Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O que poderia ter sido...


Um rapaz simpático com propensão para não ser levado a sério. Um pouco infantil mas sem padecer do complexo de Peter Pan, austero no aspeto, vago nas conversas porque muito do que era dito tinha origem desbocada e carecia de confirmação. Mas sempre, sempre a conversa fácil mesmo que a despropósito. Um autêntico palhaço de si próprio.

Em tempos fora meu colega de trabalho. O pai havia-se zangado com ele. Sendo meu amigo senti-me na obrigação de ajudar. Eu na altura vivia sozinho, ele sempre podia ajudar a pagar a prestação. Durante 6 meses partilhamos a casa, depois ele casou e saiu.

Entretanto mudei de local de trabalho e perdemos o contacto, mas havia um telefonema de quando em vez ao longo dos anos, sempre por iniciativa dele.

Todos os Natais me ligava a desejar “Boas Festas para ti e para os teus”. Por vezes um telefonema sobre algum tema que envolvia alguém nosso conhecido, outras vezes eu não conhecia e ele estranhava, porque na verdade ele tinha muita facilidade em falar com toda a gente.

Entrementes passaram vinte e cinco anos de um ligação superficial e longínqua, entrecortada com sentimentos de culpa da minha parte por ser sempre ele a ligar. Por vezes eu não atendia, estava muito ocupado, mas sempre devolvi as chamadas. De novo as conversas ocas sem bem nem mal, simplesmente assim conversas de circunstancia.

Com todas as cambiantes da vida, torno a cruzar-me profissionalmente com ele no inicio deste ano. Foi ele que me recebeu e encaminhou na apresentação aos novos espaços, às novas pessoas. Tudo isto da forma mais natural do mundo como sempre foi, sem pedir nada em troca.

Surge então a reestruturação da nossa empresa, ele é um dos selecionados para sair. É convocado para a assinatura da carta de rescisão, pede-me para estar presente e para o orientar em relação ao processo de desvinculação. Nessa altura surpreendeu-me quando me confessou que estava num processo de divorcio após 25 anos de casamento.

O peso das circunstancias fazia-se sentir. Passou cerca de um mês em que de vez em quando lhe liguei. Pareceu-me deprimido, mais pela separação do que pelo despedimento. Tentei animá-lo, puxei-o para cima, que tudo haveria de correr bem, disse-lhe que agora teria de olhar em frente e seguir.

No ultimo telefonema que tivemos foi ontem. Disse-lhe que havíamos de almoçar um destes dias, ele respondeu-me que sim...

Mas já não vamos, o Alberto Lisboa suicidou-se hoje de madrugada atirando-se da varanda de um sétimo andar.

Nunca irei saber se tudo poderia ter sido diferente se tivéssemos ido almoçar no próprio dia...

Adeus amigo, desculpa não ter estado mais atento...




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