Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 30 de outubro de 2016

O corpúsculo cai ao crepúsculo.


Se entendermos por corpúsculo uma partícula ínfima dos corpos, como um átomo ou molécula, por analogia os caracteres menores podem ser corpusculares por serem mesquinhos, pequeninos, insignificantes.

Se a esta matéria corresponder a decadência germinal de ter nascido menor, ter vivido em sombras e ter ocupado o lado obscuro de tudo, podemos afirmar tratar-se de um organismo crepuscular.

O crepúsculo matutino acontece de manhã cedo quando o Sol surge a Leste por baixo da linha ténue do horizonte, os raios propagam-se directos por cima mas sem tocar na sombra insignificante de quem nada representa na vivência dos outros. O corpúsculo rebola insano, gemendo na sombra do dia, pesaroso e diáfano, quase inexistente. Saliva escorrendo dos dentes, verdete bolorento dos fungos por tratar, com um hálito azedo, fétido, mas oculto.

Durante o dia percorre os corredores encostado às beiras, fugidio, analítico, mas solicito, sempre pronto a sorrir, já refeito do acordar doloroso da luz da manhã. O corpúsculo destila  os parasitas pelos seus poros anatómicos de ser inferior e rasteiro.

Raras vezes detectado porque as suaves e minuciosas partículas francesas de fragâncias odoríficas, não deixam perpassar qualquer sinal olfativo da sua natureza putrefacta. Dissimulando a sua natureza pequena, o corpúsculo reage rapidamente quando a oportunidade surge, tal e qual um protozoário disseminando uma epidemia.

Mas a sua vida é curta, quase sempre resvala para uma vala escura repleta de anticorpos que surgem ao final do dia, quando, sozinho, abandonado a si mesmo, assiste em pânico ao pôr do Sol que lhe passa por cima, a Oeste, sob o mar esverdeado, indiferente, crepuscular.

Assim padece o corpúsculo repelente no crepúsculo vespertino do final de um dia sereno para todos e insone para ele…Até nascer um novo dia repetindo a senda na estreiteza da sua existência.


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