Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 9 de novembro de 2014

A passarola



Depois de Leonardo da Vinci, no século XVI, ter desenhado a primeira máquina voadora, o padre Bartolomeu de Gusmão torna-se, em 1709, o inventor do primeiro engenho capaz de se elevar no ar.

Mais tarde, em 1783, os irmãos Montgolfier irão lançar em França, um balão de ar quente capaz de transportar pessoas.

Em dezembro de 1685, nasceu em Santos, Brasil, o jovem Bartolomeu Lourenço de Gusmão, filho de Francisco Lourenço, cirurgião-mor da prisão de Santos e da sua mulher Maria Álvares. Fez os estudos primários em Santos, seguiu para o Seminário de Belém na Baía onde completou o Curso de Humanidades. Rapaz brilhante, de ideias avançadas para sua época, rápidamente se destacou, tendo vindo a filiar-se na Companhia de Jesus, sob a orientação do Padre Alexandre de Gusmão.

Em 1709 dirigiu-se a Lisboa e pediu à corte se poderia apresentar uma "Máquina de Voar" que representaria uma vantagem importante para Portugal, tanto a nível comercial como militar. Em 19 de abril daquele ano, recebeu autorização do rei D. João V para mostrar o seu invento perante a Casa Real.

Em 3 de agosto de 1709 foi realizada a primeira tentativa na Sala de Audiências do Palácio. No entanto, o pequeno balão de papel aquecido por uma chama, incendiou-se antes de levantar voo. Dois dias mais tarde, uma nova tentativa deu resultado, o balão subiu cerca de 4 metros. Assustados com a possibilidade de um incêndio, os criados do palácio lançaram-se contra o engenho antes que este chegasse ao teto e abortaram a tentativa.

Três dias mais tarde foi feita a terceira experiência, agora no Pátio da Casa da Índia perante D. João V, a rainha D. Maria Ana de Habsburgo, o Núncio Cardeal Conti, o Infante D. Francisco de Portugal, o Marquês de Fonte, fidalgos, damas da Corte e outros cidadãos. Desta vez foi um sucesso absoluto. O balão ergueu-se lentamente, indo cair no Terreiro do Paço. Havia sido construído o primeiro engenho mais leve que o ar.

O rei ficou tão impressionado com o engenho que publicou um édito em que concedeu a Bartolomeu o direito sobre toda e qualquer máquina voadora que viesse a ser construída desde então. E para todos aqueles que ousassem interferir ou copiar-lhe as ideias, a pena seria a morte. Ao invento do padre Bartolomeu de Gusmão passou a chamar-se Passarola, em razão de ter a forma de um pássaro.

O entusiasmo revelado pelo rei não foi acompanhado pela generalidade da população. O padre Bartolomeu foi muitas vezes ridicularizado pela sua excentricidade, sendo apelidado do padre voador. Há quem afirme que o abandono das experiências foi motivado pela tremenda chacota que os ignorantes e invejosos fizeram do seu invento. Ainda antes das suas demonstrações junto à corte, os boatos circulavam pela capital. O seu engenho passou a ser chamado «Barcarola». Circulavam chacotas e pasquins ridicularizando o inventor.

O conservadorismo vigente tudo fez para abafar a propalação do invento. A Inquisição chegou a questioná-lo por colocar em causa a ordem natural das coisas, segundo eles, ao homem não havia sido concedido o poder de voar, o padre estava a desafiar os desígnios de Deus.

Os projectos que chegaram até nós apareceram em Viena. Conta-se que terão sido enviados pela rainha para a Áustria, seu país de origem.

José Saramago no Memorial do Convento faz uma alusão à passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão, quando imagina uma máquina voadora movida por vontades.

O Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão faleceu em 19 de novembro de 1729, em Toledo, Espanha. É considerado um dos pioneiros da aeronáutica.

A uma personalidade desta importância, penso que nunca foi dado o devido destaque. O relevo que assume o pioneirismo das suas experiências, mereciam uma menção muito mais notória para as novas gerações.
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