Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Livro: Equador - Miguel Sousa Tavares

Publicado em 2003.

Equador é um romance onde a ficção se mistura com factos históricos, decorre no início do século XX, nos últimos anos da monarquia portuguesa.

O livro coloca-nos em contacto com a sociedade daquela época e seus costumes e com o trabalho escravo que prevalecia em algumas colónias mesmo após a abolição da escravatura.

É um retrato brilhante da sociedade portuguesa nos últimos dias da Monarquia, que traça um paralelo entre os serões mundanos da capital e o ambiente duro e retrógrado das colónias. Um enredo excelente com uma escrita competente.

Recomendo a leitura.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Os novos bancos da Islândia

Bem sei que é uma realidade bem diferente da nossa, mas não vem mal ao país se soubermos que existem outras realidades no mundo. Baseado em alguma informação que compilei, vou falar de uma forma muito sucinta e nada técnica, acerca da banca na Islândia.

Resultado da crise do “sub-prime” nos EUA, em outubro de 2008, a Islândia foi atingida de uma forma devastadora, os seus três maiores bancos entraram em colapso. A maior falência foi a do Kaupthing, que em dado momento, tinha um volume de ativos quatro vezes superior ao PIB do país. Em dezembro, quatro ex-executivos do Kaupthing foram condenados a penas de prisão efetiva.

O governo assumiu o comando dos bancos, administrando-os com um plano de emergência. Criou sociedades financeiras para gestão dos ativos tóxicos (fruto de hipotecas de alto risco e os empréstimos corporativos).

A primeira tarefa dos bancos foi a reestruturação dos empréstimos concedidos a empresas e famílias que não tinham condições para cumprir. No âmbito dessa medida, o governo aprovou uma lei geral a impor que os empréstimos fossem reduzidos para o máximo de 110% do valor do imóvel financiado.

O Landsbankinn foi mais longe, lançou uma campanha para reduzir as dívidas de qualquer empresa ou família que se encontrasse em dificuldade para cumprir. Esta iniciativa pressionou os outros bancos a fazerem esforços semelhantes na reestruturação dos passivos dos seus clientes.

Claro que não há bela sem senão. Atualmente as empresas e consumidores que pretendem mais crédito estão a ter dificuldades adicionais dada a contração que se verifica na concessão de crédito por parte dos bancos e da falta de acesso a investidores estrangeiros. Hoje em dia a economia islandesa baseia-se em ativos reais, a alavancagem provocada por capitais especulativos é praticamente inexistente.

Por exemplo, nos primeiros nove meses do ano passado, os novos empréstimos feitos pelo Landsbankinn a empresas e famílias chegaram a apenas 0,8% dos empréstimos feitos no ano inteiro de 2006 (antes da crise de 2008).

Na Islândia, a crise foi atribuída quase exclusivamente ao setor financeiro do país. Os bancos islandeses tinham acumulado dívidas enormes para apostar em ativos especulativos, criando uma teia de empréstimos cujos beneficiários eram eles próprios. Claro que não conseguiram liquidá-los e entraram em falência. Todos os altos executivos da banca falida, foram demitidos.

O governo islandês submeteu por duas vezes a referendo, a decisão de assumir as dívidas dos bancos ao exterior, o povo islandês recusou e as dividas aos bancos estrangeiros não foram liquidadas.
O governo instituiu uma lei a proibir o pagamento de bônus aos quadros superiores que ultrapassassem 25% dos salários base. Até hoje nenhum dos bancos pagou qualquer bônus. “Somos um banco novo, com uma nova ética comercial e uma nova maneira de trabalhar”, disse Steinthor Palsson, CEO do Landsbankinn, o maior dos novos bancos islandeses.

A reestruturação do setor financeiro e as medidas do governo para proteger a moeda relançaram o crescimento econômico e levaram o desemprego a cair de 19% (no ano seguinte às falências) para 5,6%.

Ainda é cedo para concluir que é um sucesso, mas a Islândia continua no seu caminho revolucionário, sem deixar de acreditar na iniciativa privada e numa economia de mercado com regras.


domingo, 12 de outubro de 2014

Sinfonia Patética

Como disse o maestro Vitorino D'Almeida, "A música de Tchaikovsky é uma busca de sublimação que transforma a mesquinhez em grandeza e a cobardia em brado de emoção heroica".

A 5ª sinfonia de Piotr Tchaikovsky sempre foi a minha companhia nos dias de estudo. A sua melodia calma e triste embalava o meu mergulho nos livros. Foi o meu primeiro contacto com a sua música.

Mas hoje não é sobre a quinta que vos vou falar, mas sim sobre a sexta sinfonia de Tchaikovsky, mais conhecida por “Sinfonia Patética”.

Foi composta entre Fevereiro e Agosto de 1893. O título da obra tem origem na palavra grega “Pathos” que significa paixão, excesso, catástrofe, passividade e sofrimento. Quando a Sinfonia estava para ser editada o autor enviou uma carta para o seu editor dizendo que queria colocar também uma pequena dedicatória “Para Vladimir Davidov, composto por P.T”, o editor ignorou o pedido.

A sinfonia é sombria, a sua temática é envolta em tristeza e desilusão, acompanhada de esperança e de uma felicidade maculada, mas o desespero sobrepõe-se e parece conduzir à morte. Muitos críticos afirmam tratar-se de uma obra autobiográfica.

A estreia, que foi dirigida pelo próprio compositor, teve uma recepção muito fria tanto quer dos músicos quer da plateia. Era muito diferente das formas tradicionais da época, quebrou alguns conceitos comuns e parte do público não gostou do final da sinfonia, considerando-a “inacabada”.

A decepção da estreia ficou a dever-se também ao temperamento de Tchaikovsky, o seu humor delicado e sua dramática insegurança foram afetados pela frieza inicial dos músicos de São Petersburgo, deixando-o deprimido.

A 6 de Novembro de 1893 Piotr Tchaikovsky morre, 9 dias depois da primeira apresentação da sua “Sinfonia Patética”.

Na época em que Tchaikovsky morreu, havia um surto de cólera na cidade de S. Petersburgo, mesmo sendo avisado, fez questão de beber um copo de água que não tinha sido fervido. De início os seus amigos mais próximos e principalmente seu irmão Modest, afirmaram que foi um acidente, mas isso não evitou que surgissem rumores. “Como é que um homem tão inteligente pode fazer uma coisa destas?”, "Ele quis acabar com a vida?", "Ele estava em depressão?", "Porque recusou consultar um médico?", "Seria a sua Sinfonia n.6 seu próprio réquiem ou até mesmo uma mensagem suicida?”.

Algumas coincidências fizeram com que a teoria do suicídio ganhasse força. Além do compositor se preocupar em organizar documentos, rever partituras e destruir gravações pessoais, nos últimos dias antes de sua morte, também estava numa fase em que começava a aceitar a sua homossexualidade com seu sobrinho Vladimir Dadidov. No entanto, naquela época a homossexualidade era considerada crime, Tchaikovsky teve receio que tal relação viesse a público.

Durante alguns anos a obra não foi apresentada, porque inicialmente sempre que era tocada algum elemento da orquestra sofria um acidente, corria o boato da sua maldição.

Deixo-vos a "Sinfonia Patética" para que possam avaliar.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Livro: A lua e as fogueiras - Cesare Pavese


Publicado originalmente em 1950, 'A lua e as fogueiras' é o último romance de Cesare Pavese, que se suicidou nesse mesmo ano.

Neste romance, o personagem central retorna rico à vila de Santo Stefano Belbo, de onde partiu ainda jovem para a América.

Numa paisagem em que, aparentemente, nada mudou, encontra tudo transformado. Não só pela passagem do tempo e pelas transformações históricas, mas, principalmente, porque ele próprio mudou.

A narrativa demonstra que a busca da identidade não se resolve com o retorno do protagonista à sua terra natal. É uma historia práticamente autobiográfica e Pavese situa-a em Santo Stefano, terra onde nasceu.

Um romance intimista mas de cariz politico, o relato das relações sociais de uma vila rural.

Brilhante, a lêr sem duvida.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Pessoas felizes sem sexo



Algumas pessoas afirmam não sentir qualquer desejo sexual por qualquer individuo, quer sejam do sexo oposto ou não. Em 2004 o Prof. Anthony Boagaert da Universidade Canadiana de Brock, estimou que os assexuados representam cerca de 1% da população mundial.

Entende-se por “assexuado”: desprovido de desejo sexual, ausência de desejo sexual. A partir disso, podemos entender que uma pessoa assexuada é aquela que não apresenta vontade alguma de realizar qualquer acto sexual, seja em relação ou não ao sexo oposto. Porém, é necessário diferenciar a assexualidade do celibato.

O celibato é uma abstinência deliberada da atividade sexual. Ou seja, o indivíduo em questão opta pela privação da intimidade sexual, mesmo que ainda possua o desejo. Os assexuados, não tomam tal decisão, simplesmente não possuem desejo sexual, e muito menos se importam com isso.É importante realçar que a assexualidade não tem nada a ver com castidade, com disfunção sexual ou moralidade.

Atualmente os especialistas tentam compreender este fenómeno. Muitos defendem que não se trata de uma patologia, mas de uma orientação sexual legítima. Se não causa angústia, não deve ser entendido como um distúrbio emocional ou médico. Outros afirmam tratar-se de um distúrbio de hipo-atividade sexual, ou mesmo de aversão sexual.

Alguns indivíduos assexuados também não têm qualquer atração romântica. Uma ampla rede de amigos garante-lhes o suporte emocional necessário para não sentir falta de outra pessoa.

A maioria dos assexuados afirma que a realização amorosa advém do carinho, da compaixão, da proximidade, da empatia e da aceitação, sem qualquer necessidade gratificação sexual.

Num mundo que valoriza cada vez mais a expressão sexual, pode ser difícil imaginar que existam pessoas que se identifiquem como assexuadas, no entanto, isso acontece. A assexualidade é considerada uma orientação sexual tal como heterossexuailidade, homossexualidade e a bissexualidade.

A britânica Jenni Goodchild, de 21 anos, considera-se assexuada por não ter nenhum interesse em sexo, ainda que tenha um namorado. Esta estudante universitária de Oxford afirmou numa entrevista: "Para mim, basicamente, quer dizer que eu não olho para as pessoas e penso 'hmmm, eu gostaria de ter relações sexuais com esta pessoa'. Isso simplesmente não acontece".

Este é o caso de Jenni, que é hetero-romântica e, apesar de não ter nenhum interesse em sexo, ainda sente atração por pessoas do sexo oposto e tem em um relacionamento com Tim, de 22 anos.

Tim, no entanto, não é assexuado (coitado do rapaz). "Muitas pessoas chegam a perguntar se eu não estou a ser egoísta ao mantê-lo nesta relação que não vai satisfazê-lo e dizem que ele devia namorar com alguém como ele, mas ele parece bem feliz, costumo dizer que é ele quem deve decidir isso", diz Jenni.

Segundo Tim, ele está a gostar de passar tempo com Jenni e de conhecê-la melhor. "A primeira vez que Jenni mencionou durante uma conversa que era assexuada, meu primeiro pensamento foi: 'hmmm, isso é um pouco estranho', mas eu sabia que não devia fazer suposições sobre o que isso significava", explica Tim. "Eu nunca fui obcecado por sexo. Eu nunca fui do tipo que tem que sair à noite e encontrar alguém para ter sexo, não estou preocupado com isso."

Este tipo de relacionamentos está em voga e a começar a tornar-se mais comum do que seria de esperar. Podia dissertar uma serie de teorias acerca do que penso sobre isto, mas deixo ao vosso critério.