Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

As rémoras


O comensalismo é um conceito que define as relações entre organismos de espécies diferentes, que se caracteriza pelo benefício de uma espécie, sem prejuízo da outra.
A relação de comensalismo mais conhecida é possivelmente a da rémora com o tubarão. A rémora agarra-se com uma ventosa ao dorso do tubarão. Come apenas os restos que são desperdiçados pelo seu transportador, não o prejudicando em nada.

Nas nossas atividades profissionais, penso que todos nós já nos cruzamos com ambas as espécies. Vou tentar explanar a minha ideia.

Fazendo uma analogia comensal às relações profissionais, entendo por tubarão alguém que tem ideias próprias, que toma decisões, segue o seu caminho e pensa pela própria cabeça, para o bem e para o mal. Por outro lado, este tipo de pessoas, invariavelmente é seguido ou perseguido por um séquito de rémoras.

Concluí que a quantidade de rémoras suplanta em muito o número de tubarões. São muito numerosas, ruidosas, ecoam em uníssono juízos de outros, não têm qualquer autonomia ou capacidade critica, são praticamente acéfalas.

Estes parasitas não gostam da singularidade. Detestam que o telemóvel não toque se estão na presença de alguém. A superfície de tudo é suficiente porque tudo o resto lhes dá muito trabalho. Para eles apenas contam os fins, de resto tudo é válido. A ética é definida no momento e de acordo com o interesse momentaneo. O maior dilema que lhe podemos colocar é obrigarmos a uma tomada de posição. Adoram fazer parte de grandes cardumes, porque é sinal de aceitação e dá-lhes a certeza que vão com o tubarão certo. Tentam sempre navegar em unanimidades, porque é sinal de que estão com a maioria.

Se por azar o tubarão que seguem é comido por outro, rapidamente se colam ao vencedor para garantirem que tornam a participar no cardume correto. Muito raramente uma espécie destas se transforma em tubarão, porque isso vai contra os seus princípios de subserviência, dado que envolve um risco muito grande, o de ter um dia de enfrentar um outro tubarão.

Têm uma grande capacidade de adaptação a situações de oportunismo, diz-se agora, modernamente, que se trata de indivíduos que revelam grande sentido de oportunidade. Não têm qualquer pudor em aceitar fazer um caminho inverso aos seus principios, até porque estes são muito flexiveis, no meu entender, demasiado.

Os seus objectivos são imediatistas ou de curto prazo, o que na maioria das vezes dá uma enganosa ilusão de avanço, mas que na verdade representam a médio prazo um retrocesso com consequências negativas. É por este motivo que das rémoras humanas só podemos esperar estagnação e mediocridade.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Zé do Telhado


Quando era criança, em muitas viagens que fiz à terra de meu pai, Marco de Canavezes, sempre que passávamos em Mouriz, próximo de Paredes, víamos uma casa estranha feita em madeira, pintada de preto e branco. Meu pai dizia-me que ali havia vivido um salteador do sec. XIX, a quem chamavam Zé do Telhado e contou-me a sua história lendária.

Ficou famoso como o “Robin dos Bosques” português. Era o chefe de uma quadrilha de assaltantes que atuava na zona do Marão. Contava-se que assaltava casas e carruagens de pessoas abastadas e depois dividia os roubos com os mais pobres da região.

Chamava-se José Teixeira da Silva, nasceu em Recesinhos, Penafiel, no ano de 1818. De origens humildes, aos 14 anos foi viver com um tio para apreender o ofício de capador. Apaixona-se pela sua prima Ana Lentina, mas o tio não autoriza a relação.

Aos 18 anos alista-se no exército, inicia a carreira militar nos Lanceiros da Rainha, na Ajuda.

Combate contra os Setembristas, pela restauração da Carta Constitucional, mas são derrotados e em 1837 refugia-se em Espanha. Quando regressa, finalmente casa-se com a sua prima. Envolve-se no grupo que se opõe à política anticlerical do governo de Costa Cabral, torna-se um dos líderes da Revolta da Maria da Fonte.

O General Sá da Bandeira, que aderiu ao movimento, eleva-o ao posto de sargento. Teixeira da Silva distingue-se em vários combates e recebe a “Ordem militar de Torre e Espada”, a mais alta condecoração militar que vigora em Portugal. Mas a sua glória dura pouco. A sua fação cai em desgraça, é desmantelada e é expulso do exército.

As dificuldades financeiras que vive com uma família de 5 filhos, impelem-no para uma vida de crime. Nasce então o lendário "Zé do Telhado", líder de uma quadrilha que realiza um grande número de assaltos por todo o norte do país durante um período muito conturbado que coincidiu com a época de maior resistência de D. Miguel, no exílio com seu governo; os seus partidários miguelistas formaram grupos de guerrilha em todo o país.

A sua vida de bandido começou em 1851, no entanto em 1849 participou num assalto a uma casa de um lavrador rico em Macieira, Lousada. Depois deste assalto foi para o Brasil com o intuito de enriquecer, mas vida por lá não lhe correu da melhor maneira e acabou por voltar a Portugal sem nada. Como não conseguiu obter riqueza pela via lícita optou pela marginalidade.

No ano de 1852 José Teixeira da Silva já conhecido pelas autoridades devido aos seus assaltos a casas de cidadãos abastados. Durante 7 anos atuou por aquelas terras, escondendo-se na serra do Marão.

Conta-se na região que Zé do Telhado dividia o produto dos seus assaltos pelas pessoas pobres da zona. Claro que eram as próprias populações que muitas vezes davam guarida ao seu bando. Contam que uma vez um padre se recusou a celebrar um casamento por falta de pagamento. Zé do Telhado obrigou-o a realizar a cerimónia.

Em 1859 José Teixeira da Silva foi preso quando tentava fugir para o Brasil.

Durante o tempo que esteve preso na cadeia da relação, Zé do Telhado partilhou a sua cela com Camilo Castelo Branco. Camilo transformou-o num autêntico Robin dos Bosques e integrou-o nas suas “ Memórias do Cárcere “.

Zé do telhado foi acusado de 11 crimes. Acabou condenado aquinze anos de degredo em África.

Em Angola viveu em Malange, tornou-se um próspero comerciante de borracha, cera e marfim. Voltou a casar-se e teve mais 3 filhos. Morreu em 1875, aos 57 anos, vítima de varíola.

Tivesse este personagem nascido americano e Hollywood já o teria transformado num franchising com 7 ou 8 sequelas...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Livro: A imortalidade - Milan Kundera

Publicado em 1990.

Em A Imortalidade somos confrontados com a futilidade das coisas pequenas, mesquinhas e inúteis. As fugas ao quotidiano representam a busca da imortalidade.

Os personagens parecem perdidos nas suas existencias, como que deslocados no tempo e no espaço. Lutam para que a sua memória permaneça entre os vivos depois da sua morte.

Penso tratar-se de uma abordagem existencialista da vida.

Recomendo a leitura, Milan Kundera é um dos maiores autores do nosso tempo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Livro: A insustentável leveza do ser - Milan Kundera


                                                                                    Publicado em 1984.

"A insustentável leveza do ser" é obra-prima de Milan Kundera e possivelmente um dos melhores romances do séc. XX.

Kundera escreveu: "A vida é como uma peça de teatro, mas sem ensaio geral; quando entramos em palco já estamos a actuar de uma forma unica, sem possibilidade de corrigir".

É um livro absolutamente brilhante. Os personagens são complexos numa realidade politica tensa que era a cidade de Praga em 1968, nos tempos da guerra fria, o erotismo das relações realça a permanência da condição humana.

Uma obra obrigatória.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Estou "abasurdido"



Não é meu costume comentar questões do dia-a-dia. O principal motivo é a quantidade de comentadores que atualmente temos na nossa praça, todos eles pessoas altamente qualificadas, arregimentadas e muitas vezes bem pagas, para o efeito.

Eu, como pessoa anónima nesta multidão de senso comum, não passo de um mero agente do raciocínio básico da gente comum deste país.

Como estava a dizer, não é meu costume comentar temas atuais, mas neste momento sinto-me completamente "abasurdido" com o que se passa com a PT.

Vejam bem.

A especulação financeira, mais uma vez destrói uma empresa de referência no nosso país. A CMVM assiste ao desmoronamento da empresa e não bloqueia as transações em “short selling”, é um tipo de operação que serve para proteger os pequenos acionistas quando as variações são acima dos 10%. Ora a PT chegou a cair 28%. Activaram a suspensão no dia seguinte, quando o pior já havia passado.

A consultora Morgan & Stanley é conselheira da potencial compradora, a francesa Altice. Acontece que foi a própria consultora que fez uma recomendação negativa ao mercado, o que provocou uma queda abrupta dos títulos. Ou seja, a potencial compradora tem aqui uma excelente ajuda para comprar barato. Ninguém investiga o conflito de interesses?

Zeinal Bava, que era tido como um guru das telecomunicações, sob a sua gestão, assistiu à criação de um buraco nas contas da PT de 900 milhões de Euros. A PT no espaço de 1 ano perdeu cerca de 70% do seu valor no mercado.

A OI que seria a principal interessada no sucesso da PT, após o escândalo das aplicações no Grupo BES, perdeu cerca de 72% do seu valor em mercado. Mas Bava, o CEO da PT vai receber cerca de 5 M€ de prémio pela desvinculação contratual. Mais ou menos o que a PT gasta com 3.300 funcionários num mês.

Há aqui algo que não bate certo. Premeia-se um quadro pela sua incompetência? De onde saiu a verba? Decerto sai do balanço da PT, não da consolidação com a OI...

Ninguém pára esta delinquência financeira?

Estou completamente "abasurdido".