Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 25 de dezembro de 2016

Triologia O Bom, o Mau e o Vilão: O Vilão...

Em frente ao espelho barbeia-se com lamina, o escanhoado sai com outra apresentação, a sensação de frescura é renovada a cada passagem da lamina. O after shave comprado nas mais caras lojas da especialidade realça o frescor da fragância que fica no ar. Olha-se ao espelho, sente-se impecável. Não usa a habitual gravata, hoje decide-se pelo lenço de seda vermelha requintadamente colocado em torno do pescoço com as pontas guardadas no interior da camisa branca, lisa, os botões de punho dourados e o fato azul escuro dão-lhe um ar respeitável, cuidado e inspirador. Os sapatos cuidadosamente engraxados, brilhando com as passadas decididas e enérgicas. No caminho para o trabalho olha-se nas montras por onde passa, ajeita o colarinho ligeiramente fora do alinhamento, dá uma passagem ao cabelo que com o gel rebrilha à luz. O seu narcisismo impele-o a sentir-se bem consigo. Nada poderá falhar, mesmo que não domine a matéria, nada poderá impedi-lo de conseguir o que quer, aquele lugar foi criado à sua medida.

Quando chega todos os presentes se concentram na sua presença, saem os cumprimentos de circunstância e como tem passado, já não o via há muito, como foram estes meses tão longe. Rodeado de atenção, fala de si apaixonadamente como ninguém. Cheio de si próprio encantado por se ouvir. De inicio os convivas ouvem com atenção, depois um pouco timidamente olham em redor buscando cumplicidade em outro qualquer. Trocam olhares de enfado. O orador continua, cada vez mais entusiasmado consigo, aumenta o tom de voz, o grupo já não reage. Por outro lado ninguém interrompe, não têm coragem de assumir essa responsabilidade porque o palestrante pode aproveitar a oportunidade para renovar o assunto sobre si próprio e redobrar o discurso ainda mais autoconfiante do que antes. Nunca se lembra de ouvir quem quer que seja, a interrupção pode levar a uma quebra de corrente que ele, ingenuamente, acredita ter formado com os ouvintes. Mas ninguém o ouve. Em todos cresce uma vontade enorme de defenestrá-lo janela fora. O seu narcisismo patológico impede-o de ver a rejeição nos olhares que o rodeiam.

Já ninguém aguenta, mas como silenciá-lo sem parecer indelicado?

- Vem aí o chefe !!

O discurso é interrompido abruptamente, tosse nervosamente. Coloca-se em sentido, um pouco curvado para a frente. Enquanto todos cumprimentam o chefe com um simples aperto de mão, ele inclina-se e aplica um duplo aperto de mão ao superior, envolve-o em salamaleques e elogia-o pelos resultados atingidos. Os outros quase juram que o viram babar-se.

Caminham em silencio para a sala de reuniões. Apenas o chefe inchado de importância rejubila no fato talhado anos antes quando nele cabia.

- Venho comunicar-vos que a partir de hoje passo à situação de reforma, pelo que deixo de ser o vosso director comercial. A administração deu indicação que a escolha do meu sucessor será feita de acordo com o ranking de resultados apresentados, sem qualquer hipótese de intervenção da minha parte. Nada mais posso fazer a não ser agradecer-vos pelo profissionalismo e empenho que me dedicaram durante estes anos em que trabalhamos juntos.

O silencio ressoou na sala...Por fim, alguém começou a bater palmas e os outros seguiram-no sem grande entusiamo. O bajulador quedava-se pálido e num automatismo de Pavlov acompanhava-os com as palmas das mãos húmidas.

E agora como seria sem o seu mentor, tanto investira naquela aposta de carreira, tantos meses de companheirismo forjado para acompanhar os interesses do seu chefe. Eram jantares a altas horas, alguns caríssimos, pegar no taco de golfe e levantar-se quase de madrugada para ir ao clube onde o chefe sempre confraternizava com os amigos. Sacrificar a própria família para à noite acompanhar o chefe ao clube de bridge só para estar presente porque nem sabia jogar.  Ter de aturar a sua necessidade de protagonismo, anular-se para satisfazer a sua ansia ser o centro das atenções. Fazer considerações elogiosas mesmo em situações que achava despropositadas, ser condescendente nas fraquezas, menorizando as falhas do chefe. Tanta adulação para nada?

Sem resultados não ia ter hipótese de ficar com o lugar por que tanto lutara. Mas tinha sido um ano muito difícil e além disso o acompanhamento continuo que fizera ao chefe ocupara-o de sobremaneira e tirou-lhe tempo para a sua própria actividade.  Tinha sido uma opção que lhe parecera certa na altura, agora sabia-o fora um risco mal calculado.

De certo ele já sabia que se ia embora e não foi capaz de lho dizer, sentia-se usado e vilipendiado. Não há duvida, há pessoas sem o mínimo de caracter. Logo com ele que não merecia, que sempre fora atencioso, sempre tivera o cuidado de transmitir ao chefe tudo aquilo que sabia passar-se na empresa, quando algum colega tinha um desabafo consigo o primeiro a saber era o chefe, para este estar ao par de toda a informação e melhor decidir. Havia apostado no cavalo errado. Correra o risco de ser proscrito pelos colegas e agora era esta a recompensa?

Tem de voltar à linha da frente. Não é agora ao fim deste tempo todo que se vai matar a trabalhar, não cumprir os objectivos e arriscar-se a ser despedido.

O que interessam os méritos? Mérito tem ele em saber relacionar-se com as pessoas que interessam. Mesquinhos são aqueles que não têm a esperteza de se colocarem em situação de vantagem perante tudo o que os rodeia. Devem estar atentos a tudo o que pode influenciar as suas carreiras, o desempenho nem sequer é o principal porque a inteligência emocional e o sentido de oportunidade sobrepõem-se ás competências efectivas.
Levanta-se por entre os colegas e dirige-se ao WC. Penteia-se, ajeita o lenço no pescoço, mais uma vez renova a sua autoestima olhando-se ao espelho, inspira, autoconfiança ao máximo e sobe ao andar da administração.

Se o novo director for aquele que está a pensar sabe coisas dele que mais ninguém sabe. Tem de o descobrir rapidamente. Para um graxista o mais importante é estar com a pessoa certa, no local certo à hora certa. Vai fazer aquilo que faz de melhor e o ciclo recomeça...


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