Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dylan e o Nobel


Se toda a gente tem uma opinião sobre o assunto eu também posso ter, não?

É um tema onde estou suficientemente à vontade, sou um consumidor crónico de musica de todos os géneros. Sinto-me particularmente próximo do pop-rock anglo americano.

Desde muito novo me encantei pelos blues e o rock amplificado eletricamente com o acompanhamento sincopado de baixo e bateria. Sou por isso um guitarrista frustrado, porque nunca consegui tocar mais do que o riff de “Smoke on the water” dos Deep Purple.

Voltando ao assunto. As baladas de Dylan não se enquadram neste perfil. A sua musica era muito acústica e pouco elaborada. A sua excessiva simplicidade musical nunca me impressionou por aí além. Sempre fui mais adepto dos ritmos mais agressivos dos eternos Rolling Stones e Led Zepplin ou até dos melódicos Beatles e dos progressivos Pink Floyd.

Foram as suas letras que tiveram grande impacto na geração anterior à minha, a que conviveu com a guerra do Vietnam e o flower-power. Nos anos oitenta apenas uma franja pseudointelectual de adolescentes imberbes sabiam que existia um autor de nome Bob Dylan. Por mim, tomei efectivo contacto com a musica de Dylan através de um tema que havia sido interpretado por Jimmy Hendrix pouco tempo antes de morrer “All along the watch tower”. É a partir daí que começo a prestar atenção ao que Dylan havia feito.
Claro que a musica per si não teve grande impacto em mim, foi a sua estética poética que se revelou fantástica, muito acima da sua criatividade musical.

Hoje em dia é absolutamente indiscutível a sua transcendente influencia na musica contemporânea. Todavia, não me parece ajustada a atribuição do prémio Nobel da literatura. Tal como ele existem outros autores merecedores da nossa homenagem, mas também nesses casos os prémios a atribuir deviam sê-lo no meio musical e não no mundo literário.

A lírica de Robert Zymerman revela uma linha de pensamento que identifica uma geração, uma época, mas não representa a pluralidade contemporânea plena.

Sem tirar mérito ao autor, considero que a condecoração é desajustada porque provém de um meio que não lhe é próprio. Por este principio qualquer dia teremos um escritor ou um cientista a ganhar um Grammy ou um Óscar. Talvez por isso a dificuldade que tiveram em contactá-lo e a sua  recusa em estar presente na cerimónia de entrega.

Lembro-me a propósito disto do prémio para o melhor jogador de futebol do mundo, o “Ballon d`Or”. Na génese do troféu criado pelo jornal France Football, estavam um grupo alargado de jornalistas desportivos que escolhiam todos os anos desde 1956 aquele que para eles era o futebolista mais completo de cada época.

Hoje em dia essa escolha resvalou para uma análise acerca de troféus conquistados e golos marcados, sobrepondo-se a outros prémios com esses critérios. Franz Beckenbauer ou Lev Yashin, vencedores do galardão nas décadas de 60 e 70 do século passado, muito dificilmente ganhariam este troféu actualmente, porque não marcavam muitos golos. Aqui está um exemplo de subversão do espirito do prémio. Por isso o France Football este ano resolveu voltar o sistema de escolha para os critérios originais.

As atribuições de prémios muitas vezes são desvirtuadas. Com o passar dos tempos os institutos vão esquecendo os paradigmas que levaram os fundadores a criar determinado reconhecimento de mérito. Os parâmetros iniciais vão sendo deludidos.
Penso que Alfred Nobel iria concordar que Bob Dylan merece a nossa homenagem, mas não esta.
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