Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

terça-feira, 3 de junho de 2014

Tourada

Escrito em 1972 mas parece que foi ontem. Muito pouco mudou...



Tourada (Ary dos Santos)

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
esperas.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais são
tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.

(Escrito no final de 1972. Interpretada por Fernando Tordo, concorreu ao Festival da RTP da Canção de 1973 onde obteve o 1º lugar)




domingo, 11 de maio de 2014

4:19

No silêncio do pavilhão vazio um rapaz de 17 anos passa horas atirando a bola ao cesto. Gestos repetidos todos os dias, todas as semanas, durante todos os meses das aulas.
O seu sonho é um dia poder jogar na equipa da sua escola. Vai ser difícil, é autista. O seu treinador costuma colocá-lo no banco, mas nunca joga. Receia que o rapaz entre em pânico e que não corresponda às exigências da competição,

O jovem que adora o basquetebol continua o seu treino, fechado no seu mundo hermético. Não tem de ponderar muito sobre o tema. Basta-lhe a repetição mecânica daquele gesto para sentir o conforto necessário para se manter calmo. Talvez um dia surja a sua oportunidade, quem sabe?

Dia de jogo. A sua equipa está a perder por 20 pontos, faltam 4:19 minutos.
O treinador olhou para o banco:
"Porque não? O jogo está perdido... Vou premiar o esforço que tem feito. Vai entrar."

O rapaz autista entra em campo para jogar os últimos 4 minutos e 19 segundos.
Na primeira vez que recepciona a bola encesta-a de 3 pontos. Os seus colegas sentem que podem confiar na sua precisão. Ele resolve o jogo, é inacreditável, marca 6 lançamentos triplos e um de dois, num total de 20 pontos. A sua equipa vence a partida por 3 pontos. Torna-se o homem do jogo e o herói da escola.

Este relato parece extraído de um filme, mas na realidade aconteceu. Em 2006 numa escola secundária em Nova York. O jovem chama-se Jason McElwain, a escola é a Greek Athena.
Um acontecimento que correu todo o país. O presidente quis conhecê-lo. Recebeu milhões de cartas de pessoas que se sentiram inspiradas por aquele feito.
Actualmente faz atletismo e recentemente correu a maratona de Boston.
Veio-me à memória o filme Forrest Gump, também baseado numa história verídica.



São feitos destes que nos fazem acreditar num mundo melhor. Um sinal de esperança para tantos que têm vários tipos de deficiência. Todos podem vencer as suas limitações mostrando-nos coisas surpreendentes e grandes lições de vida.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Assuma o papel de juiz

Eric M. Smith (nascido em 22 de Janeiro1980) é um criminoso americano, condenado por abuso sexual, mutilação e assassínio de uma criança de 4 anos, Derrick Robie.
O crime ocorreu em 2 de Agosto de 1993 em Steuben  County, Nova York.
De acordo com os documentos em posse do tribunal, Smith era descrito como um solitário, atormentado por complexos relacionados com o tamanho das suas orelhas, cabelos ruivos, sardas e óculos com lentes grossas. Era vítima de bullying. 

O crime foi largamente noticiado porque envolvia um agressor com 13 anos e uma vítima com 4 anos.

Smith atraiu Robie para um local remoto num parque perto de sua casa. Abusou da criança sexualmente, estrangulou-o, partiu-lhe crânio com pedras e sodomizou-o com um ramo de árvore.

Dois dias após o funeral Eric Smith foi detido e admitiu o crime. Em 1994 foi julgado como adulto e condenado à pena máxima por homicídio em segundo grau. No caso de jovens era de um mínimo de 9 anos a prisão perpétua.

Na prisão Smith escreveu à família de Robie um pedido de desculpas, que foi lido por ele na televisão.

"Eu sei que as minhas acções causaram uma perda irreparável à vossa família, e por isso eu peço imensa desculpa. Pensei muito em como seria a vida de Robie, como seria o seu décimo sexto aniversário? o Natal? a sua licenciatura? o casamento? o seu primeiro filho? Se eu pudesse voltar atrás trocava de lugar com ele e teria de suportar toda a dor que lhe causei. Se isso fosse possível eu trocava, mas não posso."

Mais tarde Eric Smith afirmou que raiva que sentia na altura era uma projeção do bullying de que era vítima, Robie apareceu no local errado à hora errada.

Smith diz que matou Derrick porque pensou que iria ter problemas se a criança se levantasse e fosse embora. Ele alegou que inseriu o galho no ânus do miúdo para que ele alcançasse e “parasse o seu  coração”. Eric descreveu as suas ações como “horríveis e violentas; desnecessárias e erradas.”

Acredita já não ser uma ameaça para os outros, porque os seus valores mudaram, e também por não ter tido nenhum tipo de problema dentro da prisão. “Quem eu era aos 13 anos já não existe. Aquela criança que cometeu aquele crime, desapareceu e nunca mais vai voltar.”.

Encontra-se detido na prisão de segurança máxima Clinton Correctional Facility em Nova York.
Desde 2002 a liberdade condicional já lhe foi negada por sete vezes, a ultima no passado mês de Abril. Terá nova portunidade de requer a liberdade em Abril de 2016. 

Faça um exercício e coloque-se no lugar do juiz:
Eric Smith terá 36 anos em 2016.
Concede-lhe a liberdade condicional ou não?

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O Diabo vestia Hugo Boss!


Hugo Ferdinand Boss nasceu dia 8 de julho de 1885.
Começou a carreira como um simples alfaiate. Após a Primeira Grande Guerra, aos 33 anos de idade, fundou sua própria confecção em Metzingen (1923).
Em 1931 filia-se no NSDAP – Partido Nacional Nazi – liderado por Adolf Hitler, um político em ascensão na época.
Em 1933 torna-se fornecedor exclusivo dos uniformes negros das SS (Schutzstaffel), da Wehrmacht e de outras organizações nazis (sempre muito preocupadas com a elegância). Ganhou milhões de marcos entre 1934 e 1945.
De início, a produção dos uniformes era partilhada com outras alfaiatarias, e Hugo Boss também produzia roupas normais para trabalhadores e camisas.
Em 1938 a empresa passou a trabalhar em exclusivo para o Estado alemão, chegou a contar com 300 funcionários. Como era difícil encontrar mão de obra durante a guerra, a fábrica utilizou 140 prisioneiros, na sua maioria mulheres.

Após a Segunda Guerra Mundial, com o fim do regime em 1945, Boss foi considerado como “responsável” nos julgamentos de Nuremberga. Apesar disso foi autorizado a continuar na gestão da sua fábrica.

Não viveu tempo suficiente para ver a sua empresa tornar-se mundialmente famosa, morreu aos 63 anos.
“A fábrica de roupas fundada pelo senhor Hugo Boss produziu roupas de trabalho e achamos que também uniformes da SS. Não temos arquivos na companhia, mas estamos a tentar descobrir o que aconteceu“, declarou Monika Steilen, porta-voz da empresa em 1997 quando a notícia foi divulgada por uma revista austríaca.

A marca alemã Hugo Boss emitiu um pedido formal de desculpas dia 2011, por ter usado mão de obra escrava na produção de uniformes nazis durante a Segunda Guerra Mundial. No comunicado, a empresa expressa o seu profundo pesar às vítimas que sofreram na fábrica dirigida por Hugo Ferdinand. “Nós nunca escondemos nada e sempre procuramos clarificar o que aconteceu no passado. É nossa responsabilidade com a empresa, com nossos funcionários, nossos clientes e com todos os interessados na história da Hugo Boss.”
O pedido de desculpas foi feito após o lançamento de um novo livro que revela a ligação do estilista alemão com o nazismo. Segundo a publicação, Hugo Boss, não somente era o estilista preferido de Hitler como também um fervoroso adepto do partido nazi.
Sinónimo de elegância e luxo, a HUGO BOSS é um produto “Made in Germany” altamente respeitado no mundo da moda.
Mas na verdade o Diabo vestia “Hugo Boss”.
O paradoxo da situação revela-se na projecção da marca, após as revelações de 1997, a notoriedade da Hugo Boss dispara. Embora a familia já nada tenha a ver com a marca, nem sequer o nome foi alterado. Antes pelo contrario, o envolvimento nazi ajudou a vender.
Irónico, não?
A questão moral num mundo de frivolidade nem se coloca.
Os que vacilam na capacidade critica deixam-se arrastar e sem darem por isso fazem parte e alimentam esse mundo marginal e insensato…

domingo, 27 de abril de 2014

A Russia e a Vodka



Com o aumento do uso de vodka para os carros, Estaline decidiu cancelar a distribuição generalizada da bebida pelos soldados em combate. Ao mesmo tempo, o líder soviético resolveu premiar os melhores soldados com 200 ml de vodka por dia.

O seu nome deriva da frase russa "Zhiznennia Voda", que significa água da vida.

A palavra vodka foi mais tarde adoptada. Os polacos reivindicam para si a origem do nome vodka (woda).

Os russos afirmam que a vodka foi uma descoberta deles e que o seu aparecimento se deu no ano de 1300, num local chamado Fonte de Viataka.

A vodka popularizou-se também rapidamente na Finlândia e Polónia. 

Em 1780 o Czar da Rússia contratou o químico Theodore Lowitz para encontrar uma fórmula que tornasse esta bebida mais higiénica e pura. Lowitz inventou a técnica da purificação da Vodka, filtrando-a através do carvão.

Quarenta anos mais tarde, a família Smirnoff oriunda de Moscovo, fundou uma companhia que aperfeiçoou este sistema e simultaneamente deu o seu nome a uma das vodkas mais famosas no mundo.

O século XIX foi marcado pelas invasões Napoleónicas, em 1812 o Tesouro russo faliu, o rublo desvalorizou-se com a inflação, dado o volume de negocio envolvido, instituiu-se o monopólio governamental da vodka na maioria dos territórios do Império Russo. 

A vodka parece ter tido um papel importante na vitória russa contra Napoleão Bonaparte.  O general francês e historiador Philippe-Paul de Ségur, afirmou: “Os nossos jovens soldados, enfraquecidos pela fome e o cansaço achavam que esta bebida lhes restauraria as forças, mas o calor da bebida fez com que gastassem o resto de energia como se tratasse de uma explosão e depois caíssem esgotados”.

Napoleão não menciona esta situação nos boletins da Grande Armada mas Ségur cita mais detalhes: "Havia outros, ainda mais embriagados, que foram vencidos pelas tonturas ou sonolências e caíram em valas ou nas estradas. Os olhos meio fechados, aguados, viam a morte com indiferença. A morte tomou conta deles e morreram estupidamente sem nenhum gemido”.

No início do séc. XX o consumo tinha atingido níveis assombrosos e a alienação da população era generalizada. A “Lei Seca” foi introduzida em 2 de agosto de 1914 pelo governo de Lenine mas foi abolida em 1925 por Estaline.

Em 1943, antes da ofensiva da União Soviética em Estalinegrado, o marechal russo Georgui Jukov informou Estaline que, como as tropas não tinham anticongelante suficiente estavam a usar vodka para impedir que a água dos radiadores congelasse. 


Em 7 junho de 1992, o primeiro presidente da Rússia, Boris Iéltsin, assinou um decreto abolindo o monopólio estatal sobre a vodka. Como resultado surgiram por todo o país produtos falsos e prejudiciais à saúde. O efeito da generalizada propagação da vodka falsificada era tão forte e as perdas do orçamento foram tão palpáveis que, um ano depois, em 11 de junho de 1993 foi assinado um novo decreto presidencial “Sobre a restauração do monopólio estatal sobre a produção, armazenamento, comércio de bebidas alcoólicas”. Este decreto perdura até hoje.

Actualmente estima-se que cada russo beba 18 litros de álcool por ano, mais do que o dobro do máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Uma em cada cinco mortes no país está relacionada ao álcool. No ano passado, o vício foi o principal responsável pela queda na esperança de vida russa, o primeiro retrocesso desde 2003. Um russo nascido em 2012 viverá em média 69,7 anos, em vez dos 69,8 anos calculados em 2011. Apesar de pequena, a queda no índice surpreende porque segue uma tendência oposta ao que se espera de uma nação emergente.

Eis o peso social que a vodka tem na Rússia.