Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ser ou não ser? Eis a questão.


Ser ou não ser William Shakespeare?


Esta é uma dúvida que tem assaltado as mentes de muitos intelectuais, estudiosos da obra fenomenal do poeta e dramaturgo inglês. Segundo eles a complexidade da obra não se compagina com formação académica do jovem William Shakespeare (1564-1616), que nunca teve uma educação clássica, que na altura só era acessível a famílias nobres.

As pesquisas de vestígios biográficos do autor, nunca foram fáceis. Apenas aos poucos e com dificuldade foram sendo descobertas ao longo do tempo, as provas documentais de que existiu um indivíduo de nome William Shakespeare, nascido e criado em Stratford-upon-Avon, pouco estudado embora filho de um político local (mas luveiro de profissão). A certa altura da vida tornou-se actor e, mais tarde autor teatral em Londres. Terminou seus dias em Stratford-upon-Avon, onde emprestava dinheiro a juros, tornando-se um homem muito rico.

O cineasta alemão Roland Emmerich, realizou “Anonymous” em 2011 a história que põe em causa toda a obra de Shakespeare Stanley Wells, presidente da associação “The Shakespeare Birthplace Trust”, afirmou que “não há qualquer prova, esta história é fabricada. É uma teoria da conspiração que já está em marcha há 150 anos. Começou pouco depois da morte de Shakespeare, mas durante a sua vida ninguém duvidou da autoria das obras. Se for à igreja vai ver um monumento em homenagem a William Shakespeare de Stratford-upon-Avon, com inscrições da época em latim e em inglês aclamando-o como um grande escritor.”

A primeira grande teoria acerca da hipótese de que Shakespeare não teria escrito a obra a ele atribuída aponta para o filósofo Francis Bacon (1561-1626). Autor brilhante, Bacon transitou por todos os géneros literários mais difundidos em seu tempo – menos a poesia e o teatro, o que bastou para indiciar que Shakespeare seria um seu pseudónimo.

O segundo “suspeito” de se ter ocultado por trás do nome de Shakespeare foi um personagem controverso e escandaloso na sua época Edward De Vere (1550-1604), o Conde de Oxford, que segundo consta, era o filho secreto da rainha Isabel I. É uma das trajectórias mais obscuras da época, daí o personagem ter suscitado mais essa suspeita: a de que teria escrito o que se atribui a Shakespeare.

Sigmund Freud foi um dos defensores desta teoria, afirmou: “Não creio que William Shakespeare, o actor de Stratford, tenha sido o autor das obras que há tanto tempo lhe têm sido atribuídas. Desde a publicação do volume de J.T.Looney, ‘Shakespeare’ Identified [1920], estou quase convencido de que de fato Edward de Vere, Conde de Oxford, está oculto por trás desse pseudónimo. (Freud, 1925) ”.

Há quem diga que o verdadeiro Shakespeare teria sido o político e diplomata Henry Neville. Foi encontrado um caderno escrito por Neville quando ele ficou encarcerado na Torre de Londres, por volta do ano 1602, contém anotações detalhadas, muito anteriores à data de publicação e que acabaram por constar da peça "Henrique VIII", encenada pela primeira vez alguns anos mais tarde.

A sua experiência na torre, onde Neville correu o risco de ser executado por participar numa conspiração para derrubar a rainha, também poderia explicar a mudança de tom das obras de Shakespeare, que, a partir de 1601, passam de histórias e comédias para as grandes tragédias ditas shakespearianas.

Henry Neville era um homem culto que viajou pela Europa e era amigo íntimo do conde de Southampton, a quem acredita-se que foram dedicados alguns dos sonetos de Shakespeare. É exactamente este o motivo que leva alguns especialistas a colocar de parte esta teoria, porque existem algumas incoerências geográficas ao longo da obra, incompatíveis com alguém muito viajado.

Há também quem considere que o verdadeiro autor seria Christopher Marlowe, falecido em 1604, antes da publicação de peças importantes como "Macbeth" e "Rei Lear". Segundo os seus defensores, Marlowe teria simulado sua morte e continuado a escrever anonimamente.

A nível artístico tudo o que restou da obra de Shakespeare foram 37 peças, 154 sonetos e alguns poemas longos. Ficaram apenas pouco mais de 20 documentos que o mencionam, como seu testamento, registos de imóveis e a sua carreira profissional. É muito difícil conseguir compor uma biografia correcta com tão pouca informação.

James Shapiro um dos maiores especialistas da obra de Shakespeare afirmou a propósito desta polémica:

“Há quem afirme que os académicos de Shakespeare têm tanto investido profissionalmente, que conspiram ou são pagos para manter o segredo de que, na verdade, outra pessoa seria o autor. Posso assegurar que se descobrisse qualquer evidência de que não foi Shakespeare quem escreveu "Hamlet" ou "Romeu e Julieta", o publicaria imediatamente e ficaria rico. Vivemos numa era em que as ideias conspiratórias são alimentadas pela internet, então a questão da autoria de Shakespeare lança luz não apenas nisso, mas também sobre o momento cultural, ofuscando o que realmente interessa: a obra.”

Pela minha parte, da pesquisa que fiz posso apenas concluir que a polémica vai continuar.
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