Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 20 de setembro de 2015

ser ou estar?


E porque escrevo?
Talvez por não saber fazer outra coisa


Talvez porque não tenha inspiração suficiente para ser pragmático
Talvez porque não tenha coragem para gritar,
Saltar, sair e fugir
Então escrevo...

E um dia afasto-me da escrita
Vai-me demonstrando que de nada serve
Ser pragmático é não escrever
É não ser.
Existir é não ser
Porque ser é complexo
Existir é simplesmente estar

Os ingleses não têm razão no verbo to be
Porque ser não é o mesmo que estar.
Ser é muito mais complicado, implica permanência, não é episódico
A escrita é aquilo que permanece no fim quando tudo acaba
É a escrita que nos deixa para sempre vivos
E o que existir deixa de ser, pura e simplesmente desaparece e o ser permanece
Então concluo que escrevo para ser e para deixar de existir.

domingo, 6 de setembro de 2015

Migrantes - ajudar sim, integrar não...



Eu nasci em Angola e vim de lá com os meus pais em 1975, portanto não sou um retornado, sou um refugiado.

As minhas raízes sempre foram lusas, as dificuldades na nova vida não foram diferentes de tantas outras crianças portuguesas, exceptuando talvez, as temperaturas. Recordo-me de ter passado muito frio nos primeiros anos na Europa.



A procura por uma vida melhor é um apelo da condição humana. Os portugueses são por natureza um povo migrante, temos comunidades espalhadas pelo mundo inteiro, somos um povo com grande facilidade de adaptação e integração, pelo que entendemos bem a tragédia por que passam os migrantes desta era. Mas existem diferenças culturais significativas entre nós e estes povos.

Recentemente estive em Londres, Paris e Munique. A diversidade étnica destas cidades é imensa. Os românticos poderão falar de cosmopolitismo, é verdade que sim, existe, mas do que observei posso antever que vão ter problemas muito sérios num futuro próximo. Grande parte dos imigrantes Islâmicos não estão integrados, penso que por vontade própria...Existem espaços inúmeros nestas cidades onde a tensão é latente.

Por estes motivos discordo que se fale em integração. A aculturação tem de ser voluntária e individual. Compete a cada indivíduo fazer pela vida. por outro lado, se for massiva e imposta resulta em guetos...

Os migrantes que agora se refugiam na Europa, foragidos da guerra e perseguição nos seus países, vêm para uma realidade completamente diferente daquela que vivem. Para além das enormes diferenças culturais, sobrevem a religião que no caso em análise é absolutamente estruturante nas sociedades islâmizadas o que inviabiliza praticamente a integração. Não estamos a falar de países moderadamente islâmicos.

A grande maioria dos migrantes são oriundos de Estados em que a religião tem um poder esmagador nas suas vidas e note-se, por vontade propria da grande maioria da população. São portanto povos que convivem mal com a democraticidade de um Estado laico.

Já se verificaram alguns episódios de intolerância religiosa por parte de grupos de migrantes. Por exemplo: vários grupos rejeitarem ajuda da Cruz Vermelha, exactamente por ter uma cruz como símbolo. Temos de saber lidar com este tipo de problemas, não com intolerância mas sim com compreensão e humanismo.

Claro que temos a obrigação de lhes prestar a ajuda humanitária de que necessitam, mas esta acção terá de ser meramente conjuntural até que se resolva o problema de fundo, a reintegração das populações nos seus países de origem.

A Europa precisa de ajuda para resolver este problema.


Neste momento só resta a solução militar, para isso terão de combater os grupos radicais de uma forma massiva, nos territórios que agora ocupam. A Europa tem de conseguir a ajuda das grandes potências militares globais (como a Rússia e os Estados Unidos) e das potências regionais (como Turquia e Irão). Só envolvendo todas estas vontades poderão obter um resultado rápido e duradouro.

Só eliminando a gênese do problema poderemos criar condições para o retorno e normalização das suas vidas.

A normalização do dia a dia nos países que actualmente estão destruturados, levará ao regresso voluntário das populações agora em migração.

Mais do que isso. Os países de origem têm de ter condições para reterem as suas populações. Para isso necessitam de empregos. A Europa em vez de deslocalizar a produção de bens de consumo para o Oriente, como tem feito, deverá instalar os seus centros de mão de obra nos países que nos circundam na bacia do Mediterrâneo.


Se este assunto for tratado desde já, será relativamente rápido, caso contrário caminharemos para uma guerra civilizacional sem precedentes...

Para memória futura, recordo que escrevi este post em Setembro de 2015, veremos o que se irá passar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

David Purley, o espectador acidental...




Quando se realizou o grande Prémio de Formula 1 da Holanda em 1973, no circuito de Zandvoort, tinha eu 7 anos. Vivia em Angola e não tinha televisão, por isso não pude assistir em direto à morte do piloto britânico Roger Williamson. Só anos mais tarde ouvi falar na tragédia que ocorreu nesse dia 29 de Julho. Quando vi as imagens das gravações da época fiquei estarrecido.

Zandvoort foi a segunda corrida de Williamson na Formula 1. Pilotava um March que tinha partido a meio do pelotão, numa grelha onde o melhor tinha sido o Lotus de Ronnie Peterson. Na volta seis, quando era 13º, um furo provocou uma batida nos “rails” na curva Scheivlak, o carro capotou, incendiou-se e Williamson ficou virado de cabeça para baixo, não podia sair.

David Purley, um piloto privado e seu amigo, seguia na 14ª posição. Parou o seu March e correu em direcção a Williamson, tentou virar o carro, pois sabia que ele estava vivo. Entretanto, o incêndio espalhava-se e os comissários do circuito assistiam passivos, julgavam que o carro que Purley estava a virar… era o dele próprio!

Sabendo o que se passava, Williamson gritou para Purley: “Por Amor de Deus, David tira-me daqui!”.

Purley tentava o impossível, pedia aos comissários para o ajudar, pedia para que os outros carros parassem. Mas estes não o fizeram, a organização não tinha interrompido a corrida limitando-se a assinalar o local com uma bandeira amarela.

Impotente perante o que estava a acontecer, Purley saiu do local a chorar compulsivamente, enquanto a corrida continuava. Só quando os comissários finalmente apagaram o fogo é que viram a realidade. Roger Williamson estava carbonizado. O promissor piloto inglês de 25 anos, que tinha ganho tudo na Formula 3 britânica, estava morto na sua segunda corrida da carreira. Por todo o mundo se assistiu à tragédia que havia sido transmitida em direto.

Mais tarde o diretor da prova tentou justificar o ocorrido com um mal entendido, disse que ninguém percebeu que estava um piloto dentro do carro, toda a gente pensou que o carro era o de Purley. O assunto nunca foi entregue à justiça.

David Purley foi condecorado com a medalha George Cross, a mais alta distinção inglesa por coragem em situações de salvamento, recebeu ainda mais 12 outros prémios.

Foi graças ao negócio de família, a fábrica de frigoríficos LEC, que David Purley cresceu num berço de ouro. Mas o berço de ouro não o inibiu do gosto pela aventura. Descobriu desde cedo o prazer de voar e incentivado pelo pai, tirou o brevet aos 16 anos. Nessa altura, era o mais jovem a fazê-lo no Reino Unido.

Contudo, pouco depois decidiu alistar-se no exercito britânico, no Regimento de Pára-Quedistas. Em 1967 durante um salto de treino o seu páraquedas falhou parcialmente a abertura, mas David sobreviveu ao salto.

Após ter cumprido o serviço militar em 1968, Purley foi atraído para o mundo dos automóveis pelo seu amigo Derek Bell que começava a ter uma carreira bem sucedida nas corridas. Vendo o automobilismo como um bom motivo para manter os seus níveis de adrenalina, comprou um AC Cobra e começou a vencer algumas corridas. Em 1970 decidiu mudar-se para os monolugares.

Nesse ano, comprou um velho chassis Brabham de Formula 3 e decidiu formar uma equipa, a LEC Refrigeration Racing, batizando-o com o nome da empresa da família. Foi nessa altura que conheceu Roger Williamson.

Williamson era um dos melhores do seu tempo, dominava a Formula 3, acabando por vencer três títulos entre 1971 e 1972.

Em 1972, Purley mudou-se para a Formula 2, onde arranjou um chassis March. Não conseguiu mais do que um terceiro lugar nas ruas da cidade francesa de Pau, arrebatando apenas os quatro pontos dessa corrida.

Em 1973 começou a temporada na Formula Atlantic, arranjou um March 731 de Formula 1. Tal como nas outras vezes, inscreveu-o com a equipa LEC Refrigeration e participou em algumas corridas.

Estreia-se na Fomula 1 no GP do Mónaco. A sua segunda prova será apenas em Julho, em Silverstone, mas sofre um despiste logo na primeira volta.

Vai ser na terceira corrida em que participa, o GP da Holanda, que o seu nome ficará conhecido no mundo inteiro. Partindo da 21ª posição, Purley ganhou algumas posições até à oitava volta, quando viu acidentar-se o outro March de Roger Williamson, o que se passou depois já vos contei.

Purley voltou a correr no GP de Itália, terminando a corrida no nono posto, que viria a ser a sua melhor prestação na categoria máxima do automobilismo.

A partir do ano seguinte, concentrou-se na Formula 5000, competindo a bordo de um Lola. Essa passagem foi um sucesso, sendo campeão em 1976. Após esta conquista decidiu que era altura de voltar à Formula 1.

Em 1977 cria o seu próprio monolugar com a ajuda de alguns técnicos de renome na Fórmula 1, o LEC CRP1 estreou-se em Jarama no GP de Espanha, mas acabou por não se qualificar. A corrida seguinte seria em Zolder, na Bélgica. E aí, Purley deu nas vistas.

Durante a corrida, apareceu-lhe o Ferrari de Niki Lauda que o pressionou durante muitas voltas, mas Purley não cedeu. Terminou na 13ª posição. No final perguntou de modo sarcástico ao seu mecânico:

“Quem era aquele idiota do carro vermelho?”

Lauda ouviu a pergunta e tiveram uma troca de palavras em que o austriaco chamou a Purley “coelho” e este respondeu-lhe, chamando-o “rato”.

Purley não deixou o episódio passar em claro. Na corrida seguinte, o GP da Suécia, colocou o desenho de um coelho no chassis do seu carro. Lauda achou piada e apareceu com a palavra “Rato” escrita no seu capacete, e assim com alguns risos foi sanado o incidente entre os dois.

No GP da Grã-Bretanha, dado o grande número de carros inscritos, os organizadores tiveram de realizar uma pré-qualificação. David Purley tentou o seu melhor, mas na segunda sessão de treinos, o acelerador do seu LEC ficou preso e o carro embateu fortemente nas barreiras de proteção, David sofreu graves lesões nas pernas, na pélvis e no tórax. Mas sobreviveu.

Esteve quase um ano a recuperar dos ferimentos. Após ter feito uma corrida com um Porsche 924 em Brighton, voltou ao cockpit do seu LEC em 1979, para disputar a Aurora Series, o campeonato britânico de Formula 1. Para além do LEC, também tripulou um Shadow, com alguns resultados de relevo, mas no final desse ano, decidiu abandonar a carreira de piloto.

A partir de então resolveu dar uso ao seu brevet de aviador, Purley começou a dedicar-se à acrobacia aérea. Contudo, a 2 de Julho de 1985, quando fazia acrobacias ao largo da sua cidade natal, Bognor Regis, no Pais de Gales, calculou mal uma manobra e caiu nas águas do Canal da Mancha. Tinha 40 anos de idade.

O seu corpo nunca foi encontrado.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Peter Francisco o português herói americano.


"Um Hércules de 6 pés e meio de altura que empunhava um sabre de seis pés de comprimento, Peter Francisco foi provavelmente o soldado mais extraordinário da Guerra da Revolução Americana".
Joseph Gustaitis, na American History Magazine


Na sua vida a lenda e a realidade misturam-se de tal forma que se torna muito difícil distinguir uma da outra. Em Portugal a sua história é praticamente desconhecida.

Sabe-se que Pedro Francisco terá nascido em Porto Judeu, nos Açores em 1760. Muito cedo terá emigrado com a família para os Estados Unidos. Conta-se que aos cinco anos foi adoptado por um juiz de City Point na Virgínia.

Aos dezasseis anos, media 1,98 m e pesava 120 kgs, tornou-se ferreiro. A sua força física e estatura possibilitaram-lhe que se alistasse no 10º Regimento da Virgínia.

Em Setembro de 1777, serviu sob o comando do general George Washington em Brandywine Creek na Pensilvânia, onde as forças dos colonos tentaram deter o avanço de 12.500 soldados britânicos que avançavam em direcção a Filadélfia.

Foi o general George Washington quem determinou que uma espada especial adequada ao seu tamanho, fosse confeccionada para Francisco.

Washington terá dito posteriormente acerca de Peter Francisco: "Sem ele teríamos perdido duas batalhas cruciais, provavelmente a guerra e, com ela, a nossa liberdade. Ele era verdadeiramente um Exército de um Homem Só."

Na batalha de Camden em 1780 terá realizado um dos seus maiores feitos, quando, após os colonos se terem retirado diante dos britânicos, deixaram no terreno uma enorme peça de artilharia com cerca de 450 kgs. Afirma-se que Francisco a colocou às costas e a terá transportado para que não caísse nas mãos do inimigo. Em homenagem a esse feito, os correios dos Estados Unidos emitiram em 1974 um selo comemorativo.

Os seus feitos foram sendo relatados entre os soldados que lutavam pela independência face aos britânicos. Muitas vezes eram utilizadas para levantar o moral dos mal equipados soldados rebeldes.

Em 1850, o historiador Benson Lossing registou no "Pictorial Field Book of the Revolution" que "um bravo virginiano deitou abaixo 11 homens de uma só vez com a sua espada. Um dos soldados prendeu a perna de Francisco ao seu cavalo com uma baioneta. E enquanto o atacante, assistido pelo gigante, puxava pela baioneta, com uma força terrível, Francisco puxou da sua espada e fez uma racha até aos ombros na cabeça do pobre coitado!"

Mais tarde, enquanto recuperava dos ferimentos, Peter Francisco foi apresentado ao francês Marquês de Lafayette. Um francês que tinha vindo com um contingente militar para auxiliar os rebeldes na luta contra os britânicos.

Francisco sofreu mais seis ferimentos ao serviço do seu país, tendo morto um número incerto de britânicos e sido condecorado ao final do conflito por generais americanos que se certificaram de que ele estava presente na rendição do general Charles Cornwallis e dos britânicos em Yorktown, a 19 de Outubro de 1781.

Tornou-se um homem abastado, sendo nomeado para a Câmara de Representantes da Virgínia. Foi sepultado em 1831 com honras militares no Cemitério Shockoe Hill em Richmond, na Virgínia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

MIA - Sindrome da Mediocridade Inoperante Activa.


“Quando surge um verdadeiro génio no mundo, podemos reconhecê-lo pelo seguinte sinal: todos os medíocres conspiram contra ele.”
Jonathan Swift (1667 – 1745) autor de As Viagens de Gulliver

É verdade que os génios não abundam, normalmente estas características são detidas por pessoas criativas, artistas, cientistas, investigadores, pensadores, gestores, desportistas ou outros. Seria impensável um mundo constituído apenas por génios. Mas são esses que fazem a diferença, é com eles que o mundo progride.

Essas qualidades podem ser inatas ou adquiridas. A maioria de nós, na sua mediania ambiciona atingir níveis de excelência nos vários quadrantes da vida. É a nossa condição natural de tentar alcançar a felicidade e a perfeição.

O valor inverso é a mediocridade. É de notar que não é um factor tão negativo como pode parecer à primeira vista. De facto se todos fôssemos criadores geniais, o mundo seria um caos. Quem se encarregaria das dimensões naturais e normais da nossa vida? Ninguém iria querer trabalhar nas fábricas, recolher o lixo, lavar pratos nos restaurantes, assegurar funções básicas, etc. Deste equilíbrio de valências resulta o quotidiano.

Luís de Rivera, catedrático espanhol de psiquiatria, define assim a mediocridade:

“ A mediocridade é incapacidade para valorizar, apreciar ou admirar a excelência e define-se em 3 graus

1. A mediocridade comum é a forma mais simples e inócua. Os seus sintomas são a hiper-adaptação, a falta de originalidade e uma normalidade tão absoluta que poderia ser considerada patológica: a chamada “normopatia”. Os que a manifestam não têm ponta de criatividade e não sabem distinguir a excelência, mas respeitam as indicações que lhes dão e são consumidores bons e obedientes. O conformismo permite que se sintam razoavelmente felizes.

2. A mediocridade pseudocriativa, acrescenta à anterior uma tendência pretensiosa para imitar os processos criativos normais. Enquanto o medíocre comum não se esforça para além do mínimo exigível, o pseudocriativo sente necessidade de aparentar e ostentar poder. A imagem é tudo para ele, mas, como não distingue o belo do feio, o bom do mau, não mostra inclinação para favorecer progressos de qualquer tipo e incentiva as manobras repetitivas e imitativas.

3. A mediocridade inoperante activa (MIA). Trata-se do mais prejudicial e agressivo, pelo que encaixa no perfil da maioria dos praticantes de assédio.
É esta variante de mediocridade maligna que tem como único objectivo prejudicar o talento alheio e quem se destaca pelos seus méritos. Enquanto as categorias anteriores são simplesmente incapazes de reconhecer o génio, os MIA também se propõem destruí-lo por todos os meios ao seu alcance. O indivíduo afectado por esta síndrome desenvolve uma grande actividade que não é criativa nem produtiva, e possui um enorme desejo de notoriedade e influência. Por isso, tende a infiltrar-se em organizações complexas, nomeadamente as que já se encontram minadas por formas menores de mediocridade, com o objectivo de entorpecer ou aniquilar o progresso dos indivíduos brilhantes.

A mediocridade e o seu oposto, a excelência, surgem ligadas a uma série de características contraditórias: a primeira costuma ter por aliados a inveja, a imitação, o conformismo, a adaptação, a tradição, a inércia e a rotina; a segunda é amiga da admiração, da criatividade, do inconformismo, da rebeldia, da inovação, da curiosidade e da iniciativa."

Deixo-vos a tarefa de enquadramento de cada uma delas no vosso próprio quotidiano e vão decerto chegar à mesma conclusão a que eu próprio cheguei: São muito mais os medíocres do que os outros...

domingo, 1 de março de 2015

Spirit


man gets tired
spirit don't
man surrenders
spirit won't
man crawls
spirit flies
spirit lives when man dies

man seems
spirit is
man dreams
spirit lives
man is tethered
spirit is free
what spirit is man can be

now we tread the fresh fields,
the higher grounds and the summer slopes
that man may someday climb on
now we tread the fresh fields
the higher ground and the summer slopes
that man may someday climb on
we're on the heels of Rimbaud
we are in the swing
chandelier-like dancing
and we feel everything
high on the wine of life
high on the wine of life
untethered and free
untethered and free
what spirit is man can be

(Mike Scott, London, 1984)


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Every breath you take ou o hino do perseguidor


Na minha adolescência, os Police foram uma banda marcante. Um dos meus ídolos de sempre, Keith Richards, guitarrista dos Stones, referiu-se a eles numa entrevista nos anos oitenta, como sendo a melhor banda do mundo naquela altura.

O tema mais emblemático e que sempre me acompanhou é “Every breath you take”, ganhou o Grammy Award para a melhor canção do ano 1983.

Durante muitos anos, tal como a generalidade das pessoas, estive convencido de que tratava de uma canção terna de amor. Os versos falavam de uma dedicação eterna à pessoa amada. Era um tema obrigatório nas festas de casamento. Nada mais errôneo:

A Argentina, entre 1976 e 1983 viveu sob uma ditadura militar. Neste período muitas pessoas conotadas com a oposição desapareceram, hoje sabe-se que foram assassinadas pelos militares. Os sucessivos governos tentaram branquear esse passado e a oposição utilizou este tema dos Police em manifestações de protesto.

Sting compôs a canção no célebre hotel GoldenEye na Jamaica em 1982. Contou que numa noite de insónias se levantou de madrugada já tinha na cabeça o refrão, sentou-se ao piano e começou a escrever, em meia hora estava pronta, já não tornou a adormecer. “Nem me apercebi quão sinistra ela era” – confessou mais tarde – “Acho que estava a pensar no Big Brother de Orwell, em vigilância, controle...”

A musa inspiradora do tema foi a sua ex-mulher Frances Tomelty, a primeira esposa da qual tem 2 filhos. Tinham-se separado e Sting não tinha ultrapassado a questão. Mais tarde confessou ter ficado admirado com o sucesso da música. Considerou-a uma das mais simples que havia composto e que a letra nada tinha de terno, nem de politico. Era apenas uma canção que falava de um amor que terminara, mas em que um dos membros não se conformara. De uma forma doentia começa a perseguir a ex-companheira roído pelo ciúme e sentido de posse.

Gordon Sumner (Sting) afirmou: “Acho curioso as pessoas ouvirem este tema num casamento. É uma canção que nasceu de uma experiencia vivida de ciúme e sentido de posse. Eu não iria querer ouvir isso no meu casamento”.

O tema é sinistro, nada tem a ver com harmonia e paz. Fala de um amor possessivo e doentio, ciúme e perseguição.

É irónico que uma canção que durante anos ouvimos e interpretamos de uma determinada forma, afinal representa precisamente o contrário. Aborda um tema tão pouco tratado como o dos “stalkers", pessoas que não se conformam com o terminus de uma relação e assediam o ex-companheiro ou ex-companheira das mais incríveis formas possíveis, levando-as por vezes ao suicido.

Agora sempre que oiço este tema vêm-me à memória vitimas conhecidas deste tipo de paixão obsessiva, doentia e destruidora. As emoções invocadas, agora são completamente diferentes. Aquele que seria um hino ao amor, não é mais do que um hino ao perseguidor.


Every breath you take
Every move you make
Every bond you break
Every step you take

I'll be watching you

Every single day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay

I'll be watching you

Oh can't you see
You belong to me
How my poor heart aches
With every step you take

Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake

I'll be watching you

Since you've gone I've been lost without a trace
I dream at night I can only see your face
I look around but it's you I can't replace
I feel so cold and I long for your embrace
I keep crying baby, baby, please

Oh can't you see
You belong to me
How my poor heart aches
With every step you take

Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake
I'll be watching you

Every move you make
Every step you take
I'll be watching you

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Alguns clichês

Todos temos a tendência de utilizar “lugares comuns” ou “clichès” que, por princípio, todos entendem para explicar situações ou atitudes que são conhecidas de todos. Mas a questão que coloco é esta: será que todos sabem do que estamos a falar?

Vou dar-vos alguns exemplos de lugares comuns.

O Principio de Peter

“Num sistema hierárquico todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência”

Laurence J. Peter postulou na sua obra de 1969 “The Peter Principle”.

Explicando melhor, segundo Peter alguém que integre numa empresa como estagiário, pode vir a ser promovido a técnico efetivo, dai vai subindo até ser gerente, onde se revelará incompetente. Com isto, sua ascensão finda e esta pessoa ficará estagnada numa função para a qual não tem qualquer competência para exercer.

Mais grave ainda, também observou que nem todos os indivíduos se elevam. Alguns não são promovidos porque se acredita serem indispensáveis no lugar em que estão, ou seja, foram elevados até o nível da "indispensabilidade". Concluiu então que, quando coincidem os níveis de incompetência com o de indispensabilidade de um indivíduo, deparamo-nos com uma anomalia: o incompetente indispensável.

Peter considera que a competência é determinada não por estranhos, mas pelos superiores. Considerando que, se um superior ainda estiver no seu nível de competência, poderá avaliar os subordinados no sentido de lhes obter um desempenho útil de trabalho; mas, se este superior estiver no seu nível de incompetência, procurará manter os subordinados dentro de valores institucionalizados, ou seja, será mais formalista e exigente do cumprimento de regras, rituais e formas estabelecidas. Desta forma ele assegura a manutenção do seu lugar de incompetência.



Os reflexos condicionados de Pavlov

Para Pavlov, aquilo que se denominava por espírito mais não era do que a actividade do cérebro. Dedicou-se, por isso, a estudar profundamente a actividade nervosa superior, estabelecendo um conjunto de leis fisiológicas que acabaram por lhe valer o Prémio Nobel da Medicina em 1904. Concluiu que é no córtex cerebral que se vão formar, modificar e desaparecer os reflexos condicionados.

Pavlov, ao estudar as secreções gástricas dos cães, descobre que sempre que era apresentado um estímulo (comida) eram produzidas secreções (saliva), facto que acontecia de um modo semelhante em todos os elementos de uma espécie animal. São os chamados reflexos inatos ou reacções automáticas naturais, por exemplo: num cão verifica-se a produção de saliva quando é apresentado um alimento, facto que serve para ajudar a ingestão do alimento.

Para além destes reflexos descobriu que se podem desenvolver reflexos aprendidos podendo assim proceder-se a uma alteração dos comportamentos. Os reflexos aprendidos ou condicionados são produzidos pela associação de um estímulo novo (estímulo que não produzia inicialmente nenhuma resposta específica) ao estímulo antigo (que desencadeava o reflexo inato). Por exemplo o cão associa a comida ao seu tratador, logo, quando o vê produz-se saliva.

Concluiu também que este tipo de reflexos é comum ao ser humano.



A lei de Murphy

“Se alguma coisa tem a mais remota hipótese de correr mal, certamente correrá mal”.

O criador desta lei foi o capitão da Força Aérea americana, Edward Murphy. Foi um dos engenheiros envolvidos nos testes sobre os efeitos cardíacos da desaceleração rápida em pilotos de aeronaves.

Para poder fazer essa medição, construiu um equipamento que registava o ritmo cardíaco e a respiração dos pilotos. O aparelho foi instalado por um técnico, mas simplesmente ocorreu um problema e o equipamento não funcionou. Murphy foi chamado para consertar o equipamento, descobriu que a instalação estava toda errada, daí formulou a sua lei.

A partir desta lei foram criadas várias derivadas muito interessantes, alguns exemplos:

. As coisas podem piorar, mas você não tem imaginação suficiente.

. Toda a partícula que voa, encontra um olho.

. As coisas vão piorar antes de melhorar. Quem disse que as coisas vão melhorar?


A síndrome de Peter Pan

Existem indivíduos que se recusam a crescer. A sua personalidade caracteriza-se pela imaturidade psicológica, e o narcisismo. Tratam-se de pessoas irresponsáveis em quase todos os aspetos da vida, rebeldes, que se negam a crescer, dependentes, manipuladoras e que se sentem acima das normas sociais. Estes indivíduos costumam sentir-se insatisfeitos com o que têm, mas nada fazem para resolver a questão. Limitam-se a pedir ou a exigir, como se tudo fosse um direito adquirido.

Resumindo o conceito, estamos a falar de meninos mimados. Está cientificamente demonstrada a grande importância do papel das mães na educação destes rapazolas...


A verdade de La Palice

Diz-se de algo que é tão evidente que se torna redundante destacar.

“Se não estivesse morto, ainda estaria vivo”

Este epitáfio ficou inscrito numa canção composta pelos soldados comandados por Jacques de Chabannes, senhor de La Palice (1470-1525).

O senhor de La Palice era um guerreiro valoroso que foi morto na batalha de Pavia. Os seus soldados em homenagem ao comandante compuseram uma canção ingénua, cujos versos lhe valeram a imortalidade.


Bode expiatório

Diz-se de alguém que arca com as responsabilidades de outros.

A origem da expressão tem a ver com relatos do primeiro testamento. O dia da expiação dos pecados do povo de Israel. Nesse dia eram levados dois bodes para a cerimonia. Um deles era sacrificado, o outro era o bode expiatório. Era abandonado no deserto por ser portador de todos os pecados dos israelitas. Com a sua morte todos os pecados eram expiados.




Testa de ferro

Diz-se de alguém sem qualquer poder, mas que representa outra pessoa ou poder oculto.

A origem da expressão terá sido em Itália com Emanuele Filiberto di Savoia (1528-1580), conhecido como Testa di Ferro, que foi conde de Asti, duque de Saboia, príncipe de Piemonte e conde de Aosta. Foi também rei de Chipre e Jerusalém, mas tratavam-se de cargos fantoches, sem qualquer poder.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Negacionismo


Em 2010 numa viagem que fizemos à República Checa, tivemos oportunidade de visitar o campo de concentração de Terezin a cerca de 60 quilómetros de Praga, a que os alemães chamavam Theresienstadt. Era um mero campo de transição para Auschwitz.

Logo na entrada temos a visão de um relvado enorme, cerca de 1 hectare repleto de campas brancas encimado por uma grande estrela de David, recordando as vitimas que ali pereceram. O campo tinha sido construído para albergar judeus das classes mais abastadas e artistas.

Em 1944 a Cruz Vermelha teve autorização para visitar o campo. Os alemães queriam desfazer o rumor que corria acerca da existência de campos de extermínio. Para servir de modelo propagandístico da forma como eram tratados os judeus deportados, os alemães chegaram a filmar o quotidiano do campo modelo, utilizando as imagens para difundir pelos cinemas do reich, convencendo os cidadãos alemães e o mundo de que os deportados eram tratados de uma forma exemplar.

O que realmente se passava, ficava para depois das filmagens. O que observamos no local é absolutamente chocante, as camaratas onde dormiam, eram beliches com tábuas de madeira, sem qualquer cobertura, as temperaturas naquela zona podem atingir os 15 graus negativos no inverno. Os desenhos que foram encontrados após a libertação do campo descrevem execuções em massa e torturas atrozes.

Durante a guerra passaram por Theresienstadt cerca de 144.000 prisioneiros, cerca de 33.000 morreram lá. Quando a guerra terminou havia cerca de 17.000 sobreviventes; das 15.000 crianças que habitaram o campo apenas 93 sobreviveram.

A sensação que mantenho desse dia é de uma profunda tristeza. Visitamos o campo no mês de Junho, caía uma chuva mansa e silenciosa. Durante a visita apenas ouvíamos a voz do guia, um checo que havia perdido os avós naquele campo, todos os visitantes se mantinham em silêncio, só o quebravam, quando num sussurro questionavam o guia acerca de algo. O respeito pela memória daqueles que sofreram, oprimia-nos. Nesse dia éramos poucos os visitantes, se bem me recordo seriamos umas 10 pessoas, entre polacos e americanos, possivelmente todos judeus, excepto nós.

Tudo isto se passou vinte anos antes de eu ter nascido, não podemos deixar que esse silêncio vença a memória, sempre passei este testemunho aos meus filhos, existem princípios, valores e limites que não podem ser ultrapassados...

“Há 70 anos foi libertado o campo de concentração mais associado ao extermínio dos judeus pelo regime nazi. Mas demorou anos até haver uma compreensão generalizada de que os judeus tinham sido vítimas de um genocídio (...)
(...) Apesar de muito se ter passado até então, só em 1961, quando o julgamento em Israel de Adolf Eichman, o especialista em judeus do regime nazi capturado pela Mossad na Argentina, foi transmitido pela televisão para todo o mundo, é que o Holocausto ganhou as dimensões modernas. Os julgamentos militares de Nuremberga, logo a seguir à guerra, não tiveram esse efeito.”
In jornal Publico 27/01/2015

Ao ler este artigo achei incrível haver gente que ponha em causa um acontecimento tão marcante e documentado como este. Então tive necessidade de aprofundar a análise do tema do negacionismo.

Durante a década de 1980, surgiu na França o termo negacionismo para orientar uma corrente de críticos que defendiam que o Holocausto da Segunda Guerra Mundial não existiu. Essa vertente interpretativa procurava minimizar, negar ou omitir simplesmente o extermínio de judeus ocorrido durante o conflito.

O negacionismo do Holocausto tem como argumentos básicos a defesa de que os nazis não desenvolveram uma política oficial de perseguição aos judeus, assim como não utilizaram métodos de extermínio em massa e de que o número de mortes propagado, cerca de seis milhões, seria um exagero.

Os seguidores desta teoria não aceitam o termo negacionismo, para os definir preferem utilizar a expressão revisionista. Defendem que pretendem rever a história sob a sua perspectiva. Só que seus opositores recusam a designação por respeito aos verdadeiros revisionistas que fazem uso de documentos históricos para trazer mais informações fundamentadas. Ou seja, os negacionistas são constantemente acusados de estruturarem seus argumentos simplesmente numa base ideológica e sem a existência de evidências históricas.

Os negacionistas sugerem que o Holocausto é uma farsa com fins propagandísticos que utiliza números exagerados para poder sustentar a criação do Estado de Israel, receber grandes indeminizações e justificar o avanço dos judeus sobre territórios palestinianos no Médio Oriente.

O negacionismo ganhou conotação de antissemitismo e, actualmente, é considerado crime em 16 países, entre eles a Alemanha.

O negacionismo não precisa ser acompanhado de ideias racistas ou de justificação do Holocausto para ser perigoso. A mera negação do massacre é preocupante porque atinge um facto histórico que nos recorda até onde pode chegar a maldade humana.

A forma mais eficaz de preservar direitos humanos e evitar a repetição de qualquer episódio triste ou insano da história como o Holocausto, é o fortalecimento de políticas de esclarecimento e de preservação da memória para que a obscuridade não relativize a barbárie.

Nos tempos actuais assistimos ao recrudescimento de fundamentalismos quer sejam de natureza religiosa, politica ou rácica, que levam à repetição dos horrores humanos. Os seus perpetradores são jovens alienados e desvinculados do passado histórico.

Penso que tornar obrigatório assistir ao filme “A Lista de Schindler” nas escolas secundárias, seguida de uma abordagem sintética do tema “Segunda Guerra Mundial”, seria uma boa medida educacional.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os atletas fundamentalistas


Sinto-me envergonhado porque não escrevi nada acerca do Charlie Hebdo.

Durante este período tenebroso, toda a gente opinou acerca dos acontecimentos de Paris. Não houve ninguém, excepto eu, que não tivesse algo a dizer sobre este assunto. A revista Charlie Hebdo era, até então, desconhecida da generalidade das pessoas, e os que a conheciam não a liam, os que a liam não a compravam, daí os problemas financeiros que atravessavam. O tema foi abordado a jusante, a montante, lateral, frontal, ou longitudinalmente, e até pessoas que eu não sabia que tinham opinião tiveram a desfaçatez de rabiscar umas linhas, mesmo que, sem nexo.

E eu? Não disse nada. E não direi porque acho que tudo já foi dito, a propósito e a despropósito. Tudo o que eu possa dizer, nada vem acrescentar ao que já foi esclarecido.

É por esse motivo que me debruço sobre um tema muito mais pacífico e acessível à minha sempre débil análise: os atletas amadores fundamentalistas.

Estou a abordar um tema com conhecimento de causa, sou um deles, mas não sou fundamentalista. Pratico fitness periodicamente para tentar evitar o alargamento calórico inerente ao pouco cuidado regime alimentar que pratico. A coisa não tem sido fácil porque mantenho um desempenho de elevado rendimento em redor de qualquer mesa, mas tenho maiores dificuldades no que diz respeito à assiduidade ao ginásio. Este regime desequilibrado torna difícil a manutenção da forma. De qualquer modo é uma luta diária que travo comigo próprio e da qual não me orgulho por tão facilmente ceder a tentações.



Ora o que me traz ao tema são outros atletas que conheço, e todos nós temos um amigo ou uma amiga, que não sendo atletas de alta competição se comportam como se realmente o fossem. Eu chamo-lhes os fundamentalistas do atletismo.

Normalmente começam por indicação médica, quando num check up geral o médico de família lhes recomenda exercício físico para combater o colesterol elevado, ou o excesso de peso, ou por isto, ou por aquilo. A atividade começa por uma boa causa, mas depois torna-se o pesadelo dos amigos.

Pesadelo porque a partir desse instante, eles vivem em exclusivo para o footing, o cross, as caminhadas, as míni maratonas, as maratonas, as ultra maratonas, as giga maratonas, o running, etc. Tal e qual um toxicodependente, a atividade torna-se um modo de vida. Este facto por si só, não é necessariamente mau, não fosse a excessiva publicitação do mesmo.

Os fundamentalistas atléticos, tentam evangelizar todos os que os rodeiam, não se cansam de impingir os benefícios para a saúde de tal atividade, chegando mesmo ao ponto de pensarem que vivem muito melhor que os outros. Acham mesmo que ser feliz sem praticar atletismo é uma impossibilidade existencial. Têm grande dificuldade em aceitar projectos de vida que não envolvam a modalidade.

O emprego é apenas um meio para obter os proventos necessários para alimentar o vicio: comprar equipamentos, suplementos alimentares, pagar viagens para provas no estrangeiro, inscrições, fins de semana atléticos. O sentimento de superioridade é tal, que chegam mesmo a afastar-se dos amigos que não praticam o mesmo ritual. Em relação à família, ou alinham com eles, ou são abandonados. Arranjam novos grupos formando tribos de interesse comum, tal e qual como os motoqueiros, ou os fumadores de cachimbo.

Todos os restantes temas da vivência humana deixam de ter importância. Só faz sentido estar a par das últimas novidades tecnológicas em termos de ténis, meias elásticas, óleos de massagem, ou suéteres. As conversas nem sequer podem ser acerca de desportistas de alta competição, porque eles não conhecem, não sabem quem são, não veem e não ouvem porque estão a treinar, e se não estão a treinar, estão a correr, quando não estão a correr, estão numa grande superfície na secção de desporto à procura do último modelo de ténis, que um outro fundamentalista já usa.

Os fundamentalistas atléticos são uma praga que urge erradicar ou esta síndroma é capaz de se multiplicar rapidamente. É por isso que só pratico cycling e fitness q.b.