Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 9 de novembro de 2014

A melhor selecção de sempre



Eu sei que a escolha não é concensual. Todos nós temos no nosso imaginário recordações próprias ou inconscientemente impostas por quem nos rodeia. Por outro lado o tempo também vai alterando as memórias.

Mesmo tendo consciência de todas essas circunstâncias, assumo que, para mim a melhor seleção de futebol de todos os tempos, foi uma equipa que não ganhou nada.

Tinha 16 anos quando assisti pela televisão, ao mundial de Espanha de 1982. Durante cerca de um mês o meu mundo parou para assistir ao Campeonato do Mundo de Futebol. Na altura apercebi-me que a seleção brasileira exibia um futebol fora do normal. Jogavam como se tratasse de um carrossel que confundia os adversários.

Era esta a seleção que encantou o mundo:

Waldir Peres: brilhou no São Paulo e ganhou a confiança do treinador Telê Santana, embora muitos tenham dito que o melhor na posição era Leão.

Júnior: jogava no Flamengo, foi considerado o melhor lateral esquerdo da história do futebol brasileiro depois de Nilton Santos.

Luisinho: defesa central, foi um dos maiores ídolos da história do Atlético Mineiro.

Oscar: defesa central do São Paulo, impunha respeito e fazia muitos golos de cabeça.

Leandro: foi lateral direito no Flamengo durante toda a carreira, tinha muita habilidade e visão de jogo.

Cerezo: trinco do Atlético Mineiro, jogador muito experiente.

Falcão: um dos maiores craques do futebol brasileiro e mundial, médio centro que jogava na Roma.

Éder: um dos melhores extremos esquerdos do futebol brasileiro, dono de um pontapé invejável, fez história no Atlético Mineiro.

Zico: considerado pelos adeptos como o maior jogador da história do Flamengo, foi o maestro do Brasil no mundial de 1982.

Sócrates (Capitão): o doutor do Corinthians, foi um dos líderes daquela equipa. Um craque habilidoso, com uma visão de jogo formidável e futebol puramente artístico.

Serginho: jogava no São Paulo, só foi titular porque Careca estava lesionado. Não tinha muita habilidade, mas era eficaz, ainda hoje é o melhor marcador da história do São Paulo.

Telê Santana (Treinador): formou uma seleção primorosa que merecia a ter ganho o Mundial. Apesar daquela derrota continuou até o fim de sua vida (2006) como fã incondicional do futebol arte. Até hoje os brasileiros esperam o regresso daquele futebol mágico.

A lenda começou a ser construída quando o Brasil encantou os europeus um ano antes numa digressão pelo velho continente. Obteve três vitórias de peso, 1-0 com a Inglaterra, 3-1 frente à França e 2-1 com a campeã europeia, a Alemanha. O Brasil era apontado como o maior favorito do Espanha 82. O tetra era apenas uma questão de tempo.

No mundial, o Brasil ficou no Grupo F, com União Soviética, Escócia e Nova Zelândia. Era um grupo relativamente tranquilo, mas que tinha jogadores complicados como os escoceses Dalglish e Souness e os soviéticos Dasaev e Blokhin.

Na estreia, o Brasil enfrentou a URSS. Ao intervalo o Brasil perdia por 1-0. Mas no segundo tempo, deu a volta. Sócrates empatou aos 75´, num golaço de fora da área e Éder com num potente remate de pé esquerdo colocou o resultado final em 2-1.

Contra a Escócia, em Sevilha, novamente o Brasil começou atrás no placar, com Narey a fazer 1 a 0 aos 18´. Aos 33´, Zico empatou na marcação de um livre. No segundo tempo, Oscar, aos 48´, Éder, aos 63´, e Falcão, aos 87´, garantiram o 4-1 final.

Na última partida da primeira fase, nova goleada: 4-0 sobre a Nova Zelândia, com golos de Zico (2), Falcão e Serginho.

O Brasil praticava um futebol envolvente, como que ouvindo música, marcava golaços e encantava toda a gente. Para os portugueses, na ausência da sua seleção, eram como se fossem os nossos, o entusiasmo das pessoas era contagiante. Eu que apostava na França de Platini, rendi-me àquele futebol de sonho.

O Brasil avançou para a fase seguinte. Estava no Grupo 3 ao lado da então campeã mundial, a Argentina, e da desacreditada Itália. No primeiro embate o Brasil vence a Argentina de Maradona por 3-1, golos de Zico, Serginho e Júnior.

No jogo seguinte do Grupo, a Itália superou a Argentina e eliminou os sul-americanos. Com isso, Brasil e Itália decidiriam quem passaria para as meias-finais. Para o Brasil, bastava um empate. Para a Squadra-Azzurra, uma vitória simples era o bastante. Mas quem acreditava na derrota do Brasil?


A Itália tinha o rival engasgado na garganta pelos revezes nos mundiais de 1970 e 1978. Já o Brasil queria bater o “freguês” novamente e seguir na caminhada até então impecável rumo ao titulo. Porém, o jogo foi o apogeu e despertar de Paolo Rossi, que estava até então sem marcar golos, por ter sido suspenso após punição por um escândalo de apostas que assolou o futebol italiano antes do mundial. Paolo Rossi fez o jogo da sua vida.

Aos cinco minutos, Rossi abriu o placar. Sete minutos depois, Sócrates empatou para o Brasil. Aos 25´, Rossi fez mais um, numa falha imperdoável de Cerezo.

“Quando a Itália fez o segundo gol, olhei para o Cerezo, e ele estava chorando. Fiquei descontrolado, louco de raiva. Fui até ele e disse: se você não parar de chorar agora, meto-lhe a mão na cara. Este é um jogo para homens, Toninho. Se você está com medo, saia logo" - disse Junior, em entrevista após o jogo.

No segundo tempo, Falcão empatou. Mas aos 30´, Rossi fez o 3-2 para a Itália. Perto do final do jogo, o central brasileiro Oscar quase empatou para o Brasil, mas Dino Zoff fez uma defesa que, segundo o próprio, foi a mais sensacional de sua carreira. Fim de jogo.

Toda a gente ficou incrédula. Não se entendia o que tinha acabado de acontecer: o Brasil encantador, eficiente, rápido, fatal e artístico, estava fora do Campeonato do Mundo. A Itália, burocrática, sem brilho, estava na meia-final. Era o fim da geração de ouro do Brasil. Os jogadores não sabiam para onde ir, o que fazer, o que dizer...

A Itália de Enzo Bearzot, viria a tornar-se tri Campeã Mundial ao derrotar a Alemanha na final.

Dizem que aquela seleção era demasiado ofensiva e não sabia defender, mas a mim não me importa. É daquela que eu me lembro, e de vez em quando vou rever imagens.

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