Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

David Purley, o espectador acidental...




Quando se realizou o grande Prémio de Formula 1 da Holanda em 1973, no circuito de Zandvoort, tinha eu 7 anos. Vivia em Angola e não tinha televisão, por isso não pude assistir em direto à morte do piloto britânico Roger Williamson. Só anos mais tarde ouvi falar na tragédia que ocorreu nesse dia 29 de Julho. Quando vi as imagens das gravações da época fiquei estarrecido.

Zandvoort foi a segunda corrida de Williamson na Formula 1. Pilotava um March que tinha partido a meio do pelotão, numa grelha onde o melhor tinha sido o Lotus de Ronnie Peterson. Na volta seis, quando era 13º, um furo provocou uma batida nos “rails” na curva Scheivlak, o carro capotou, incendiou-se e Williamson ficou virado de cabeça para baixo, não podia sair.

David Purley, um piloto privado e seu amigo, seguia na 14ª posição. Parou o seu March e correu em direcção a Williamson, tentou virar o carro, pois sabia que ele estava vivo. Entretanto, o incêndio espalhava-se e os comissários do circuito assistiam passivos, julgavam que o carro que Purley estava a virar… era o dele próprio!

Sabendo o que se passava, Williamson gritou para Purley: “Por Amor de Deus, David tira-me daqui!”.

Purley tentava o impossível, pedia aos comissários para o ajudar, pedia para que os outros carros parassem. Mas estes não o fizeram, a organização não tinha interrompido a corrida limitando-se a assinalar o local com uma bandeira amarela.

Impotente perante o que estava a acontecer, Purley saiu do local a chorar compulsivamente, enquanto a corrida continuava. Só quando os comissários finalmente apagaram o fogo é que viram a realidade. Roger Williamson estava carbonizado. O promissor piloto inglês de 25 anos, que tinha ganho tudo na Formula 3 britânica, estava morto na sua segunda corrida da carreira. Por todo o mundo se assistiu à tragédia que havia sido transmitida em direto.

Mais tarde o diretor da prova tentou justificar o ocorrido com um mal entendido, disse que ninguém percebeu que estava um piloto dentro do carro, toda a gente pensou que o carro era o de Purley. O assunto nunca foi entregue à justiça.

David Purley foi condecorado com a medalha George Cross, a mais alta distinção inglesa por coragem em situações de salvamento, recebeu ainda mais 12 outros prémios.

Foi graças ao negócio de família, a fábrica de frigoríficos LEC, que David Purley cresceu num berço de ouro. Mas o berço de ouro não o inibiu do gosto pela aventura. Descobriu desde cedo o prazer de voar e incentivado pelo pai, tirou o brevet aos 16 anos. Nessa altura, era o mais jovem a fazê-lo no Reino Unido.

Contudo, pouco depois decidiu alistar-se no exercito britânico, no Regimento de Pára-Quedistas. Em 1967 durante um salto de treino o seu páraquedas falhou parcialmente a abertura, mas David sobreviveu ao salto.

Após ter cumprido o serviço militar em 1968, Purley foi atraído para o mundo dos automóveis pelo seu amigo Derek Bell que começava a ter uma carreira bem sucedida nas corridas. Vendo o automobilismo como um bom motivo para manter os seus níveis de adrenalina, comprou um AC Cobra e começou a vencer algumas corridas. Em 1970 decidiu mudar-se para os monolugares.

Nesse ano, comprou um velho chassis Brabham de Formula 3 e decidiu formar uma equipa, a LEC Refrigeration Racing, batizando-o com o nome da empresa da família. Foi nessa altura que conheceu Roger Williamson.

Williamson era um dos melhores do seu tempo, dominava a Formula 3, acabando por vencer três títulos entre 1971 e 1972.

Em 1972, Purley mudou-se para a Formula 2, onde arranjou um chassis March. Não conseguiu mais do que um terceiro lugar nas ruas da cidade francesa de Pau, arrebatando apenas os quatro pontos dessa corrida.

Em 1973 começou a temporada na Formula Atlantic, arranjou um March 731 de Formula 1. Tal como nas outras vezes, inscreveu-o com a equipa LEC Refrigeration e participou em algumas corridas.

Estreia-se na Fomula 1 no GP do Mónaco. A sua segunda prova será apenas em Julho, em Silverstone, mas sofre um despiste logo na primeira volta.

Vai ser na terceira corrida em que participa, o GP da Holanda, que o seu nome ficará conhecido no mundo inteiro. Partindo da 21ª posição, Purley ganhou algumas posições até à oitava volta, quando viu acidentar-se o outro March de Roger Williamson, o que se passou depois já vos contei.

Purley voltou a correr no GP de Itália, terminando a corrida no nono posto, que viria a ser a sua melhor prestação na categoria máxima do automobilismo.

A partir do ano seguinte, concentrou-se na Formula 5000, competindo a bordo de um Lola. Essa passagem foi um sucesso, sendo campeão em 1976. Após esta conquista decidiu que era altura de voltar à Formula 1.

Em 1977 cria o seu próprio monolugar com a ajuda de alguns técnicos de renome na Fórmula 1, o LEC CRP1 estreou-se em Jarama no GP de Espanha, mas acabou por não se qualificar. A corrida seguinte seria em Zolder, na Bélgica. E aí, Purley deu nas vistas.

Durante a corrida, apareceu-lhe o Ferrari de Niki Lauda que o pressionou durante muitas voltas, mas Purley não cedeu. Terminou na 13ª posição. No final perguntou de modo sarcástico ao seu mecânico:

“Quem era aquele idiota do carro vermelho?”

Lauda ouviu a pergunta e tiveram uma troca de palavras em que o austriaco chamou a Purley “coelho” e este respondeu-lhe, chamando-o “rato”.

Purley não deixou o episódio passar em claro. Na corrida seguinte, o GP da Suécia, colocou o desenho de um coelho no chassis do seu carro. Lauda achou piada e apareceu com a palavra “Rato” escrita no seu capacete, e assim com alguns risos foi sanado o incidente entre os dois.

No GP da Grã-Bretanha, dado o grande número de carros inscritos, os organizadores tiveram de realizar uma pré-qualificação. David Purley tentou o seu melhor, mas na segunda sessão de treinos, o acelerador do seu LEC ficou preso e o carro embateu fortemente nas barreiras de proteção, David sofreu graves lesões nas pernas, na pélvis e no tórax. Mas sobreviveu.

Esteve quase um ano a recuperar dos ferimentos. Após ter feito uma corrida com um Porsche 924 em Brighton, voltou ao cockpit do seu LEC em 1979, para disputar a Aurora Series, o campeonato britânico de Formula 1. Para além do LEC, também tripulou um Shadow, com alguns resultados de relevo, mas no final desse ano, decidiu abandonar a carreira de piloto.

A partir de então resolveu dar uso ao seu brevet de aviador, Purley começou a dedicar-se à acrobacia aérea. Contudo, a 2 de Julho de 1985, quando fazia acrobacias ao largo da sua cidade natal, Bognor Regis, no Pais de Gales, calculou mal uma manobra e caiu nas águas do Canal da Mancha. Tinha 40 anos de idade.

O seu corpo nunca foi encontrado.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Peter Francisco o português herói americano.


"Um Hércules de 6 pés e meio de altura que empunhava um sabre de seis pés de comprimento, Peter Francisco foi provavelmente o soldado mais extraordinário da Guerra da Revolução Americana".
Joseph Gustaitis, na American History Magazine


Na sua vida a lenda e a realidade misturam-se de tal forma que se torna muito difícil distinguir uma da outra. Em Portugal a sua história é praticamente desconhecida.

Sabe-se que Pedro Francisco terá nascido em Porto Judeu, nos Açores em 1760. Muito cedo terá emigrado com a família para os Estados Unidos. Conta-se que aos cinco anos foi adoptado por um juiz de City Point na Virgínia.

Aos dezasseis anos, media 1,98 m e pesava 120 kgs, tornou-se ferreiro. A sua força física e estatura possibilitaram-lhe que se alistasse no 10º Regimento da Virgínia.

Em Setembro de 1777, serviu sob o comando do general George Washington em Brandywine Creek na Pensilvânia, onde as forças dos colonos tentaram deter o avanço de 12.500 soldados britânicos que avançavam em direcção a Filadélfia.

Foi o general George Washington quem determinou que uma espada especial adequada ao seu tamanho, fosse confeccionada para Francisco.

Washington terá dito posteriormente acerca de Peter Francisco: "Sem ele teríamos perdido duas batalhas cruciais, provavelmente a guerra e, com ela, a nossa liberdade. Ele era verdadeiramente um Exército de um Homem Só."

Na batalha de Camden em 1780 terá realizado um dos seus maiores feitos, quando, após os colonos se terem retirado diante dos britânicos, deixaram no terreno uma enorme peça de artilharia com cerca de 450 kgs. Afirma-se que Francisco a colocou às costas e a terá transportado para que não caísse nas mãos do inimigo. Em homenagem a esse feito, os correios dos Estados Unidos emitiram em 1974 um selo comemorativo.

Os seus feitos foram sendo relatados entre os soldados que lutavam pela independência face aos britânicos. Muitas vezes eram utilizadas para levantar o moral dos mal equipados soldados rebeldes.

Em 1850, o historiador Benson Lossing registou no "Pictorial Field Book of the Revolution" que "um bravo virginiano deitou abaixo 11 homens de uma só vez com a sua espada. Um dos soldados prendeu a perna de Francisco ao seu cavalo com uma baioneta. E enquanto o atacante, assistido pelo gigante, puxava pela baioneta, com uma força terrível, Francisco puxou da sua espada e fez uma racha até aos ombros na cabeça do pobre coitado!"

Mais tarde, enquanto recuperava dos ferimentos, Peter Francisco foi apresentado ao francês Marquês de Lafayette. Um francês que tinha vindo com um contingente militar para auxiliar os rebeldes na luta contra os britânicos.

Francisco sofreu mais seis ferimentos ao serviço do seu país, tendo morto um número incerto de britânicos e sido condecorado ao final do conflito por generais americanos que se certificaram de que ele estava presente na rendição do general Charles Cornwallis e dos britânicos em Yorktown, a 19 de Outubro de 1781.

Tornou-se um homem abastado, sendo nomeado para a Câmara de Representantes da Virgínia. Foi sepultado em 1831 com honras militares no Cemitério Shockoe Hill em Richmond, na Virgínia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

MIA - Sindrome da Mediocridade Inoperante Activa.


“Quando surge um verdadeiro génio no mundo, podemos reconhecê-lo pelo seguinte sinal: todos os medíocres conspiram contra ele.”
Jonathan Swift (1667 – 1745) autor de As Viagens de Gulliver

É verdade que os génios não abundam, normalmente estas características são detidas por pessoas criativas, artistas, cientistas, investigadores, pensadores, gestores, desportistas ou outros. Seria impensável um mundo constituído apenas por génios. Mas são esses que fazem a diferença, é com eles que o mundo progride.

Essas qualidades podem ser inatas ou adquiridas. A maioria de nós, na sua mediania ambiciona atingir níveis de excelência nos vários quadrantes da vida. É a nossa condição natural de tentar alcançar a felicidade e a perfeição.

O valor inverso é a mediocridade. É de notar que não é um factor tão negativo como pode parecer à primeira vista. De facto se todos fôssemos criadores geniais, o mundo seria um caos. Quem se encarregaria das dimensões naturais e normais da nossa vida? Ninguém iria querer trabalhar nas fábricas, recolher o lixo, lavar pratos nos restaurantes, assegurar funções básicas, etc. Deste equilíbrio de valências resulta o quotidiano.

Luís de Rivera, catedrático espanhol de psiquiatria, define assim a mediocridade:

“ A mediocridade é incapacidade para valorizar, apreciar ou admirar a excelência e define-se em 3 graus

1. A mediocridade comum é a forma mais simples e inócua. Os seus sintomas são a hiper-adaptação, a falta de originalidade e uma normalidade tão absoluta que poderia ser considerada patológica: a chamada “normopatia”. Os que a manifestam não têm ponta de criatividade e não sabem distinguir a excelência, mas respeitam as indicações que lhes dão e são consumidores bons e obedientes. O conformismo permite que se sintam razoavelmente felizes.

2. A mediocridade pseudocriativa, acrescenta à anterior uma tendência pretensiosa para imitar os processos criativos normais. Enquanto o medíocre comum não se esforça para além do mínimo exigível, o pseudocriativo sente necessidade de aparentar e ostentar poder. A imagem é tudo para ele, mas, como não distingue o belo do feio, o bom do mau, não mostra inclinação para favorecer progressos de qualquer tipo e incentiva as manobras repetitivas e imitativas.

3. A mediocridade inoperante activa (MIA). Trata-se do mais prejudicial e agressivo, pelo que encaixa no perfil da maioria dos praticantes de assédio.
É esta variante de mediocridade maligna que tem como único objectivo prejudicar o talento alheio e quem se destaca pelos seus méritos. Enquanto as categorias anteriores são simplesmente incapazes de reconhecer o génio, os MIA também se propõem destruí-lo por todos os meios ao seu alcance. O indivíduo afectado por esta síndrome desenvolve uma grande actividade que não é criativa nem produtiva, e possui um enorme desejo de notoriedade e influência. Por isso, tende a infiltrar-se em organizações complexas, nomeadamente as que já se encontram minadas por formas menores de mediocridade, com o objectivo de entorpecer ou aniquilar o progresso dos indivíduos brilhantes.

A mediocridade e o seu oposto, a excelência, surgem ligadas a uma série de características contraditórias: a primeira costuma ter por aliados a inveja, a imitação, o conformismo, a adaptação, a tradição, a inércia e a rotina; a segunda é amiga da admiração, da criatividade, do inconformismo, da rebeldia, da inovação, da curiosidade e da iniciativa."

Deixo-vos a tarefa de enquadramento de cada uma delas no vosso próprio quotidiano e vão decerto chegar à mesma conclusão a que eu próprio cheguei: São muito mais os medíocres do que os outros...