Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A morte de D. Inês de Castro

Nesta semana de Páscoa revisitei o Mosteiro de Alcobaça. Tantos anos após a primeira de muitas visitas, mantém-se a aura trágica e épica que rodeia os 2 túmulos ali colocados.

Agora a história é contada aos meus filhos. Espantados tal como eu ficara pela crueza dos actos, ficam em silêncio e respeitosamente assimilam o seu passado.

E recordo aqui uma tragédia que se tivesse ocorrido em território anglo saxonico, sería guião para uma super produção de Hollywood. Uma verdadeira tragédia romântica ao estilo de Romeu e Julieta de Shakespeare, com uma diferença fundamental: Aconteceu mesmo...em 7 de Janeiro de 1355.

"Inês Pires de Castro era filha bastarda de D. Pedro Fernandez de Castro, poderoso fidalgo castelhano, e irmã de D. Fernando e de D. Álvaro Pires de Castro, senhores de grande poder político e senhorial. A jovem veio para Portugal em 1340, integrada no séquito da princesa D. Constança Manuel, filha de D. João Manuel, respeitável opositor do então Rei de Castela, D. Afonso XI, aquando da celebração do casamento de D. Constança com D. Pedro, filho de D. Afonso IV, Rei de Portugal. O casamento, de conveniência, objectivava acalmar a exaltação dos monarcas, D. Afonso IV e D. Afonso XI, reis em permanente conflito, em estado de guerrilha mútua. D. Pedro, homem de natureza impetuosa e independente, apaixonou-se pela bela Inês, apelidada pelos poetas de "colo de garça". Ela passou a ser a alma gémea que o levou a desprezar as convenções cortesãs e a desafiar frontalmente tudo e todos.

Após a morte de D. Constança por ocasião do parto de seu filho D. Fernando, futuro sucessor de D. Pedro no trono de Portugal, o Infante assumiu, às claras, a ligação existente, indo mesmo viver com ela no Paço da Rainha, em Santa Clara, Coimbra. Nem a tentativa de D. Afonso IV em fazer abortar a ligação, exilando Inês de Castro no castelo de Albuquerque à vista de Ouguela na estremadura espanhola, dera resultado, tal como não colhera melhor sorte o exílio na Serra de El-Rei, Moledo, Canidelo (próximo de Gaia). A Corte que permanecia, frequentemente, na cidade do Mondego, não via com agrado as relações entre os dois amorosos. Considerava a ousadia uma afronta. Entendia-se que a ligação era indecorosa pelos problemas morais e religiosos que levantava, bem como do perigo que trazia para o reino em virtude da influência da família dos Castros, que se insinuava junto do Infante. As intrigas do Rei apressavam o monarca a agir. Desta forma, a teia à volta de Inês avolumava-se, apesar de ela viver, despreocupadamente, o seu idílio com Pedro nas bucólicas margens do Mondego. As peças do complicado xadrez iam-se ajustando para o desenlace final. D. Afonso IV compreendia as razões que o impeliam a tomar uma decisão, mas hesitava. Contudo, chegou a hora do veredicto.

Reuniu o seu Conselho em Montemor-o-Velho para analisar a atitude a tomar. Entre os conselheiros contavam-se Diogo Lopes Pacheco, Álvaro Gonçalves e Pero Coelho. A reunião constituiu, na prática, um julgamento, em que a acusada não esteve presente. El-Rei decidiu pela execução de Inês. E, na fria manhã de 7 de Janeiro de 1355, quando a neblina do rio ainda não se havia dissipado, os executores régios, aproveitando a ausência do Infante para as suas habituais caçadas, penetraram no paço e ali decapitaram D. Inês.

D. Pedro quando ascendeu ao trono, com a idade de 37 anos, passados dois sobre a trágica morte, pensou que chegara a hora do ajuste de contas. Reinava, então, em Castela, D. Pedro, "O Cruel". Tinha muitos inimigos, espalhava a violência e perseguia os seus opositores. Para conseguir capturá-los celebrou um tratado com D. Pedro de Portugal em que os dois monarcas se comprometeram a prender os exilados dos dois reinos e a sua entrega mútua na fronteira. Os portugueses visados eram os conselheiros de D. Afonso IV que influenciaram a decisão do rei. A troca de prisioneiros castelhanos e portugueses efectuou-se. Os castelhanos foram supliciados em Sevilha. Os portugueses foram executados em Santarém. A Pero Coelho, mandou-lhe tirar o coração pelo peito e a Álvaro Gonçalves pelas costas, já que D. Pedro "O Justiceiro", os considerou homens sem coração. Diogo Pacheco salvou-se, segundo a tradição, porque foi avisado por um mendigo a quem dava esmola, de que ia ser preso. Trocou a roupa com o pobre e escapou-se para Aragão e daí para França. A tradição popular deu-o, mais tarde, a viver no Piodão, Arganil.


Saciada a sede de vingança, D. Pedro ordenou a transladação do corpo de Inês desde a campa modesta em Coimbra, para um túmulo delicadamente lavrado que mandou colocar no Mosteiro de Alcobaça. O acontecimento teve honras de Estado. O caixão saído de Santa Clara, trazido por cavaleiros, foi acompanhado por fidalgos e muita população, clero e donzelas. Ao longo do trajecto o corpo de Inês caminhou por entre círios acesos. No mosteiro celebraram-se muitas missas e outras cerimónias e com grande solenidade o caixão foi depositado no monumento tumular.


Posteriormente, D. Pedro mandou executar outra arca tumular, semelhante em arte ao da sua amada, colocando-a ao lado e nela quis ficar sepultado. E, até aos dias de hoje, os dois repousam juntos. Procurando dignificar o nome da sua amada, D. Pedro, declarou, apresentando testemunhas (D. Gil, Bispo da Guarda, e Estevão Lobato, seu criado), que sete anos antes casara com ela em Bragança. A afirmação pública foi proferida em Cantanhede a 12 de Junho de 1360, quando se encontrava naquela povoação. Conta a lenda que decorridos 5 anos após a morte de Inês de Castro, o rei D. Pedro I declarou-a rainha de Portugal. Ordenou uma cerimonia de coroação em que esta foi coroada rainha e a corte teve de beijar-lhe a mão conforme obrigava o Protocolo Real."
Mário Nunes In "Nos Caminhos do Património II", 1995, ps. 126/128.

D. Inês de Castro foi uma dama que apesar da sua curta vida deixou uma grande marca na História de Portugal. O mito criado à volta da sua história estrutura-se em factos documentados e numa aura lendária gerada em relatos populares que permanecem no imaginário de um povo 700 anos depois.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Novas regras para melhorar o futebol

1. O Campo
Deve ser inclinado. Nenhuma equipa é prejudicada, porque mudam de campo ao intervalo. Assim descansam 45 minutos.

2. A bola
Deve haver uma bola para cada jogador, para evitar disputas.

3. Número de jogadores
14 para não se perder tempo com substituições.

4. Equipamento dos jogadores
Desenhado por estilistas nacionais com várias colecções sazonais.

5. Arbitro
Não é necessário, as equipas auto regulam-se.

6. Arbitros assistentes
Não são necessários, torna-se a organização mais barata.

7. Duração da partida
Muda aos 5, acaba aos 10. Aumenta as emoções do jogo.

8. Inicio e reinicio do jogo
Com bola ao ar, como no basket.

9. Bola em jogo e bola fora
Só pára o jogo quando saem todas.

10. A baliza
Sem postes para que as bolas não ressaltem.

11. Fora de jogo
A partir de 5 metros paga multa.

12. Faltas e condutas irregulares
Decide-se no momento entre todos e sem cartões.

13. Livre directo ou indirecto
Decide o lesado.

14. Pénalti
Não há. Acabam-se com as áreas.

15. Lançamento lateral
Não há. Bola que sai já não entra para não haver anti-jogo.

16. Pontapé de baliza
Não há. Bola que sai já não entra para não haver anti-jogo.

17. Pontapé de canto
Substitui os pontapés de baliza.

sábado, 17 de março de 2012

A 9ª Sinfonia de Beethoven

Os CDs foram inventados para comportar 72 minutos de música porque este é o tempo exacto de duração da 9ª Sinfonia de Beethoven.

Em 1824 surge a Sinfonia nº9 em Ré Menor. Pela primeira vez na história da música é inserido um coral numa sinfonia, a aliança entre as artes irmãs: a poesia e a música.

A partir de Beethoven a música nunca mais foi a mesma. As suas composições eram criadas sem a preocupação de respeitar regras.

Inaugura a tradição de compositor independente, que escreve música para si, sem estar vinculado a um príncipe ou a um nobre mecenas que lhe custeasse a existência.

Hoje em dia muitos críticos consideram-no, em conjunto com Mozart, como os maiores compositores de todos os tempos.

A ele se deve o inicio do período Romântico.

Conta-se que um dia perguntaram a Wagner quem seria o maior compositor daquela época. Ele respondeu:

- Eu próprio !

- Então, e Beethoven ?

- Ele é a própria musica !

A sinfonia n.º 9 tem um papel cultural de extrema relevância no mundo actual. Em especial o 4. Andamento, o "Hino à Alegria", foi rearranjada por Herbert von Karajan para se tornar o hino da União Europeia.

Foi apresentada pela primeira vez em 7 de maio de 1824, em Viena, Áustria. Dirigiu o maestro foi Michael Umlauf, director musical do teatro.

Beethoven, já em adiantado estado de surdez, teve direito a um lugar especial no palco mas não pôde dirigir.

Como é irónico que alguém, que nunca ouviu a composição, nos tenha legado uma obra que ainda hoje, duzentos anos depois, nos maravilha.

domingo, 4 de março de 2012

O lobo e o leão.

Um Lobo que acabara de roubar uma ovelha, depois de reflectir por um instante chegou à conclusão que o melhor seria levá-la para longe do curral, para que enfim, fosse capaz de servir-se daquela merecida refeição, sem o indesejado risco de ser interrompido por alguém.

Os seus planos foram bruscamente gorados quando no caminho se cruzou com um poderoso Leão, que sem qualquer conversa lhe levou a ovelha.

O Lobo contrariado mas sempre a uma distância segura do seu oponente, disse em tom injuriado, com uma certa dose de ironia:

- Não tens o direito de tomar para ti aquilo que por direito me pertence!

O Leão sentindo-se um tanto ultrajado pela audácia do seu concorrente, olhou em volta, como o Lobo estava longe demais e não valia a pena o inconveniente de persegui-lo, apenas para lhe dar uma merecida lição disse com desprezo:

- Pertence-te ? Por acaso compraste ? O pastor deu-te como presente? Desculpa a ovelha foi tão tua, como agora é minha...

E foi-se embora com a ovelha.

Moral da História:
Aquilo que se consegue a mal, a mal se perde.

Fábula escrita na Grécia por Esopo por volta do ano 620 A.C.

Quando lemos esta fábula 2.600 anos depois, não podemos deixar de sorrir com a sua bonomia e ingenuidade.

Hoje em dia toma-se posse ilegítima de bens ou ideias com a maior desfaçatez, muitas vezes protegidos até pela lei.

Após a apropriação torna-se absolutamente irrelevante a forma como se assumiu a posse. São-lhes prestadas todas as honrarias e benesses, como se sempre lhes tivessem pertencido por direito natural. Muitas vezes são condecorados pelo próprio Estado.

O furtar, extorquir, plagiar, esquivar-se e o especular, vão sendo legitimados por habilidades jurídicas praticadas em oportunismos de circunstancia que apenas servem para branquear e regularizar actos fraudulentos.

São estes "Oportunistas", que hoje são descritos como: "Indivíduos que revelam grande sentido de oportunidade". São pessoas audaciosas e astutas, muito consideradas e vistas pelos seus pares como uns vencedores e exemplos de sucesso.

Uma vez detentores daquilo que não lhes pertence, nunca mais a posse é questionada, até porque ela se esconde em formalismos jurídico-legais que protegem o obscurantismo da propriedade em instrumentos constituídos anonimamente: Sociedades Anónimas, Off-Shores, SGPS, Fundos Investimento, Títulos não nominativos, etc...

Os próprios herdeiros tomam como seu o que ilegitimamente foi subtraído pelos predecessores. Crescem convictos que essa forma de viver é o paradigma do sucesso. Conscientes desses procedimentos, tudo fazem para perpetuarem e engrandecerem a vantagem obtida.

Neste ciclo se mantém a nossa sociedade.

Também com a minha ingénua bonomia acredito que um dia virá em que os Lobos e Leões serão abordados pelos Pastores que lhes pedirão contas pelas ovelhas furtadas.

sábado, 3 de março de 2012

Após a tempestade vem a bonança

Vendavais de som abafado
Ondulantes flutuações de suores frios
Secura nos lábios que antevêem a ânsia
A sofreguidão inevitável
Que antecede o embate
Torrentes de lava escorrem
Laranja de cor, de barro brilhante
No meio dos montes que apertam o vale
Temperatura que sobe num bafo quente e húmido
Desliza sedoso, macio e violento
Magnética atracção fatal do destino
Abafa no peito um grito gutural
Animal de sensações plenas no espirito
Em vão tenta parar a corrente liquida e veloz
Um rio pujante de vida que torna
Calma fluente, a lama arrefece
Sossega enfim, bordejando as margens
O curso normal repõe-se
E nós enfim suspiramos aliviados:
Após a tempestade vem a bonança...