Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 4 de janeiro de 2015

Uma lei para inglês vêr

Portugal foi um dos estados pioneiros na abolição da escravatura, o que é um grande motivo de orgulho para os portugueses. No entanto, é importante recordar que foram também os portugueses, os pioneiros na globalização do comércio de escravos.

Um dos principais motivos para a expansão marítima de Portugal, foi a busca de riqueza. Ora o comércio de mão-de-obra escrava constituía o negócio mais rentável da época, sendo mesmo mais lucrativo do que o ouro.

Depois de alcançarem o litoral atlântico da África, ainda na primeira metade do século XV, rapidamente os portugueses conseguiram ter acesso ao comércio de seres humanos que já era praticado pelos africanos.

A negociação entre portugueses e africanos era feita através da troca de produtos que interessavam aos africanos: tecidos, vinhos, cavalos e principalmente ferro que era derretido e transformado em armas. Os negreiros africanos intermediários conseguiam assim vantagem para dominarem tribos inimigas e podiam obter mais escravos para negociar.

Por esta altura não havia grande iniciativa para colonizar África. Como o negócio era muito rentável os comerciantes fundaram algumas feitorias e mantinham uma relação amigável com povos do litoral. As regiões que mais forneceram escravos para o tráfico no Atlântico foram: o Cabo da Guiné, chamada a “Costa dos Escravos”, e os Reinos do Congo e de Angola.

As guerras entre os africanos para conseguir mais escravos acabaram por causar a diminuição da população do litoral, e a busca por escravos passou a ser feita em regiões cada vez mais distantes no interior.

Nas zonas do interior, os escravos capturados eram obrigados a andar longas distancias, vigiados de perto por homens armados. Nessas caravanas eram sujeitos a grande sofrimento, obrigados a andar em fila, atados uns aos outros. Este procedimento servia para aumentar o cansaço e diminuir as hipóteses de rebelião e fuga. Muitos prisioneiros morriam nessa travessia.

Este processo de comercialização por vezes demorava meses desde o momento da captura dos escravos, passando pela negociação de feira em feira no interior até a chegada aos portos no Atlântico, onde ficavam os navios negreiros portugueses. A partir do século XVI começaram também a aparecer embarcações inglesas, holandesas e francesas.

Antes de embarcarem os escravos ficavam depositados em grandes armazéns sem as mínimas condições de higiene. Por vezes as negociações poderiam demorar cinco meses, muitos morriam de doenças como a varíola, a disenteria, ou a cólera.

Calcula-se que 20% dos escravos africanos embarcados nos navios negreiros pereciam durante a travessia do oceano Atlântico. Em geral essas embarcações transportavam entre 400 e 500 escravos, todos confinados num porão. Os negreiros compravam mais escravos do que sua embarcação comportava, pois sabiam que perderiam muitas das suas "mercadorias" durante a viagem. Os barcos seguiam superlotados. Uma viagem entre Angola e Brasil durava 35 dias. Entre Moçambique e Brasil demorava cerca de três meses.

O século XVI foi o de maior afluência de escravos a Portugal. Nos séculos seguintes diminuiu sempre, em oposição ao que se passava no Brasil, onde cresceu até ao século XVIII, incentivado pelos ciclos económicos sucessivos e que exigiam grandes quantidades de mão-de-obra já que a população indígena se revelou insuficiente e sem capacidade física.

O comércio de escravos que se estabeleceu no Atlântico entre 1450 e 1900 contabilizou cerca de 11.313.000 escravos.

Todo este lucrativo tráfico fez com que os negreiros descurassem o mercado europeu, que não pagava tão bem quanto o das colónias, nem necessitava de levas constantes de tantos efectivos transportados, para além de sucessivos decretos tentarem interromper a vinda para Portugal de mão-de-obra escrava.

De recordar, entretanto, que no século XVII, existiam ainda escravos mouros em Portugal, embora a sua importação estivesse interditada desde finais do século XVI.

Muito embora já houvesse uma primeira tentativa de limitar o comércio escravo, no reinado de D. José, no século XVIII, foi apenas no início do século XIX que Portugal a par da Grã-Bretanha, proibiu o seu comércio.

Em 1810, Portugal e Inglaterra assinaram o Tratado de Aliança, Comércio e Amizade no qual entre outras coisas, estava previsto a extinção gradual do tráfego de escravos.

Mas no Brasil tudo continuou na mesma. Em 1827 para ser reconhecido como país livre, o Brasil teve de ratificar o acordo de 1810, prometendo extinguir o tráfego de vez.

Por fim, a lei que ficou conhecida como “Lei para inglês ver” foi promulgada em 7 de Novembro de 1831, a qual proibia terminantemente o tráfego, sem mais demoras.

Embora promulgada, a lei foi solenemente ignorada por traficantes, fazendeiros e autoridades.

A 25 de Fevereiro de 1869 o rei D. Luís mandou publicar finalmente a abolição completa da escravidão no império português.

"Fica abolido o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa, desde o dia da publicação do presente decreto.
Todos os indivíduos dos dois sexos, sem excepção alguma, que no mencionado dia se acharem na condição de escravos, passarão à de libertos e gozarão de todos os direitos e ficarão sujeitos a todos o deveres concedidos e impostos aos libertos pelo decreto de 19 de Dezembro de 1854."

D. Luís, Diário do Governo, 27 de Fevereiro de 1869

Muitas fortunas foram constituídas durante este período baseadas num negócio absolutamente hediondo. A oposição dessas famílias poderosas foi retardando o fim do tráfico de escravos.

Hoje em dia esses nomes são ocultados dos tratados históricos e as suas heranças foram inocuamente transmitidas por gerações até aos dias de hoje...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ser ou não ser? Eis a questão.


Ser ou não ser William Shakespeare?


Esta é uma dúvida que tem assaltado as mentes de muitos intelectuais, estudiosos da obra fenomenal do poeta e dramaturgo inglês. Segundo eles a complexidade da obra não se compagina com formação académica do jovem William Shakespeare (1564-1616), que nunca teve uma educação clássica, que na altura só era acessível a famílias nobres.

As pesquisas de vestígios biográficos do autor, nunca foram fáceis. Apenas aos poucos e com dificuldade foram sendo descobertas ao longo do tempo, as provas documentais de que existiu um indivíduo de nome William Shakespeare, nascido e criado em Stratford-upon-Avon, pouco estudado embora filho de um político local (mas luveiro de profissão). A certa altura da vida tornou-se actor e, mais tarde autor teatral em Londres. Terminou seus dias em Stratford-upon-Avon, onde emprestava dinheiro a juros, tornando-se um homem muito rico.

O cineasta alemão Roland Emmerich, realizou “Anonymous” em 2011 a história que põe em causa toda a obra de Shakespeare Stanley Wells, presidente da associação “The Shakespeare Birthplace Trust”, afirmou que “não há qualquer prova, esta história é fabricada. É uma teoria da conspiração que já está em marcha há 150 anos. Começou pouco depois da morte de Shakespeare, mas durante a sua vida ninguém duvidou da autoria das obras. Se for à igreja vai ver um monumento em homenagem a William Shakespeare de Stratford-upon-Avon, com inscrições da época em latim e em inglês aclamando-o como um grande escritor.”

A primeira grande teoria acerca da hipótese de que Shakespeare não teria escrito a obra a ele atribuída aponta para o filósofo Francis Bacon (1561-1626). Autor brilhante, Bacon transitou por todos os géneros literários mais difundidos em seu tempo – menos a poesia e o teatro, o que bastou para indiciar que Shakespeare seria um seu pseudónimo.

O segundo “suspeito” de se ter ocultado por trás do nome de Shakespeare foi um personagem controverso e escandaloso na sua época Edward De Vere (1550-1604), o Conde de Oxford, que segundo consta, era o filho secreto da rainha Isabel I. É uma das trajectórias mais obscuras da época, daí o personagem ter suscitado mais essa suspeita: a de que teria escrito o que se atribui a Shakespeare.

Sigmund Freud foi um dos defensores desta teoria, afirmou: “Não creio que William Shakespeare, o actor de Stratford, tenha sido o autor das obras que há tanto tempo lhe têm sido atribuídas. Desde a publicação do volume de J.T.Looney, ‘Shakespeare’ Identified [1920], estou quase convencido de que de fato Edward de Vere, Conde de Oxford, está oculto por trás desse pseudónimo. (Freud, 1925) ”.

Há quem diga que o verdadeiro Shakespeare teria sido o político e diplomata Henry Neville. Foi encontrado um caderno escrito por Neville quando ele ficou encarcerado na Torre de Londres, por volta do ano 1602, contém anotações detalhadas, muito anteriores à data de publicação e que acabaram por constar da peça "Henrique VIII", encenada pela primeira vez alguns anos mais tarde.

A sua experiência na torre, onde Neville correu o risco de ser executado por participar numa conspiração para derrubar a rainha, também poderia explicar a mudança de tom das obras de Shakespeare, que, a partir de 1601, passam de histórias e comédias para as grandes tragédias ditas shakespearianas.

Henry Neville era um homem culto que viajou pela Europa e era amigo íntimo do conde de Southampton, a quem acredita-se que foram dedicados alguns dos sonetos de Shakespeare. É exactamente este o motivo que leva alguns especialistas a colocar de parte esta teoria, porque existem algumas incoerências geográficas ao longo da obra, incompatíveis com alguém muito viajado.

Há também quem considere que o verdadeiro autor seria Christopher Marlowe, falecido em 1604, antes da publicação de peças importantes como "Macbeth" e "Rei Lear". Segundo os seus defensores, Marlowe teria simulado sua morte e continuado a escrever anonimamente.

A nível artístico tudo o que restou da obra de Shakespeare foram 37 peças, 154 sonetos e alguns poemas longos. Ficaram apenas pouco mais de 20 documentos que o mencionam, como seu testamento, registos de imóveis e a sua carreira profissional. É muito difícil conseguir compor uma biografia correcta com tão pouca informação.

James Shapiro um dos maiores especialistas da obra de Shakespeare afirmou a propósito desta polémica:

“Há quem afirme que os académicos de Shakespeare têm tanto investido profissionalmente, que conspiram ou são pagos para manter o segredo de que, na verdade, outra pessoa seria o autor. Posso assegurar que se descobrisse qualquer evidência de que não foi Shakespeare quem escreveu "Hamlet" ou "Romeu e Julieta", o publicaria imediatamente e ficaria rico. Vivemos numa era em que as ideias conspiratórias são alimentadas pela internet, então a questão da autoria de Shakespeare lança luz não apenas nisso, mas também sobre o momento cultural, ofuscando o que realmente interessa: a obra.”

Pela minha parte, da pesquisa que fiz posso apenas concluir que a polémica vai continuar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

domingo, 28 de dezembro de 2014

Um conto de Natal


Agora que passou a quadra do Natal apeteceu-me escrever sobre ela. O Natal para mim é um tempo de reunião familiar por opção, não a reunião de obrigação. As junções familiares só porque sim, não resultam.

Quando pessoas que pouco têm comum a não ser que pertencem a determinada família, que durante o ano nem sequer se lembram umas das outras, mas que resolvem encontrar-se uma vez por ano só porque assim deve ser, tem pouco de genuino e mais parece uma reunião anual dos colegas de curso.

Para mim o Natal pouco tem de religioso mas tem muito de coração, respeito muito a tradição e principalmente o ambiente que rodeia as crianças. Olhando os meus filhos, lembro as tardes e serões de Natal da minha infância e adolescência. Recordo a exibição na televisão dos filmes “Musica no coração”, “Alice no país das maravilhas”,”Serenata à chuva”, “O feiticeiro de Oz” e em particular “Conto de Natal” produzido pela BBC, baseado no romance de Charles Dickens. É sobre ele que vos vou falar.

O livro “A Christmas Carol” foi escrito em menos de um mês e foi publicado em 19 de Dezembro de 1843. Dickens precisava urgentemente de dinheiro para pagar dívidas. O livro foi de imediato um sucesso, vendeu 6.000 exemplares na primeira semana.

O personagem principal é um velho avarento de nome Scrooge que detesta o período natalício. Explora o seu empregado Bob, pai de 4 filhos, um deles é deficiente.

Scrooge, num sonho na véspera de Natal recebe a visita do seu sócio Jacob Marley, morto há sete anos. Ele avisa-o que o avarento nunca descansaria em paz se não se tornasse outra pessoa em vida e envia-lhe três espíritos de Natal, o passado, o presente e o futuro.

Os espíritos mostraram-lhe visões dos seus natais felizes quando era criança, do Natal presente afastado de todos e dos natais futuros em que ele surgia sozinho abandonado por todos.

Quando acordou o avarento Scrooge transformou-se, tornou-se outra pessoa e começou a dedicar mais atenção ao seu empregado e principalmente ao menino Tim, o que tinha problemas nas pernas. A celebração do Natal a partir de então é uma festa.

Charles Dickens escreveu o romance em pleno desenvolvimento da revolução industrial. Nele são relatados os contrastes sociais que se vincavam na época. A diferença entre os ricos e os pobres aumentava, a pobreza tornou-se absolutamente corrosiva e Dickens alerta para a perda de valores de uma sociedade que vive separada entre a miséria e o lucro. O Natal surge como palco dessas diferenças.

É interessante como um romance intensamente político tenha atingido tal sucesso junto da generalidade das pessoas e ainda hoje permanece atual.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Os órfãos de Roger Waters


Neste Natal o meu filho mais velho ofereceu-me o último álbum dos Pink Floyd.

“The Endless River”, segundo David Gilmour é mesmo o último álbum da mítica banda inglesa.

Apenas o tema “Louder than words” é cantado, todos os outros são instrumentais com grande intervenção de Richard Wright, o teclista falecido em 2008. Aliás o álbum é uma homenagem a Wright.

Antes de tomar a decisão de escrever sobre este tema, ouvi o álbum por quatro vezes em dois dias. Sendo um admirador de longa data da banda, posso dizer que estou decepcionado. Um álbum dos Pink Floyd e ainda por cima sendo o último, obriga a mais.


Não é que o som dos Floyd não esteja lá, mas falta a chama, a genialidade. É um trabalho tristonho mais apropriado a colocar em documentários do National Geographic ou a tocar no lounge de um qualquer hotel.

As manobras de marketing em torno do lançamento, ainda me fazem sentir pior, porque nada do que ouvi me soou a novo, tudo me pareceu desnecessário. Repito que não é um som mau, só que soa a "déjà-vu". Por momentos pensamos em "Dark Side of The Moon" ou em "Echoes", mas muito aquém por não ser fresco.

Já os albuns "The Division Bell" e "A Momentary Lapse of Reason" me haviam parecido distantes dos grandes momentos dos Pink Floyd, mas é claro que faltando Roger Waters, nada pode ser igual. Se David Gilmour e Nick Mason se vão despedir do público com este trabalho é uma pena.

É absolutamente notório que sem o génio criativo de Roger Waters, o som dos Pink Floyd é uma pálida demonstração daquela que terá sido uma das maiores bandas de todos os tempos.

Estes não são os Pink Floyd, são os órfãos de Roger Waters.