Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

domingo, 28 de dezembro de 2014

Um conto de Natal


Agora que passou a quadra do Natal apeteceu-me escrever sobre ela. O Natal para mim é um tempo de reunião familiar por opção, não a reunião de obrigação. As junções familiares só porque sim, não resultam.

Quando pessoas que pouco têm comum a não ser que pertencem a determinada família, que durante o ano nem sequer se lembram umas das outras, mas que resolvem encontrar-se uma vez por ano só porque assim deve ser, tem pouco de genuino e mais parece uma reunião anual dos colegas de curso.

Para mim o Natal pouco tem de religioso mas tem muito de coração, respeito muito a tradição e principalmente o ambiente que rodeia as crianças. Olhando os meus filhos, lembro as tardes e serões de Natal da minha infância e adolescência. Recordo a exibição na televisão dos filmes “Musica no coração”, “Alice no país das maravilhas”,”Serenata à chuva”, “O feiticeiro de Oz” e em particular “Conto de Natal” produzido pela BBC, baseado no romance de Charles Dickens. É sobre ele que vos vou falar.

O livro “A Christmas Carol” foi escrito em menos de um mês e foi publicado em 19 de Dezembro de 1843. Dickens precisava urgentemente de dinheiro para pagar dívidas. O livro foi de imediato um sucesso, vendeu 6.000 exemplares na primeira semana.

O personagem principal é um velho avarento de nome Scrooge que detesta o período natalício. Explora o seu empregado Bob, pai de 4 filhos, um deles é deficiente.

Scrooge, num sonho na véspera de Natal recebe a visita do seu sócio Jacob Marley, morto há sete anos. Ele avisa-o que o avarento nunca descansaria em paz se não se tornasse outra pessoa em vida e envia-lhe três espíritos de Natal, o passado, o presente e o futuro.

Os espíritos mostraram-lhe visões dos seus natais felizes quando era criança, do Natal presente afastado de todos e dos natais futuros em que ele surgia sozinho abandonado por todos.

Quando acordou o avarento Scrooge transformou-se, tornou-se outra pessoa e começou a dedicar mais atenção ao seu empregado e principalmente ao menino Tim, o que tinha problemas nas pernas. A celebração do Natal a partir de então é uma festa.

Charles Dickens escreveu o romance em pleno desenvolvimento da revolução industrial. Nele são relatados os contrastes sociais que se vincavam na época. A diferença entre os ricos e os pobres aumentava, a pobreza tornou-se absolutamente corrosiva e Dickens alerta para a perda de valores de uma sociedade que vive separada entre a miséria e o lucro. O Natal surge como palco dessas diferenças.

É interessante como um romance intensamente político tenha atingido tal sucesso junto da generalidade das pessoas e ainda hoje permanece atual.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Os órfãos de Roger Waters


Neste Natal o meu filho mais velho ofereceu-me o último álbum dos Pink Floyd.

“The Endless River”, segundo David Gilmour é mesmo o último álbum da mítica banda inglesa.

Apenas o tema “Louder than words” é cantado, todos os outros são instrumentais com grande intervenção de Richard Wright, o teclista falecido em 2008. Aliás o álbum é uma homenagem a Wright.

Antes de tomar a decisão de escrever sobre este tema, ouvi o álbum por quatro vezes em dois dias. Sendo um admirador de longa data da banda, posso dizer que estou decepcionado. Um álbum dos Pink Floyd e ainda por cima sendo o último, obriga a mais.


Não é que o som dos Floyd não esteja lá, mas falta a chama, a genialidade. É um trabalho tristonho mais apropriado a colocar em documentários do National Geographic ou a tocar no lounge de um qualquer hotel.

As manobras de marketing em torno do lançamento, ainda me fazem sentir pior, porque nada do que ouvi me soou a novo, tudo me pareceu desnecessário. Repito que não é um som mau, só que soa a "déjà-vu". Por momentos pensamos em "Dark Side of The Moon" ou em "Echoes", mas muito aquém por não ser fresco.

Já os albuns "The Division Bell" e "A Momentary Lapse of Reason" me haviam parecido distantes dos grandes momentos dos Pink Floyd, mas é claro que faltando Roger Waters, nada pode ser igual. Se David Gilmour e Nick Mason se vão despedir do público com este trabalho é uma pena.

É absolutamente notório que sem o génio criativo de Roger Waters, o som dos Pink Floyd é uma pálida demonstração daquela que terá sido uma das maiores bandas de todos os tempos.

Estes não são os Pink Floyd, são os órfãos de Roger Waters.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Estou farto de semi-deuses

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irresponsavelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

in Poema em linha recta de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa,
o maior vulto da literatura de língua portuguesa.

Para refletirmos, olhando para quem nos rodeia...

Sem mais comentários.



domingo, 14 de dezembro de 2014

Roma não paga a traidores


Dos Lusitanos muito pouco resta no Portugal atual, a não ser a nossa auto designação de povo Lusitano e a ténue recordação de Viriato.


Os Lusitanos eram povos de várias tribos que habitavam no oeste e noroeste da Península Ibérica antes destas terras serem conquistadas pelos romanos. Viviam da pastorícia e do cultivo das terras. Eram tribos belicosas permanentemente envolvidas em conflitos por disputas territoriais.

Os romanos foram conquistando a Península, mas quando chegaram aos territórios altos e agrestes ocupados pelos Lusitanos, as dificuldades aumentaram. As tribos haviam-se unido em torno de um líder chamado Viriato.

A biografia de Viriato diluiu-se no tempo. Os dados que chegaram até nós são muito ténues. Viveu durante o sec. II a.C. não sabemos ao certo o seu local de nascimento, terá sido numa zona montanhosa entre os rios Douro e Tejo, zona que corresponde à região da serra da Estrela.

Segundo o historiador romano Diodoro, tornou-se o líder dos Lusitanos em 148 a.C.

Viriato, quando criança e à semelhança de todos os lusitanos, tinha sido pastor. Mais tarde, tornou-se caçador e depois guerreiro.

Em 147 a.C., os lusitanos renderam-se perante as tropas de Caio Vetílio, que os haviam cercado. Mas, Viriato opôs-se terminantemente a essa derrota.Organizou as suas tropas e contra-atacou, acabando por derrotá-los no desfiladeiro de Ronda, na Andaluzia, onde acabaria por matar o próprio Caio Vetílio.

Era um guerreiro temerário, que conhecia muito bem os territórios que defendia. A partir do ano 143 a.C. tornou-se uma verdadeira preocupação para os romanos, dadas as dificuldades que sentiam na progressão da conquista.

A resistência culminou em 140 a.C. numa batalha travada em Erisane, no sul da Península, na região a que hoje chamamos Andaluzia. Com a derrota dos romanos, Viriato conseguiu que fosse celebrado um acordo de paz em que o consul romano para os territórios da Hispânia Ulterior, Máximo Serviliano, reconhecia a independência da Lusitânia.

No ano seguinte Serviliano é substituído por Quinto Servilio Cipião. O acordo foi revogado pelo novo consul para a região. Os combates tornaram a eclodir. Viriato, na tentativa de repor a paz enviou três dos seus homens de confiança, como embaixadores para renegociarem o acordo com Cipião.

Minuros, Audas e Ditalco, foram aliciados por Cipião para matarem Viriato. Aceitaram a missão. Quando regressaram assassinaram-no enquanto dormia.

Depois da morte de Viriato (139 a.C.), o exército lusitano passou a ser comandado por Táutalo Sertório. Mas as tropas lusitanas estavam muito enfraquecidas e sem uma liderança forte, acabaram por ser derrotadas.

Quanto aos traidores, refugiaram-se junto dos romanos após o assassinato de Viriato, reclamando o prémio prometido. No entanto, os romanos ordenaram a sua execução em praça pública, onde os seus corpos ficaram expostos com os dizeres “Roma não paga a traidores”.