Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

segunda-feira, 28 de março de 2016

“Pimenta no cú dos outros para mim é refresco”...


Hoje presto a minha homenagem aos meus colegas de trabalho que foram convidados a rescindir contrato com uma empresa que ajudaram a fazer crescer.


Muitas vezes prejudicaram as suas próprias vidas familiares porque era preciso apresentar-se no local de trabalho fora de horas e mesmo durante os fins de semana.

Alguns deles trabalharam na empresa mais de 30 anos. É desnecessário explanar os episódios caricatos, dramáticos ou simplesmente quotidianos em que sempre colocaram o profissionalismo acima de qualquer vantagem pessoal.

Será impossível contabilizar o rendimento que ajudaram a aportar à empresa, os clientes que captaram, que ajudaram a criar e a fazer crescer, os postos de trabalho que ajudaram a gerar, a riqueza que trouxeram aos acionistas, os impostos que ajudaram a coletar e tudo isto para o bem comum.

Ao longo de todos estes anos fizeram quase de tudo na empresa. Contribuíram para desenvolvimento de projetos de inovação, quer a nível de ações piloto, quer com muitas ideias que foram postas em pratica.

Durante estes anos tiveram convites de muitas outras empresas do ramo, mas não aceitaram por estarem convictos de seguirem na direção certa.

De forma geral as avaliações profissionais foram sempre acima da média. Foram promovidos por mérito várias vezes ao longo da carreira. Folhas disciplinares limpas. Níveis de absentismo irrelevantes.

Muitos fizeram a sua formação académica já em pleno desempenho de funções, em cursos pós laborais, com o sacrifício do tempo que deveria ser dedicado à família. Na sua maioria nem se aperceberam do crescimento dos filhos.

Muito embora não me recorde de em algum momento terem contribuído para a situação em que se encontra a empresa, não ponho em causa a necessidade do seu redimensionamento mesmo sob o custo da redução de empregados. Na verdade o mercado já não permite estruturas tão pesadas.

O que questiono é a forma absolutamente surreal como a mesma está a ser levada a cabo.

Existem casos de pessoas convidadas a sair que não são surpresa para ninguém. Nas grandes organizações, existem sempre elementos deslocados, desmotivados e não produtivos por um motivo ou por outro. Não são esses casos que me incomodam...

Verifico que a extinção de uma função acarreta a extinção do colaborador independentemente do seu valor. Então estamos perante uma situação perversa em que se "deita pela janela o bebé junto com a água do banho".

Elementos de muito valor para a empresa são dispensados só porque estavam no local errado à hora errada, outros que nada produzem, que apenas têm direitos e não sentem que tenham deveres, permanecem.

É evidente que as equipas são formadas por critérios que só aos decisores dizem respeito, não discuto. Sei no entanto, que o mérito não é um desses critérios.

Os colegas de que falo, agora dispensados, não são nenhuns malandros, não fizeram mal a ninguém, não prejudicaram ninguém. Antes pelo contrário, ajudaram muita, mesmo muita gente a subir na carreira.

Foram correspondendo aos desafios que lhes foram propostos ao longo das carreiras e fizeram crescer a empresa. E agora, por erros que não lhes podem ser imputados, são eles os bodes expiatórios dos pecados dos gurus da gestão que os arrastaram até este ponto.

Eu fiquei de fora por mera sorte, não estava no lugar errado à hora errada. Não os abandonei. Tentei apoiá-los o mais que pude mas senti-me frustrado porque pouco podia fazer para além apoio moral.

Ao longo do processo fui assistindo a aconselhamentos sintéticos e superficiais por parte de pessoas que não estavam envolvidas. É fácil opinar quando não se tem de arcar depois com o peso da decisão. Por outro lado assisti ao alheamento dos outros que não tinham sido selecionados para o despedimento, com certeza aliviados por não terem sido contemplados.

Conforme diz o adágio brasileiro: “Pimenta no cú dos outros para mim é refresco”...

Neste processo kafkiano, fica aqui o meu lamento por aqueles que ficaram sem saber do que foram culpados.

São credores de todo o meu respeito e conhecendo-os sei que vão vingar nos desafios que a partir de agora entendam abraçar...

Obrigado por tudo o que comigo partilharam.


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