao intervalo o Brasil perdia por 1-0. Mas no segundo tempo, deu a volta. Sócrates empatou aos 75´, num golaço de fora da área e Éder com num potente remate de pé esquerdo colocou o resultado final em 2-1.

Contra a Escócia, em Sevilha, novamente o Brasil começou atrás no placar, com Narey a fazer 1 a 0 aos 18´. Aos 33´, Zico empatou na marcação de um livre. No segundo tempo, Oscar, aos 48´, Éder, aos 63´, e Falcão, aos 87´, garantiram o 4-1 final.

Na última partida da primeira fase, nova goleada: 4-0 sobre a Nova Zelândia, com golos de Zico (2), Falcão e Serginho.

O Brasil praticava um futebol envolvente, como que ouvindo música, marcava golaços e encantava toda a gente. Para os portugueses, na ausência da sua seleção, eram como se fossem os nossos, o entusiasmo das pessoas era contagiante. Eu que apostava na França de Platini, rendi-me àquele futebol de sonho.

O Brasil avançou para a fase seguinte. Estava no Grupo 3 ao lado da então campeã mundial, a Argentina, e da desacreditada Itália. No primeiro embate o Brasil vence a Argentina de Maradona por 3-1, golos de Zico, Serginho e Júnior.

No jogo seguinte do Grupo, a Itália superou a Argentina e eliminou os sul-americanos. Com isso, Brasil e Itália decidiriam quem passaria para as meias-finais. Para o Brasil, bastava um empate. Para a Squadra-Azzurra, uma vitória simples era o bastante. Mas quem acreditava na derrota do Brasil?


A Itália tinha o rival engasgado na garganta pelos revezes nos mundiais de 1970 e 1978. Já o Brasil queria bater o “freguês” novamente e seguir na caminhada até então impecável rumo ao titulo. Porém, o jogo foi o apogeu e despertar de Paolo Rossi, que estava até então sem marcar golos, por ter sido suspenso após punição por um escândalo de apostas que assolou o futebol italiano antes do mundial. Paolo Rossi fez o jogo da sua vida.

Aos cinco minutos, Rossi abriu o placar. Sete minutos depois, Sócrates empatou para o Brasil. Aos 25´, Rossi fez mais um, numa falha imperdoável de Cerezo.

“Quando a Itália fez o segundo gol, olhei para o Cerezo, e ele estava chorando. Fiquei descontrolado, louco de raiva. Fui até ele e disse: se você não parar de chorar agora, meto-lhe a mão na cara. Este é um jogo para homens, Toninho. Se você está com medo, saia logo" - disse Junior, em entrevista após o jogo.

No segundo tempo, Falcão empatou. Mas aos 30´, Rossi fez o 3-2 para a Itália. Perto do final do jogo, o central brasileiro Oscar quase empatou para o Brasil, mas Dino Zoff fez uma defesa que, segundo o próprio, foi a mais sensacional de sua carreira. Fim de jogo.

Toda a gente ficou incrédula. Não se entendia o que tinha acabado de acontecer: o Brasil encantador, eficiente, rápido, fatal e artístico, estava fora do Campeonato do Mundo. A Itália, burocrática, sem brilho, estava na meia-final. Era o fim da geração de ouro do Brasil. Os jogadores não sabiam para onde ir, o que fazer, o que dizer...

A Itália de Enzo Bearzot, viria a tornar-se tri Campeã Mundial ao derrotar a Alemanha na final.

Dizem que aquela seleção era demasiado ofensiva e não sabia defender, mas a mim não me importa. É daquela que eu me lembro, e de vez em quando vou rever imagens.

A passarola



Depois de Leonardo da Vinci, no século XVI, ter desenhado a primeira máquina voadora, o padre Bartolomeu de Gusmão torna-se, em 1709, o inventor do primeiro engenho capaz de se elevar no ar.

Mais tarde, em 1783, os irmãos Montgolfier irão lançar em França, um balão de ar quente capaz de transportar pessoas.

Em dezembro de 1685, nasceu em Santos, Brasil, o jovem Bartolomeu Lourenço de Gusmão, filho de Francisco Lourenço, cirurgião-mor da prisão de Santos e da sua mulher Maria Álvares. Fez os estudos primários em Santos, seguiu para o Seminário de Belém na Baía onde completou o Curso de Humanidades. Rapaz brilhante, de ideias avançadas para sua época, rápidamente se destacou, tendo vindo a filiar-se na Companhia de Jesus, sob a orientação do Padre Alexandre de Gusmão.

Em 1709 dirigiu-se a Lisboa e pediu à corte se poderia apresentar uma "Máquina de Voar" que representaria uma vantagem importante para Portugal, tanto a nível comercial como militar. Em 19 de abril daquele ano, recebeu autorização do rei D. João V para mostrar o seu invento perante a Casa Real.

Em 3 de agosto de 1709 foi realizada a primeira tentativa na Sala de Audiências do Palácio. No entanto, o pequeno balão de papel aquecido por uma chama, incendiou-se antes de levantar voo. Dois dias mais tarde, uma nova tentativa deu resultado, o balão subiu cerca de 4 metros. Assustados com a possibilidade de um incêndio, os criados do palácio lançaram-se contra o engenho antes que este chegasse ao teto e abortaram a tentativa.

Três dias mais tarde foi feita a terceira experiência, agora no Pátio da Casa da Índia perante D. João V, a rainha D. Maria Ana de Habsburgo, o Núncio Cardeal Conti, o Infante D. Francisco de Portugal, o Marquês de Fonte, fidalgos, damas da Corte e outros cidadãos. Desta vez foi um sucesso absoluto. O balão ergueu-se lentamente, indo cair no Terreiro do Paço. Havia sido construído o primeiro engenho mais leve que o ar.

O rei ficou tão impressionado com o engenho que publicou um édito em que concedeu a Bartolomeu o direito sobre toda e qualquer máquina voadora que viesse a ser construída desde então. E para todos aqueles que ousassem interferir ou copiar-lhe as ideias, a pena seria a morte. Ao invento do padre Bartolomeu de Gusmão passou a chamar-se Passarola, em razão de ter a forma de um pássaro.

O entusiasmo revelado pelo rei não foi acompanhado pela generalidade da população. O padre Bartolomeu foi muitas vezes ridicularizado pela sua excentricidade, sendo apelidado do padre voador. Há quem afirme que o abandono das experiências foi motivado pela tremenda chacota que os ignorantes e invejosos fizeram do seu invento. Ainda antes das suas demonstrações junto à corte, os boatos circulavam pela capital. O seu engenho passou a ser chamado «Barcarola». Circulavam chacotas e pasquins ridicularizando o inventor.

O conservadorismo vigente tudo fez para abafar a propalação do invento. A Inquisição chegou a questioná-lo por colocar em causa a ordem natural das coisas, segundo eles, ao homem não havia sido concedido o poder de voar, o padre estava a desafiar os desígnios de Deus.

Os projectos que chegaram até nós apareceram em Viena. Conta-se que terão sido enviados pela rainha para a Áustria, seu país de origem.

José Saramago no Memorial do Convento faz uma alusão à passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão, quando imagina uma máquina voadora movida por vontades.

O Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão faleceu em 19 de novembro de 1729, em Toledo, Espanha. É considerado um dos pioneiros da aeronáutica.

A uma personalidade desta importância, penso que nunca foi dado o devido destaque. O relevo que assume o pioneirismo das suas experiências, mereciam uma menção muito mais notória para as novas gerações.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

As máscaras de Guy Fawkes

Nasceu em 1570 em York, Inglaterra. Guy Fawkes era um soldado inglês católico que participou na “Conspiração da pólvora”. Este atentado perpetrado por católicos, pretendia fazer explodir o parlamento inglês, dominado pelos protestantes.

Fawkes era o responsável por guardar os barris de pólvora que serviriam para fazer explodir o parlamento de Westminster. A 5 de Novembro de 1605, as forças fieis ao rei protestante Jaime I, desmantelaram a operação e Guy Fawkes foi preso juntamente com outros conspiradores.

Este acontecimento é comemorado pelos ingleses até hoje, ao dia 5 de Novembro, como a celebração do “Bonfire Night”.

Fawkes e os restantes conspiradores foram condenados à morte por decapitação, os seus corpos seriam depois estripados e esquartejados.

Antes de ser conduzido ao local de execução, Fawkes conseguiu soltar-se dos carrascos e saltou de uma escada, partiu o pescoço, teve morte imediata mas evitou assim a tortura. O seu corpo foi esquartejado e exposto publicamente juntamente com os dos outros conspiradores.

Para a maioria dos britânicos Fawkes simboliza a traição, no entanto é frequentemente referido a título irónico como "o único homem que entrou no parlamento com intenções honestas".

A sua imagem acabou por se tornar um símbolo de rebelião e até de anarquia. Os manifestantes e os hackers do grupo Anonymous utilizam máscaras de Guy Fawkes.

Muitas vezes viamos estas máscaras mas não sabíamos o que representam, agora estamos esclarecidos.


P.S. Crónica inspirada numa pergunta do meu filho Nuno, 11 anos: "Pai, sabes quem foi o Guy Fawkes?"

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Livro: Retrato do artista quando jovem - James Joyce

Primeira publicação em 1916.

Foi o primeiro romance de James Joyce. Com uma narrativa complexa retrata o crescimento de um jovem, que é ele próprio, no caminho da emancipação.

Não é uma obra fácil, por vezes a introspeção do personagem principal confunde-nos. Penso que é um romance interessante, principalmente pela técnica literária.

Embora seja escrito por um dos maiores vultos na literatura universal, não é um romance imprescindível.

É o livro que antecipa a obra-prima de Joyce: “Ulisses”, que ainda não tive oportunidade de ler.

domingo, 2 de novembro de 2014

Sinais exteriores de pobreza


Estive a ponderar sobre a perspetiva de abordagem a este problema. Conclui que, como em tudo, há várias formas de o analisar, mas vou ater-me apenas a duas: o ponto de vista social e a visão neoliberal.

Sempre que o número de desempregados sobe todas as relações económicas se ressentem. O número de transações desce e os seus valores reduzem-se. Por efeito de arrastamento a maioria dos setores de atividade sofrem depreciação.

Começa a verificar-se que as condições de pobreza se tornam mais visíveis. Os carros em circulação são mais antigos e sem manutenção, imóveis antigos a degradarem-se e os imóveis novos que não se vendem. Também se nota um grande aumento de indivíduos em condição de “sem-abrigo”, ou seja os sinais exteriores de pobreza começam a tornar-se evidentes.

Nessa altura aqueles que acreditam que todo o ser humano tem direito a uma boa qualidade de vida, propõem que seja ilegalizada a pobreza para que o Estado se responsabilize pela criação de condições, que propiciem as melhores condições de vida aos seus cidadãos. A principal medida a tomar é o incentivo à geração de emprego, tudo o resto vem por acréscimo.

A ideia subjacente ao conceito de ilegalização da pobreza, é provocar os decisores políticos a pensarem na pobreza enquanto fenómeno ilegal, e de motivá-los a tudo fazerem para o erradicar. O limiar mínimo de pobreza devia ficar inscrito na Constituição, tendo como contrapartida um limiar máximo de riqueza.

Tudo isto parece utópico, mas vale como um princípio base de raciocínio. Claro que as condições de acesso a recursos deveriam ser devidamente escrutinadas e sancionadas, para evitar os abusos do costume.

Por outro lado, existe também o perigo de se pensar que o direito a ter uma condição mínima de vida, a nada obriga para a conseguir. São estes os casos que deverão ser monitorizados para que fique assegurada a participação de todos no bem comum. Os apoios públicos têm de ter sempre contrapartidas ou corremos o risco de criar parasitas.

Mas tenho de referir a outra perspetiva, menos romântica e mais atual. É a visão daqueles que acham ser legítimo que por terem mais dinheiro, podem ter mais direitos que os outros. Para esses a pobreza deve ser ilegalizada, mas por detenção dos prevaricadores, os pobres. Ou seja, para esses indivíduos um pobre só é pobre porque quer. O mundo, segundo eles, está repleto de oportunidades e só quem não quer é que não as aproveita.

Para esta gente, a que eu chamo neoliberais, a pobreza é fruto da falta de empenho dos próprios, esquecendo que não depende deles a criação dos meios para saírem da sua condição.

Os neoliberais tendem a ocultar a existência dessa realidade. Ainda há pouco tempo em Nova York um condomínio criou uma entrada exclusiva para pessoas ricas e uma outra para as pessoas com menos posses. Em Londres verifiquei em vários prédios a colocação de ferros pontiagudos junto às soleiras das portas, para evitar que os “sem-abrigo” se instalassem na entrada dos prédios. Em várias cidades são colocadas barreiras visuais, para que não sejam visíveis as zonas pobres. Qualquer dia acabam com os jornais para que eles não se possam cobrir. Não se combate o problema, oculta-se e está resolvido.

Os sinais exteriores de pobreza têm ainda, uma última leitura, a pobreza de espírito.

A pobreza de espírito não tem correspondência direta com a pobreza material e infelizmente é ainda mais abundamente.

Reparem que estes sinais exteriores revelam-se principalmente pelo nível de educação. Os sinais exteriores de pobreza de espírito não são visíveis pela gradação de estudos que possui, é mais fácil apurá-los na quantidade de bens materiais que se possui, pela quantidade de horas passadas num centro comercial, ou no desconhecimento puro e simples da realidade. A pobreza de espírito invariavelmente conduz à pura ignorância.

Por mim os sinais exteriores de pobreza de todo o tipo deviam ser investigados e tudo deveríamos fazer para os erradicar.