Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Negacionismo


Em 2010 numa viagem que fizemos à República Checa, tivemos oportunidade de visitar o campo de concentração de Terezin a cerca de 60 quilómetros de Praga, a que os alemães chamavam Theresienstadt. Era um mero campo de transição para Auschwitz.

Logo na entrada temos a visão de um relvado enorme, cerca de 1 hectare repleto de campas brancas encimado por uma grande estrela de David, recordando as vitimas que ali pereceram. O campo tinha sido construído para albergar judeus das classes mais abastadas e artistas.

Em 1944 a Cruz Vermelha teve autorização para visitar o campo. Os alemães queriam desfazer o rumor que corria acerca da existência de campos de extermínio. Para servir de modelo propagandístico da forma como eram tratados os judeus deportados, os alemães chegaram a filmar o quotidiano do campo modelo, utilizando as imagens para difundir pelos cinemas do reich, convencendo os cidadãos alemães e o mundo de que os deportados eram tratados de uma forma exemplar.

O que realmente se passava, ficava para depois das filmagens. O que observamos no local é absolutamente chocante, as camaratas onde dormiam, eram beliches com tábuas de madeira, sem qualquer cobertura, as temperaturas naquela zona podem atingir os 15 graus negativos no inverno. Os desenhos que foram encontrados após a libertação do campo descrevem execuções em massa e torturas atrozes.

Durante a guerra passaram por Theresienstadt cerca de 144.000 prisioneiros, cerca de 33.000 morreram lá. Quando a guerra terminou havia cerca de 17.000 sobreviventes; das 15.000 crianças que habitaram o campo apenas 93 sobreviveram.

A sensação que mantenho desse dia é de uma profunda tristeza. Visitamos o campo no mês de Junho, caía uma chuva mansa e silenciosa. Durante a visita apenas ouvíamos a voz do guia, um checo que havia perdido os avós naquele campo, todos os visitantes se mantinham em silêncio, só o quebravam, quando num sussurro questionavam o guia acerca de algo. O respeito pela memória daqueles que sofreram, oprimia-nos. Nesse dia éramos poucos os visitantes, se bem me recordo seriamos umas 10 pessoas, entre polacos e americanos, possivelmente todos judeus, excepto nós.

Tudo isto se passou vinte anos antes de eu ter nascido, não podemos deixar que esse silêncio vença a memória, sempre passei este testemunho aos meus filhos, existem princípios, valores e limites que não podem ser ultrapassados...

“Há 70 anos foi libertado o campo de concentração mais associado ao extermínio dos judeus pelo regime nazi. Mas demorou anos até haver uma compreensão generalizada de que os judeus tinham sido vítimas de um genocídio (...)
(...) Apesar de muito se ter passado até então, só em 1961, quando o julgamento em Israel de Adolf Eichman, o especialista em judeus do regime nazi capturado pela Mossad na Argentina, foi transmitido pela televisão para todo o mundo, é que o Holocausto ganhou as dimensões modernas. Os julgamentos militares de Nuremberga, logo a seguir à guerra, não tiveram esse efeito.”
In jornal Publico 27/01/2015

Ao ler este artigo achei incrível haver gente que ponha em causa um acontecimento tão marcante e documentado como este. Então tive necessidade de aprofundar a análise do tema do negacionismo.

Durante a década de 1980, surgiu na França o termo negacionismo para orientar uma corrente de críticos que defendiam que o Holocausto da Segunda Guerra Mundial não existiu. Essa vertente interpretativa procurava minimizar, negar ou omitir simplesmente o extermínio de judeus ocorrido durante o conflito.

O negacionismo do Holocausto tem como argumentos básicos a defesa de que os nazis não desenvolveram uma política oficial de perseguição aos judeus, assim como não utilizaram métodos de extermínio em massa e de que o número de mortes propagado, cerca de seis milhões, seria um exagero.

Os seguidores desta teoria não aceitam o termo negacionismo, para os definir preferem utilizar a expressão revisionista. Defendem que pretendem rever a história sob a sua perspectiva. Só que seus opositores recusam a designação por respeito aos verdadeiros revisionistas que fazem uso de documentos históricos para trazer mais informações fundamentadas. Ou seja, os negacionistas são constantemente acusados de estruturarem seus argumentos simplesmente numa base ideológica e sem a existência de evidências históricas.

Os negacionistas sugerem que o Holocausto é uma farsa com fins propagandísticos que utiliza números exagerados para poder sustentar a criação do Estado de Israel, receber grandes indeminizações e justificar o avanço dos judeus sobre territórios palestinianos no Médio Oriente.

O negacionismo ganhou conotação de antissemitismo e, actualmente, é considerado crime em 16 países, entre eles a Alemanha.

O negacionismo não precisa ser acompanhado de ideias racistas ou de justificação do Holocausto para ser perigoso. A mera negação do massacre é preocupante porque atinge um facto histórico que nos recorda até onde pode chegar a maldade humana.

A forma mais eficaz de preservar direitos humanos e evitar a repetição de qualquer episódio triste ou insano da história como o Holocausto, é o fortalecimento de políticas de esclarecimento e de preservação da memória para que a obscuridade não relativize a barbárie.

Nos tempos actuais assistimos ao recrudescimento de fundamentalismos quer sejam de natureza religiosa, politica ou rácica, que levam à repetição dos horrores humanos. Os seus perpetradores são jovens alienados e desvinculados do passado histórico.

Penso que tornar obrigatório assistir ao filme “A Lista de Schindler” nas escolas secundárias, seguida de uma abordagem sintética do tema “Segunda Guerra Mundial”, seria uma boa medida educacional.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os atletas fundamentalistas


Sinto-me envergonhado porque não escrevi nada acerca do Charlie Hebdo.

Durante este período tenebroso, toda a gente opinou acerca dos acontecimentos de Paris. Não houve ninguém, excepto eu, que não tivesse algo a dizer sobre este assunto. A revista Charlie Hebdo era, até então, desconhecida da generalidade das pessoas, e os que a conheciam não a liam, os que a liam não a compravam, daí os problemas financeiros que atravessavam. O tema foi abordado a jusante, a montante, lateral, frontal, ou longitudinalmente, e até pessoas que eu não sabia que tinham opinião tiveram a desfaçatez de rabiscar umas linhas, mesmo que, sem nexo.

E eu? Não disse nada. E não direi porque acho que tudo já foi dito, a propósito e a despropósito. Tudo o que eu possa dizer, nada vem acrescentar ao que já foi esclarecido.

É por esse motivo que me debruço sobre um tema muito mais pacífico e acessível à minha sempre débil análise: os atletas amadores fundamentalistas.

Estou a abordar um tema com conhecimento de causa, sou um deles, mas não sou fundamentalista. Pratico fitness periodicamente para tentar evitar o alargamento calórico inerente ao pouco cuidado regime alimentar que pratico. A coisa não tem sido fácil porque mantenho um desempenho de elevado rendimento em redor de qualquer mesa, mas tenho maiores dificuldades no que diz respeito à assiduidade ao ginásio. Este regime desequilibrado torna difícil a manutenção da forma. De qualquer modo é uma luta diária que travo comigo próprio e da qual não me orgulho por tão facilmente ceder a tentações.



Ora o que me traz ao tema são outros atletas que conheço, e todos nós temos um amigo ou uma amiga, que não sendo atletas de alta competição se comportam como se realmente o fossem. Eu chamo-lhes os fundamentalistas do atletismo.

Normalmente começam por indicação médica, quando num check up geral o médico de família lhes recomenda exercício físico para combater o colesterol elevado, ou o excesso de peso, ou por isto, ou por aquilo. A atividade começa por uma boa causa, mas depois torna-se o pesadelo dos amigos.

Pesadelo porque a partir desse instante, eles vivem em exclusivo para o footing, o cross, as caminhadas, as míni maratonas, as maratonas, as ultra maratonas, as giga maratonas, o running, etc. Tal e qual um toxicodependente, a atividade torna-se um modo de vida. Este facto por si só, não é necessariamente mau, não fosse a excessiva publicitação do mesmo.

Os fundamentalistas atléticos, tentam evangelizar todos os que os rodeiam, não se cansam de impingir os benefícios para a saúde de tal atividade, chegando mesmo ao ponto de pensarem que vivem muito melhor que os outros. Acham mesmo que ser feliz sem praticar atletismo é uma impossibilidade existencial. Têm grande dificuldade em aceitar projectos de vida que não envolvam a modalidade.

O emprego é apenas um meio para obter os proventos necessários para alimentar o vicio: comprar equipamentos, suplementos alimentares, pagar viagens para provas no estrangeiro, inscrições, fins de semana atléticos. O sentimento de superioridade é tal, que chegam mesmo a afastar-se dos amigos que não praticam o mesmo ritual. Em relação à família, ou alinham com eles, ou são abandonados. Arranjam novos grupos formando tribos de interesse comum, tal e qual como os motoqueiros, ou os fumadores de cachimbo.

Todos os restantes temas da vivência humana deixam de ter importância. Só faz sentido estar a par das últimas novidades tecnológicas em termos de ténis, meias elásticas, óleos de massagem, ou suéteres. As conversas nem sequer podem ser acerca de desportistas de alta competição, porque eles não conhecem, não sabem quem são, não veem e não ouvem porque estão a treinar, e se não estão a treinar, estão a correr, quando não estão a correr, estão numa grande superfície na secção de desporto à procura do último modelo de ténis, que um outro fundamentalista já usa.

Os fundamentalistas atléticos são uma praga que urge erradicar ou esta síndroma é capaz de se multiplicar rapidamente. É por isso que só pratico cycling e fitness q.b.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A incomparável comparação




Com a recente reeleição de Cristiano Ronaldo para a terceira Bola de Ouro, veio de novo a controversa comparação incomparável com Eusébio, acerca da atribuição do título de melhor jogador português de sempre.

Devo referir que a eleição do melhor jogador do mundo não é titulo que muito me agrade, porque quando falamos de um desporto coletivo, não me parece legitimo todo o destaque e exagerada evidência que se atribui ao individuo.

Eusébio foi considerado pela IFFHS, federação internacional de estatística, como o nono melhor jogador do século XX.

Comparando as incomparáveis médias de golos por jogo:

Cristiano Ronaldo 0,57 golos/ jogo Eusébio 1,02 golos/ jogo

José Mourinho uma vez afirmou acerca de Eusébio:
“Se alguém pudesse estabelecer um paralelismo com aquilo que são os maiores jogadores de futebol actualmente e pensar no que ele seria hoje se tivesse 20 ou 30 anos... Acho que seria uma coisa assombrosa!”.

Patrick Kulivert, internacional holandês, disse numa entrevista:
“Fiquei conhecido como Pantera Negra por semelhanças com o seu jogo. Sabias que os miúdos das escolas do Ajax, dos 7 aos 14 anos, veem não sei quantas jogadas e superjogadas e uma delas, nunca mais me esqueci, é aquela do Eusébio no jogo com a Coreia do Norte, em que ele apanha a bola no meio campo, passa por um, outro, mais um e outro ainda, até ser carregado em falta dentro da área? Pois bem, é o vídeo que nos ensina o domínio da bola... Que jogada, a bola não lhe sai do pé...”

Karl Heinz Rummenigge, sobre Eusébio:
“Eu tinha 10 anos na altura do mundial de 66 e eu queria ser sempre o Eusébio nos jogos de rua, era o jogador da época, o exemplo a seguir, pela força física e pela capacidade técnica.”

Alfredo Di Stefano :
“Para mim Eusébio é o melhor de todos os tempos, uma força da natureza, um talento do outro mundo nos dois pés e uma impulsão fantástica capaz de cabeceamentos mortíferos. Um verdadeiro fora de série”.

Na minha maneira de ver Eusébio nasceu com as condições morfológicas para ser um atleta de eleição. Atingiu um nivel assombroso, apesar de ter sido operado 7 vezes aos joelhos. Independentemente do trabalho muscular desenvolvido na sua progressão na alta competição, não se pode comparar com a tecnologia que está ao dispor dos grandes astros do futebol atual.

Sempre jogou em Portugal, um país fechado, absolutamente ignorado pelo resto do mundo. Eusébio nunca jogou nos grandes centros de influência mediática, como Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha ou França. Foi impedido de jogar no estrangeiro por Salazar. A visibilidade foi conquistada nas competições europeias, porque o campeonato português era perfeitamente ignorado. Com as devidas diferenças, Portugal nos anos sessenta teria uma visibilidade europeia idêntica à que hoje temos da Albânia. Imaginem o que é dar destaque a um desportista com estas origens, tem forçosamente de ser muito superior à média para conseguir evidenciar-se.

Hoje Ronaldo tem uma máquina mediática que suporta e alimenta toda a sua espantosa visibilidade global. Todos os seus feitos têm uma repercussão imediata. Mal comparado, lembro-me do caso de David Beckham, um futebolista mediano, mas que graças a uma fantástica máquina promocional, atingiu uma projeção global.

A nível estatístico não há comparação possível. Na era Eusébio era muito raro um jogador de futebol fazer 40 jogos oficiais por época, hoje os atletas das melhores equipas do mundo, fazem cerca de 60 jogos por ano. Esta diferença serve para explicar a grande quantidade de recordes que são atualmente batidos.

Outra grande diferença tem a ver com os craques que coexistem em cada época.

Actualmente Cristiano Ronaldo tem apenas um fenomenal jogador ao seu nível: Lionel Messi. Todos os restantes estão a um nível um pouco mais baixo, casos de: Manuel Neuer, Frank Ribery, Zlatan Ibrahimovic, Arien Robben, Neymar, Gareth Bale, Luis Suarez, Aguero, Eden Hazard, etc.

Vejamos quem eram os craques contemporâneos de Eusébio:
Di Stefano, Péle, Puskas, Bobby Charlton, Beckenbauer, Cruyff, George Best, Garrincha, Lev Yashin, Gigi Riva. Todos estes nomes figuravam como atletas da primeira elite do futebol mundial e com potencial para ganhar a “Bola de Ouro”, mas este troféu não tinha nessa altura, os mesmos critérios de hoje.

Quando no Verão de 2009 Eusébio esteve na apresentação de Cristiano Ronaldo no Estádio Santiago Bernabéu, perante 85.000 adeptos; Alfredo Di Stefano, que foi o seu ídolo de sempre, virou-se para Eusébio e disse-lhe: “Isto serias tu...”.

Ronaldo é sem dúvida, o melhor jogador da atualidade. É um nome que nos enche de orgulho, pela visibilidade que nos dá pelo mundo fora. Recordo uma vez que fui a Roma e a primeira figura que me recebeu no aeroporto de Fiumicino, foi uma foto enorme de Cristiano Ronaldo a publicitar um perfume. Nas Maldivas quando disse a um dos nativos que vínhamos de Portugal, ele logo retorquiu com um largo sorriso: Ronaldo!

Mas não se pode comparar o incomparável.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Schubert, o génio que dormia de óculos


Oiço Schubert há muitos anos. As suas melodias simples e melancólicas que invocam paisagens de Inverno, transportam-me para um bem estar interior pleno de paz.

Schubert morreu em Viena no de 1828, aos 31 anos, sem dinheiro e dependente da ajuda de amigos. Muitos dos que estudaram a vida do compositor acreditam que foi vítima de sífilis.

Conta-se que, pouco antes da sua morte, manifestou seu último desejo: queria ouvir, na cama, o Quarteto nº 14, de Beethoven.

Actualmente não é tão conhecido popularmente como Beethoven. Não obstante, o seu contributo para a música é importantíssimo. Aliás, pode-se considerar a música de Schubert como uma perfeita transição entre os dois compositores. Era herdeiro do classicismo de Mozart, mas tinha já o espírito de renovação que levaria ao romantismo de Beethoven.

Nascido num subúrbio de Viena, em 31 de janeiro de 1797, Schubert foi cantor no Coro da Capela Imperial durante 6 anos. Depois trabalhou como professor de musica na escola primária do pai.

Durou pouco tempo este trabalho. Schubert foi despedido pelo pai, devido à sua indisciplina. Por vezes durante uma aula o jovem compositor escrevia uma composição no caderno de qualquer aluno. Os atritos com o seu pai eram constantes.

Schubert foi morar na casa de amigos, levando uma vida de boémia. Nunca se casou. Na sua única aventura amorosa contraiu a sífilis que mais tarde o levaria à morte prematura. Escrevia música pela manhã, passeava pela tarde e a noite ia para a casa de algum amigo apresentar as novas obras.

A sua vida em Viena não tinha amores fulminantes ou triunfos memoráveis. Foi simples, despretensiosa, preocupado apenas em fazer música. Vivia nas casas dos amigos, tocando esporadicamente, compondo uma ou outra peça por encomenda.

Aos 18 anos, já tinha escrito 203 peças musicais. Ao longo da sua curta vida escreveu cerca de 600 ” lieder”, pequenas peças sobre textos de Shakespeare e Goethe e outros poetas menores.

Chegou a ter grande sucesso com as suas “lieder”, mas o dinheiro auferido pela venda dos seus direitos autorais rapidamente desapareceu. As suas outras grandes obras não tinham o mesmo reconhecimento. Nunca chegou a apresentar publicamente nenhuma das suas sinfonias ou óperas.

Segundo relatos da época, Schubert escrevia como que em transe, em qualquer lugar, a qualquer hora. Mesmo durante a noite dormia de óculos para anotar mais rápido as ideias que tivesse.

As suas sinfonias não chegaram a ser apresentadas durante a vida. O próprio manuscrito da sua mais famosa obra a “Inacabada”, foi encontrado por acaso, 43 anos depois de sua composição.

Escrita em 1822, esta sinfonia é "inacabada" por ter apenas duas partes. Naquela época o usual era que as sinfonias tivessem quatro partes ou movimentos. Hoje é impossível saber porque ficou inacabada. A morte de Schubert, aos 31 anos não foi a causa, pois depois da Inacabada ele ainda escreveu mais uma sinfonia, num total de nove. Também não quis deliberadamente quebrar as regras vigentes. Prova é que chegou a escrever os oito primeiros compassos de um terceiro movimento, mas ficou por aí a obra...

Schubert pouco se importava com o que escrevia. Frequentemente esquecia manuscritos em bancos de jardim, casas de amigos, tavernas ou em qualquer outro lugar.

Embora não tenha realmente sido amado por nenhuma mulher e ter vivido numa pobreza constante, o temperamento de Schubert era sempre lembrado pelos amigos como muito alegre. Não deixa de ser paradoxal o contraste entre a melancolia da sua música e o espírito jovial relatado pelos amigos da época.

Ao contrário de Beethoven que revolucionou os conceitos musicais da época, Schubert respeitou as regras de então, mas sublimou-as a um nível genial, como hoje lhe é reconhecido.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O assédio sexual não é para todos

Quero, primeiro que tudo, declarar que nunca fui vítima de assédio sexual.

Oiço dizer a tanta gente que tiveram problemas no local de trabalho, porque de uma maneira ou de outra, havia sempre alguém interessado em se aproximar sub-repticiamente ou então declaradamente, no sentido único de obter algum favor sexual em troca.

Pois bem, infelizmente não sei do que se trata, talvez porque não tenha passado por isso. Nas vezes em que estive porventura, muito próximo de que isso realmente me acontecesse, nunca aconteceu.

Para que houvesse alguma forma de assédio em torno da minha pessoa, tive de ser eu a promovê-lo. Quase sempre essas tentativas foram intentadas a expensas próprias e muito raramente correram bem. Posso mesmo dizer que devo ter um saldo devedor.

É por isso muito difícil para mim entender alguém que padece desta obsessão. Eu explico porque se torna difícil esta compreensão.

Esta análise tem a ver com empatia, ou seja a capacidade que temos de nos colocarmos no papel do outro. Ora isto para mim é um problema, porque nunca estive no papel do outro.

Uma vítima, para ser uma verdadeira vitima, não pode colocar-se nessa posição, ou seja uma vítima para ser vítima não pode saber ou sequer adivinhar que um dia será vítima, porque caso contrário, passará a ser o objeto sobre o qual agirá o sujeito agressor, e não há efeito que não tenha a sua consequência.

Daqui nasce a tradicional confusão entre a abordagem forçada e a abordagem consentida.

Eu não sirvo de vítima por que já me pus a jeito e nada aconteceu.

Resta-me apurar por que motivo alguém que não está virado para desempenhar esse papel, se torna protagonista do mesmo, e alguém que sempre sonhou com esse desempenho, nunca foi chamado a assumir o papel da vítima.

Só existe uma explicação lógica para esta lacuna na minha vivência, a falta de sex appeal.


É o sex appeal que justifica a constante vitimização de uns, e a confrangedora exclusão de outros. Não acho justo, porque até tenho trabalhado bastante esse aspecto. Passe um pouco a imodéstia, não sou estúpido e adapto-me bem a situações novas.

Continuo a achar absolutamente injusto, haver alguns, segundo dizem, bastantes, que já foram vítimas de assédio e por várias vezes. E eu que tanto me tenho exposto... Nada.

Por outro lado, dou por mim a pensar: Será que já fui vítima e não dei por isso? Poderemos considerar ser uma tentativa assédio quando uma colega nos pede licença para tirar uma fotocópia e passa à nossa frente só porque é mulher? Convidar-nos para tomar um café e no fim deixar-nos pagar?

Estou confuso e desiludido por não entender porque motivo nada acontece.

É ridícula esta falta de experiência e estar rodeado por gente que viveu situações atrozes.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Uma lei para inglês vêr

Portugal foi um dos estados pioneiros na abolição da escravatura, o que é um grande motivo de orgulho para os portugueses. No entanto, é importante recordar que foram também os portugueses, os pioneiros na globalização do comércio de escravos.

Um dos principais motivos para a expansão marítima de Portugal, foi a busca de riqueza. Ora o comércio de mão-de-obra escrava constituía o negócio mais rentável da época, sendo mesmo mais lucrativo do que o ouro.

Depois de alcançarem o litoral atlântico da África, ainda na primeira metade do século XV, rapidamente os portugueses conseguiram ter acesso ao comércio de seres humanos que já era praticado pelos africanos.

A negociação entre portugueses e africanos era feita através da troca de produtos que interessavam aos africanos: tecidos, vinhos, cavalos e principalmente ferro que era derretido e transformado em armas. Os negreiros africanos intermediários conseguiam assim vantagem para dominarem tribos inimigas e podiam obter mais escravos para negociar.

Por esta altura não havia grande iniciativa para colonizar África. Como o negócio era muito rentável os comerciantes fundaram algumas feitorias e mantinham uma relação amigável com povos do litoral. As regiões que mais forneceram escravos para o tráfico no Atlântico foram: o Cabo da Guiné, chamada a “Costa dos Escravos”, e os Reinos do Congo e de Angola.

As guerras entre os africanos para conseguir mais escravos acabaram por causar a diminuição da população do litoral, e a busca por escravos passou a ser feita em regiões cada vez mais distantes no interior.

Nas zonas do interior, os escravos capturados eram obrigados a andar longas distancias, vigiados de perto por homens armados. Nessas caravanas eram sujeitos a grande sofrimento, obrigados a andar em fila, atados uns aos outros. Este procedimento servia para aumentar o cansaço e diminuir as hipóteses de rebelião e fuga. Muitos prisioneiros morriam nessa travessia.

Este processo de comercialização por vezes demorava meses desde o momento da captura dos escravos, passando pela negociação de feira em feira no interior até a chegada aos portos no Atlântico, onde ficavam os navios negreiros portugueses. A partir do século XVI começaram também a aparecer embarcações inglesas, holandesas e francesas.

Antes de embarcarem os escravos ficavam depositados em grandes armazéns sem as mínimas condições de higiene. Por vezes as negociações poderiam demorar cinco meses, muitos morriam de doenças como a varíola, a disenteria, ou a cólera.

Calcula-se que 20% dos escravos africanos embarcados nos navios negreiros pereciam durante a travessia do oceano Atlântico. Em geral essas embarcações transportavam entre 400 e 500 escravos, todos confinados num porão. Os negreiros compravam mais escravos do que sua embarcação comportava, pois sabiam que perderiam muitas das suas "mercadorias" durante a viagem. Os barcos seguiam superlotados. Uma viagem entre Angola e Brasil durava 35 dias. Entre Moçambique e Brasil demorava cerca de três meses.

O século XVI foi o de maior afluência de escravos a Portugal. Nos séculos seguintes diminuiu sempre, em oposição ao que se passava no Brasil, onde cresceu até ao século XVIII, incentivado pelos ciclos económicos sucessivos e que exigiam grandes quantidades de mão-de-obra já que a população indígena se revelou insuficiente e sem capacidade física.

O comércio de escravos que se estabeleceu no Atlântico entre 1450 e 1900 contabilizou cerca de 11.313.000 escravos.

Todo este lucrativo tráfico fez com que os negreiros descurassem o mercado europeu, que não pagava tão bem quanto o das colónias, nem necessitava de levas constantes de tantos efectivos transportados, para além de sucessivos decretos tentarem interromper a vinda para Portugal de mão-de-obra escrava.

De recordar, entretanto, que no século XVII, existiam ainda escravos mouros em Portugal, embora a sua importação estivesse interditada desde finais do século XVI.

Muito embora já houvesse uma primeira tentativa de limitar o comércio escravo, no reinado de D. José, no século XVIII, foi apenas no início do século XIX que Portugal a par da Grã-Bretanha, proibiu o seu comércio.

Em 1810, Portugal e Inglaterra assinaram o Tratado de Aliança, Comércio e Amizade no qual entre outras coisas, estava previsto a extinção gradual do tráfego de escravos.

Mas no Brasil tudo continuou na mesma. Em 1827 para ser reconhecido como país livre, o Brasil teve de ratificar o acordo de 1810, prometendo extinguir o tráfego de vez.

Por fim, a lei que ficou conhecida como “Lei para inglês ver” foi promulgada em 7 de Novembro de 1831, a qual proibia terminantemente o tráfego, sem mais demoras.

Embora promulgada, a lei foi solenemente ignorada por traficantes, fazendeiros e autoridades.

A 25 de Fevereiro de 1869 o rei D. Luís mandou publicar finalmente a abolição completa da escravidão no império português.

"Fica abolido o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa, desde o dia da publicação do presente decreto.
Todos os indivíduos dos dois sexos, sem excepção alguma, que no mencionado dia se acharem na condição de escravos, passarão à de libertos e gozarão de todos os direitos e ficarão sujeitos a todos o deveres concedidos e impostos aos libertos pelo decreto de 19 de Dezembro de 1854."

D. Luís, Diário do Governo, 27 de Fevereiro de 1869

Muitas fortunas foram constituídas durante este período baseadas num negócio absolutamente hediondo. A oposição dessas famílias poderosas foi retardando o fim do tráfico de escravos.

Hoje em dia esses nomes são ocultados dos tratados históricos e as suas heranças foram inocuamente transmitidas por gerações até aos dias de hoje...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ser ou não ser? Eis a questão.


Ser ou não ser William Shakespeare?


Esta é uma dúvida que tem assaltado as mentes de muitos intelectuais, estudiosos da obra fenomenal do poeta e dramaturgo inglês. Segundo eles a complexidade da obra não se compagina com formação académica do jovem William Shakespeare (1564-1616), que nunca teve uma educação clássica, que na altura só era acessível a famílias nobres.

As pesquisas de vestígios biográficos do autor, nunca foram fáceis. Apenas aos poucos e com dificuldade foram sendo descobertas ao longo do tempo, as provas documentais de que existiu um indivíduo de nome William Shakespeare, nascido e criado em Stratford-upon-Avon, pouco estudado embora filho de um político local (mas luveiro de profissão). A certa altura da vida tornou-se actor e, mais tarde autor teatral em Londres. Terminou seus dias em Stratford-upon-Avon, onde emprestava dinheiro a juros, tornando-se um homem muito rico.

O cineasta alemão Roland Emmerich, realizou “Anonymous” em 2011 a história que põe em causa toda a obra de Shakespeare Stanley Wells, presidente da associação “The Shakespeare Birthplace Trust”, afirmou que “não há qualquer prova, esta história é fabricada. É uma teoria da conspiração que já está em marcha há 150 anos. Começou pouco depois da morte de Shakespeare, mas durante a sua vida ninguém duvidou da autoria das obras. Se for à igreja vai ver um monumento em homenagem a William Shakespeare de Stratford-upon-Avon, com inscrições da época em latim e em inglês aclamando-o como um grande escritor.”

A primeira grande teoria acerca da hipótese de que Shakespeare não teria escrito a obra a ele atribuída aponta para o filósofo Francis Bacon (1561-1626). Autor brilhante, Bacon transitou por todos os géneros literários mais difundidos em seu tempo – menos a poesia e o teatro, o que bastou para indiciar que Shakespeare seria um seu pseudónimo.

O segundo “suspeito” de se ter ocultado por trás do nome de Shakespeare foi um personagem controverso e escandaloso na sua época Edward De Vere (1550-1604), o Conde de Oxford, que segundo consta, era o filho secreto da rainha Isabel I. É uma das trajectórias mais obscuras da época, daí o personagem ter suscitado mais essa suspeita: a de que teria escrito o que se atribui a Shakespeare.

Sigmund Freud foi um dos defensores desta teoria, afirmou: “Não creio que William Shakespeare, o actor de Stratford, tenha sido o autor das obras que há tanto tempo lhe têm sido atribuídas. Desde a publicação do volume de J.T.Looney, ‘Shakespeare’ Identified [1920], estou quase convencido de que de fato Edward de Vere, Conde de Oxford, está oculto por trás desse pseudónimo. (Freud, 1925) ”.

Há quem diga que o verdadeiro Shakespeare teria sido o político e diplomata Henry Neville. Foi encontrado um caderno escrito por Neville quando ele ficou encarcerado na Torre de Londres, por volta do ano 1602, contém anotações detalhadas, muito anteriores à data de publicação e que acabaram por constar da peça "Henrique VIII", encenada pela primeira vez alguns anos mais tarde.

A sua experiência na torre, onde Neville correu o risco de ser executado por participar numa conspiração para derrubar a rainha, também poderia explicar a mudança de tom das obras de Shakespeare, que, a partir de 1601, passam de histórias e comédias para as grandes tragédias ditas shakespearianas.

Henry Neville era um homem culto que viajou pela Europa e era amigo íntimo do conde de Southampton, a quem acredita-se que foram dedicados alguns dos sonetos de Shakespeare. É exactamente este o motivo que leva alguns especialistas a colocar de parte esta teoria, porque existem algumas incoerências geográficas ao longo da obra, incompatíveis com alguém muito viajado.

Há também quem considere que o verdadeiro autor seria Christopher Marlowe, falecido em 1604, antes da publicação de peças importantes como "Macbeth" e "Rei Lear". Segundo os seus defensores, Marlowe teria simulado sua morte e continuado a escrever anonimamente.

A nível artístico tudo o que restou da obra de Shakespeare foram 37 peças, 154 sonetos e alguns poemas longos. Ficaram apenas pouco mais de 20 documentos que o mencionam, como seu testamento, registos de imóveis e a sua carreira profissional. É muito difícil conseguir compor uma biografia correcta com tão pouca informação.

James Shapiro um dos maiores especialistas da obra de Shakespeare afirmou a propósito desta polémica:

“Há quem afirme que os académicos de Shakespeare têm tanto investido profissionalmente, que conspiram ou são pagos para manter o segredo de que, na verdade, outra pessoa seria o autor. Posso assegurar que se descobrisse qualquer evidência de que não foi Shakespeare quem escreveu "Hamlet" ou "Romeu e Julieta", o publicaria imediatamente e ficaria rico. Vivemos numa era em que as ideias conspiratórias são alimentadas pela internet, então a questão da autoria de Shakespeare lança luz não apenas nisso, mas também sobre o momento cultural, ofuscando o que realmente interessa: a obra.”

Pela minha parte, da pesquisa que fiz posso apenas concluir que a polémica vai continuar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015