Se entendermos por corpúsculo uma partícula ínfima dos corpos,
como um átomo ou molécula, por analogia os caracteres menores podem ser
corpusculares por serem mesquinhos, pequeninos, insignificantes.
Se a esta matéria corresponder a decadência germinal de ter
nascido menor, ter vivido em sombras e ter ocupado o lado obscuro de tudo,
podemos afirmar tratar-se de um organismo crepuscular.
O crepúsculo matutino acontece de manhã cedo quando o Sol surge
a Leste por baixo da linha ténue do horizonte, os raios propagam-se directos
por cima mas sem tocar na sombra insignificante de quem nada representa na vivência
dos outros. O corpúsculo rebola insano, gemendo na sombra do dia, pesaroso e diáfano,
quase inexistente. Saliva escorrendo dos dentes, verdete bolorento dos fungos
por tratar, com um hálito azedo, fétido, mas oculto.
Durante o dia percorre os corredores encostado às beiras,
fugidio, analítico, mas solicito, sempre pronto a sorrir, já refeito do acordar
doloroso da luz da manhã. O corpúsculo destila os parasitas pelos seus poros anatómicos de
ser inferior e rasteiro.
Raras vezes detectado porque as suaves e minuciosas partículas
francesas de fragâncias odoríficas, não deixam perpassar qualquer sinal
olfativo da sua natureza putrefacta. Dissimulando a sua natureza pequena, o corpúsculo
reage rapidamente quando a oportunidade surge, tal e qual um protozoário disseminando
uma epidemia.
Mas a sua vida é curta, quase sempre resvala para uma vala
escura repleta de anticorpos que surgem ao final do dia, quando, sozinho,
abandonado a si mesmo, assiste em pânico ao pôr do Sol que lhe passa por cima,
a Oeste, sob o mar esverdeado, indiferente, crepuscular.
Assim padece o corpúsculo repelente no crepúsculo vespertino
do final de um dia sereno para todos e insone para ele…Até nascer um novo dia repetindo a senda na estreiteza da sua existência.

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