Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O direito à indignação de Mário Soares



Em primeiro lugar quero fazer uma declaração de interesses: Não sou um admirador do Dr. Mário Soares, mas concordo com ele neste caso.

A declaração do ex-presidente da República acerca da Operação Marquês, cujo protagonista é o ex-primeiro ministro José Socrates, obrigou-me a tecer este comentário sobre atualidades, coisa que pouco gosto de fazer dado que não me sinto devidamente habilitado para o efeito. De qualquer modo não posso deixar de expressar a minha opinião.

O Dr. Mário Soares declarou que era uma malandrice de pessoas que querem mal a José Sócrates e ao PS.

Estou solidário com ele e compreendo os motivos de tal indignação.

Se há alguém que sabe reconhecer o que é uma malandrice, é um verdadeiro malandro.

Segundo consta, o Dr. Mário Soares e o seu clã ao longo da sua vida sempre deram motivos suficientes para haver intervenção da Justiça. No entanto tal nunca aconteceu. Sempre saíram incólumes de todas as situações, por mais dúbias que fossem. É, portanto muito natural que o nosso ex-presidente tenha dificuldade em compreender o processo instituído a um pobre rapaz ainda jovem que, segundo consta, apenas se apropriou de forma indevida de 25 M€?

Não há direito de tratar assim o moço, só porque não teve a habilidade suficiente para criar uma Fundação que lhe possibilitasse esconder os proventos duvidosos.

A classe politica está disponivel para arcar com os privilégios da visibilidade publica, mas devido ao seu elevado espirito de missão, abdica voluntáriamente das suas consequências. Aquele juiz faz parte dos malandros que querem mal a pessoas, que com elevada dedicação e sem interesses pessoais, sempre fizeram o melhor pelo nosso país.

A forma como tem sido mediatizada a Operação Marquês, também me parece ser censurável. Não é normal o espalhafato público sobre alegados crimes que foram perpetrados de uma forma tão discreta.

Não me lembro do senhor Engenheiro José Sócrates, agora em vias de se tornar Doutor, ter anunciado aos quatro ventos, que tinha sido licenciado a um domingo. Nunca propalou que havia falsificado o certificado de habilitações que entregou no parlamento. Não me recordo de nos ter feito saber que tinha tido intervenção no processo de tratamento de resíduos da Cova da Beira. Não apregoou que assinou projetos de moradias enquanto tinha acordo de exclusividade no parlamento. Nunca fez eco da participação no caso Freeport, na forma como adquiriu as casas, e porque comprou os seus próprios livros com dinheiro que não era seu. Também foi sempre muito contido em muitas outras coisas que afetam o erário público, mas que nem sequer ainda sabemos. Um dia poderemos vir a saber, mas nunca será por indiscrição dele próprio.

Se os seus atos decorreram sempre em recato e com o devido distanciamento para com o interesse publico, é legítimo exigir do sistema de Justiça a mesma discrição.

Só foi um bocadinho indiscreto na exibição dos sinais exteriores de riqueza. Mas digam-me, de que serve ser rico se o não podermos mostrar aos outros?

Devemos todos mostrar algum respeito por alguém que depois de habituado a tomar o “petit-dejeuner” nos Champs Elysees, de repente se vê privado de um determinado nível de vida e tem de comer uma carcaça com margarina e meia de leite. É uma mudança demasiado brusca, por isso estou de acordo com o Dr. Mário Soares, sinto-me indignado...
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