Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os atletas fundamentalistas


Sinto-me envergonhado porque não escrevi nada acerca do Charlie Hebdo.

Durante este período tenebroso, toda a gente opinou acerca dos acontecimentos de Paris. Não houve ninguém, excepto eu, que não tivesse algo a dizer sobre este assunto. A revista Charlie Hebdo era, até então, desconhecida da generalidade das pessoas, e os que a conheciam não a liam, os que a liam não a compravam, daí os problemas financeiros que atravessavam. O tema foi abordado a jusante, a montante, lateral, frontal, ou longitudinalmente, e até pessoas que eu não sabia que tinham opinião tiveram a desfaçatez de rabiscar umas linhas, mesmo que, sem nexo.

E eu? Não disse nada. E não direi porque acho que tudo já foi dito, a propósito e a despropósito. Tudo o que eu possa dizer, nada vem acrescentar ao que já foi esclarecido.

É por esse motivo que me debruço sobre um tema muito mais pacífico e acessível à minha sempre débil análise: os atletas amadores fundamentalistas.

Estou a abordar um tema com conhecimento de causa, sou um deles, mas não sou fundamentalista. Pratico fitness periodicamente para tentar evitar o alargamento calórico inerente ao pouco cuidado regime alimentar que pratico. A coisa não tem sido fácil porque mantenho um desempenho de elevado rendimento em redor de qualquer mesa, mas tenho maiores dificuldades no que diz respeito à assiduidade ao ginásio. Este regime desequilibrado torna difícil a manutenção da forma. De qualquer modo é uma luta diária que travo comigo próprio e da qual não me orgulho por tão facilmente ceder a tentações.



Ora o que me traz ao tema são outros atletas que conheço, e todos nós temos um amigo ou uma amiga, que não sendo atletas de alta competição se comportam como se realmente o fossem. Eu chamo-lhes os fundamentalistas do atletismo.

Normalmente começam por indicação médica, quando num check up geral o médico de família lhes recomenda exercício físico para combater o colesterol elevado, ou o excesso de peso, ou por isto, ou por aquilo. A atividade começa por uma boa causa, mas depois torna-se o pesadelo dos amigos.

Pesadelo porque a partir desse instante, eles vivem em exclusivo para o footing, o cross, as caminhadas, as míni maratonas, as maratonas, as ultra maratonas, as giga maratonas, o running, etc. Tal e qual um toxicodependente, a atividade torna-se um modo de vida. Este facto por si só, não é necessariamente mau, não fosse a excessiva publicitação do mesmo.

Os fundamentalistas atléticos, tentam evangelizar todos os que os rodeiam, não se cansam de impingir os benefícios para a saúde de tal atividade, chegando mesmo ao ponto de pensarem que vivem muito melhor que os outros. Acham mesmo que ser feliz sem praticar atletismo é uma impossibilidade existencial. Têm grande dificuldade em aceitar projectos de vida que não envolvam a modalidade.

O emprego é apenas um meio para obter os proventos necessários para alimentar o vicio: comprar equipamentos, suplementos alimentares, pagar viagens para provas no estrangeiro, inscrições, fins de semana atléticos. O sentimento de superioridade é tal, que chegam mesmo a afastar-se dos amigos que não praticam o mesmo ritual. Em relação à família, ou alinham com eles, ou são abandonados. Arranjam novos grupos formando tribos de interesse comum, tal e qual como os motoqueiros, ou os fumadores de cachimbo.

Todos os restantes temas da vivência humana deixam de ter importância. Só faz sentido estar a par das últimas novidades tecnológicas em termos de ténis, meias elásticas, óleos de massagem, ou suéteres. As conversas nem sequer podem ser acerca de desportistas de alta competição, porque eles não conhecem, não sabem quem são, não veem e não ouvem porque estão a treinar, e se não estão a treinar, estão a correr, quando não estão a correr, estão numa grande superfície na secção de desporto à procura do último modelo de ténis, que um outro fundamentalista já usa.

Os fundamentalistas atléticos são uma praga que urge erradicar ou esta síndroma é capaz de se multiplicar rapidamente. É por isso que só pratico cycling e fitness q.b.
Enviar um comentário