Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Alguns clichês

Todos temos a tendência de utilizar “lugares comuns” ou “clichès” que, por princípio, todos entendem para explicar situações ou atitudes que são conhecidas de todos. Mas a questão que coloco é esta: será que todos sabem do que estamos a falar?

Vou dar-vos alguns exemplos de lugares comuns.

O Principio de Peter

“Num sistema hierárquico todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência”

Laurence J. Peter postulou na sua obra de 1969 “The Peter Principle”.

Explicando melhor, segundo Peter alguém que integre numa empresa como estagiário, pode vir a ser promovido a técnico efetivo, dai vai subindo até ser gerente, onde se revelará incompetente. Com isto, sua ascensão finda e esta pessoa ficará estagnada numa função para a qual não tem qualquer competência para exercer.

Mais grave ainda, também observou que nem todos os indivíduos se elevam. Alguns não são promovidos porque se acredita serem indispensáveis no lugar em que estão, ou seja, foram elevados até o nível da "indispensabilidade". Concluiu então que, quando coincidem os níveis de incompetência com o de indispensabilidade de um indivíduo, deparamo-nos com uma anomalia: o incompetente indispensável.

Peter considera que a competência é determinada não por estranhos, mas pelos superiores. Considerando que, se um superior ainda estiver no seu nível de competência, poderá avaliar os subordinados no sentido de lhes obter um desempenho útil de trabalho; mas, se este superior estiver no seu nível de incompetência, procurará manter os subordinados dentro de valores institucionalizados, ou seja, será mais formalista e exigente do cumprimento de regras, rituais e formas estabelecidas. Desta forma ele assegura a manutenção do seu lugar de incompetência.



Os reflexos condicionados de Pavlov

Para Pavlov, aquilo que se denominava por espírito mais não era do que a actividade do cérebro. Dedicou-se, por isso, a estudar profundamente a actividade nervosa superior, estabelecendo um conjunto de leis fisiológicas que acabaram por lhe valer o Prémio Nobel da Medicina em 1904. Concluiu que é no córtex cerebral que se vão formar, modificar e desaparecer os reflexos condicionados.

Pavlov, ao estudar as secreções gástricas dos cães, descobre que sempre que era apresentado um estímulo (comida) eram produzidas secreções (saliva), facto que acontecia de um modo semelhante em todos os elementos de uma espécie animal. São os chamados reflexos inatos ou reacções automáticas naturais, por exemplo: num cão verifica-se a produção de saliva quando é apresentado um alimento, facto que serve para ajudar a ingestão do alimento.

Para além destes reflexos descobriu que se podem desenvolver reflexos aprendidos podendo assim proceder-se a uma alteração dos comportamentos. Os reflexos aprendidos ou condicionados são produzidos pela associação de um estímulo novo (estímulo que não produzia inicialmente nenhuma resposta específica) ao estímulo antigo (que desencadeava o reflexo inato). Por exemplo o cão associa a comida ao seu tratador, logo, quando o vê produz-se saliva.

Concluiu também que este tipo de reflexos é comum ao ser humano.



A lei de Murphy

“Se alguma coisa tem a mais remota hipótese de correr mal, certamente correrá mal”.

O criador desta lei foi o capitão da Força Aérea americana, Edward Murphy. Foi um dos engenheiros envolvidos nos testes sobre os efeitos cardíacos da desaceleração rápida em pilotos de aeronaves.

Para poder fazer essa medição, construiu um equipamento que registava o ritmo cardíaco e a respiração dos pilotos. O aparelho foi instalado por um técnico, mas simplesmente ocorreu um problema e o equipamento não funcionou. Murphy foi chamado para consertar o equipamento, descobriu que a instalação estava toda errada, daí formulou a sua lei.

A partir desta lei foram criadas várias derivadas muito interessantes, alguns exemplos:

. As coisas podem piorar, mas você não tem imaginação suficiente.

. Toda a partícula que voa, encontra um olho.

. As coisas vão piorar antes de melhorar. Quem disse que as coisas vão melhorar?


A síndrome de Peter Pan

Existem indivíduos que se recusam a crescer. A sua personalidade caracteriza-se pela imaturidade psicológica, e o narcisismo. Tratam-se de pessoas irresponsáveis em quase todos os aspetos da vida, rebeldes, que se negam a crescer, dependentes, manipuladoras e que se sentem acima das normas sociais. Estes indivíduos costumam sentir-se insatisfeitos com o que têm, mas nada fazem para resolver a questão. Limitam-se a pedir ou a exigir, como se tudo fosse um direito adquirido.

Resumindo o conceito, estamos a falar de meninos mimados. Está cientificamente demonstrada a grande importância do papel das mães na educação destes rapazolas...


A verdade de La Palice

Diz-se de algo que é tão evidente que se torna redundante destacar.

“Se não estivesse morto, ainda estaria vivo”

Este epitáfio ficou inscrito numa canção composta pelos soldados comandados por Jacques de Chabannes, senhor de La Palice (1470-1525).

O senhor de La Palice era um guerreiro valoroso que foi morto na batalha de Pavia. Os seus soldados em homenagem ao comandante compuseram uma canção ingénua, cujos versos lhe valeram a imortalidade.


Bode expiatório

Diz-se de alguém que arca com as responsabilidades de outros.

A origem da expressão tem a ver com relatos do primeiro testamento. O dia da expiação dos pecados do povo de Israel. Nesse dia eram levados dois bodes para a cerimonia. Um deles era sacrificado, o outro era o bode expiatório. Era abandonado no deserto por ser portador de todos os pecados dos israelitas. Com a sua morte todos os pecados eram expiados.




Testa de ferro

Diz-se de alguém sem qualquer poder, mas que representa outra pessoa ou poder oculto.

A origem da expressão terá sido em Itália com Emanuele Filiberto di Savoia (1528-1580), conhecido como Testa di Ferro, que foi conde de Asti, duque de Saboia, príncipe de Piemonte e conde de Aosta. Foi também rei de Chipre e Jerusalém, mas tratavam-se de cargos fantoches, sem qualquer poder.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Negacionismo


Em 2010 numa viagem que fizemos à República Checa, tivemos oportunidade de visitar o campo de concentração de Terezin a cerca de 60 quilómetros de Praga, a que os alemães chamavam Theresienstadt. Era um mero campo de transição para Auschwitz.

Logo na entrada temos a visão de um relvado enorme, cerca de 1 hectare repleto de campas brancas encimado por uma grande estrela de David, recordando as vitimas que ali pereceram. O campo tinha sido construído para albergar judeus das classes mais abastadas e artistas.

Em 1944 a Cruz Vermelha teve autorização para visitar o campo. Os alemães queriam desfazer o rumor que corria acerca da existência de campos de extermínio. Para servir de modelo propagandístico da forma como eram tratados os judeus deportados, os alemães chegaram a filmar o quotidiano do campo modelo, utilizando as imagens para difundir pelos cinemas do reich, convencendo os cidadãos alemães e o mundo de que os deportados eram tratados de uma forma exemplar.

O que realmente se passava, ficava para depois das filmagens. O que observamos no local é absolutamente chocante, as camaratas onde dormiam, eram beliches com tábuas de madeira, sem qualquer cobertura, as temperaturas naquela zona podem atingir os 15 graus negativos no inverno. Os desenhos que foram encontrados após a libertação do campo descrevem execuções em massa e torturas atrozes.

Durante a guerra passaram por Theresienstadt cerca de 144.000 prisioneiros, cerca de 33.000 morreram lá. Quando a guerra terminou havia cerca de 17.000 sobreviventes; das 15.000 crianças que habitaram o campo apenas 93 sobreviveram.

A sensação que mantenho desse dia é de uma profunda tristeza. Visitamos o campo no mês de Junho, caía uma chuva mansa e silenciosa. Durante a visita apenas ouvíamos a voz do guia, um checo que havia perdido os avós naquele campo, todos os visitantes se mantinham em silêncio, só o quebravam, quando num sussurro questionavam o guia acerca de algo. O respeito pela memória daqueles que sofreram, oprimia-nos. Nesse dia éramos poucos os visitantes, se bem me recordo seriamos umas 10 pessoas, entre polacos e americanos, possivelmente todos judeus, excepto nós.

Tudo isto se passou vinte anos antes de eu ter nascido, não podemos deixar que esse silêncio vença a memória, sempre passei este testemunho aos meus filhos, existem princípios, valores e limites que não podem ser ultrapassados...

“Há 70 anos foi libertado o campo de concentração mais associado ao extermínio dos judeus pelo regime nazi. Mas demorou anos até haver uma compreensão generalizada de que os judeus tinham sido vítimas de um genocídio (...)
(...) Apesar de muito se ter passado até então, só em 1961, quando o julgamento em Israel de Adolf Eichman, o especialista em judeus do regime nazi capturado pela Mossad na Argentina, foi transmitido pela televisão para todo o mundo, é que o Holocausto ganhou as dimensões modernas. Os julgamentos militares de Nuremberga, logo a seguir à guerra, não tiveram esse efeito.”
In jornal Publico 27/01/2015

Ao ler este artigo achei incrível haver gente que ponha em causa um acontecimento tão marcante e documentado como este. Então tive necessidade de aprofundar a análise do tema do negacionismo.

Durante a década de 1980, surgiu na França o termo negacionismo para orientar uma corrente de críticos que defendiam que o Holocausto da Segunda Guerra Mundial não existiu. Essa vertente interpretativa procurava minimizar, negar ou omitir simplesmente o extermínio de judeus ocorrido durante o conflito.

O negacionismo do Holocausto tem como argumentos básicos a defesa de que os nazis não desenvolveram uma política oficial de perseguição aos judeus, assim como não utilizaram métodos de extermínio em massa e de que o número de mortes propagado, cerca de seis milhões, seria um exagero.

Os seguidores desta teoria não aceitam o termo negacionismo, para os definir preferem utilizar a expressão revisionista. Defendem que pretendem rever a história sob a sua perspectiva. Só que seus opositores recusam a designação por respeito aos verdadeiros revisionistas que fazem uso de documentos históricos para trazer mais informações fundamentadas. Ou seja, os negacionistas são constantemente acusados de estruturarem seus argumentos simplesmente numa base ideológica e sem a existência de evidências históricas.

Os negacionistas sugerem que o Holocausto é uma farsa com fins propagandísticos que utiliza números exagerados para poder sustentar a criação do Estado de Israel, receber grandes indeminizações e justificar o avanço dos judeus sobre territórios palestinianos no Médio Oriente.

O negacionismo ganhou conotação de antissemitismo e, actualmente, é considerado crime em 16 países, entre eles a Alemanha.

O negacionismo não precisa ser acompanhado de ideias racistas ou de justificação do Holocausto para ser perigoso. A mera negação do massacre é preocupante porque atinge um facto histórico que nos recorda até onde pode chegar a maldade humana.

A forma mais eficaz de preservar direitos humanos e evitar a repetição de qualquer episódio triste ou insano da história como o Holocausto, é o fortalecimento de políticas de esclarecimento e de preservação da memória para que a obscuridade não relativize a barbárie.

Nos tempos actuais assistimos ao recrudescimento de fundamentalismos quer sejam de natureza religiosa, politica ou rácica, que levam à repetição dos horrores humanos. Os seus perpetradores são jovens alienados e desvinculados do passado histórico.

Penso que tornar obrigatório assistir ao filme “A Lista de Schindler” nas escolas secundárias, seguida de uma abordagem sintética do tema “Segunda Guerra Mundial”, seria uma boa medida educacional.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os atletas fundamentalistas


Sinto-me envergonhado porque não escrevi nada acerca do Charlie Hebdo.

Durante este período tenebroso, toda a gente opinou acerca dos acontecimentos de Paris. Não houve ninguém, excepto eu, que não tivesse algo a dizer sobre este assunto. A revista Charlie Hebdo era, até então, desconhecida da generalidade das pessoas, e os que a conheciam não a liam, os que a liam não a compravam, daí os problemas financeiros que atravessavam. O tema foi abordado a jusante, a montante, lateral, frontal, ou longitudinalmente, e até pessoas que eu não sabia que tinham opinião tiveram a desfaçatez de rabiscar umas linhas, mesmo que, sem nexo.

E eu? Não disse nada. E não direi porque acho que tudo já foi dito, a propósito e a despropósito. Tudo o que eu possa dizer, nada vem acrescentar ao que já foi esclarecido.

É por esse motivo que me debruço sobre um tema muito mais pacífico e acessível à minha sempre débil análise: os atletas amadores fundamentalistas.

Estou a abordar um tema com conhecimento de causa, sou um deles, mas não sou fundamentalista. Pratico fitness periodicamente para tentar evitar o alargamento calórico inerente ao pouco cuidado regime alimentar que pratico. A coisa não tem sido fácil porque mantenho um desempenho de elevado rendimento em redor de qualquer mesa, mas tenho maiores dificuldades no que diz respeito à assiduidade ao ginásio. Este regime desequilibrado torna difícil a manutenção da forma. De qualquer modo é uma luta diária que travo comigo próprio e da qual não me orgulho por tão facilmente ceder a tentações.



Ora o que me traz ao tema são outros atletas que conheço, e todos nós temos um amigo ou uma amiga, que não sendo atletas de alta competição se comportam como se realmente o fossem. Eu chamo-lhes os fundamentalistas do atletismo.

Normalmente começam por indicação médica, quando num check up geral o médico de família lhes recomenda exercício físico para combater o colesterol elevado, ou o excesso de peso, ou por isto, ou por aquilo. A atividade começa por uma boa causa, mas depois torna-se o pesadelo dos amigos.

Pesadelo porque a partir desse instante, eles vivem em exclusivo para o footing, o cross, as caminhadas, as míni maratonas, as maratonas, as ultra maratonas, as giga maratonas, o running, etc. Tal e qual um toxicodependente, a atividade torna-se um modo de vida. Este facto por si só, não é necessariamente mau, não fosse a excessiva publicitação do mesmo.

Os fundamentalistas atléticos, tentam evangelizar todos os que os rodeiam, não se cansam de impingir os benefícios para a saúde de tal atividade, chegando mesmo ao ponto de pensarem que vivem muito melhor que os outros. Acham mesmo que ser feliz sem praticar atletismo é uma impossibilidade existencial. Têm grande dificuldade em aceitar projectos de vida que não envolvam a modalidade.

O emprego é apenas um meio para obter os proventos necessários para alimentar o vicio: comprar equipamentos, suplementos alimentares, pagar viagens para provas no estrangeiro, inscrições, fins de semana atléticos. O sentimento de superioridade é tal, que chegam mesmo a afastar-se dos amigos que não praticam o mesmo ritual. Em relação à família, ou alinham com eles, ou são abandonados. Arranjam novos grupos formando tribos de interesse comum, tal e qual como os motoqueiros, ou os fumadores de cachimbo.

Todos os restantes temas da vivência humana deixam de ter importância. Só faz sentido estar a par das últimas novidades tecnológicas em termos de ténis, meias elásticas, óleos de massagem, ou suéteres. As conversas nem sequer podem ser acerca de desportistas de alta competição, porque eles não conhecem, não sabem quem são, não veem e não ouvem porque estão a treinar, e se não estão a treinar, estão a correr, quando não estão a correr, estão numa grande superfície na secção de desporto à procura do último modelo de ténis, que um outro fundamentalista já usa.

Os fundamentalistas atléticos são uma praga que urge erradicar ou esta síndroma é capaz de se multiplicar rapidamente. É por isso que só pratico cycling e fitness q.b.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A incomparável comparação




Com a recente reeleição de Cristiano Ronaldo para a terceira Bola de Ouro, veio de novo a controversa comparação incomparável com Eusébio, acerca da atribuição do título de melhor jogador português de sempre.

Devo referir que a eleição do melhor jogador do mundo não é titulo que muito me agrade, porque quando falamos de um desporto coletivo, não me parece legitimo todo o destaque e exagerada evidência que se atribui ao individuo.

Eusébio foi considerado pela IFFHS, federação internacional de estatística, como o nono melhor jogador do século XX.

Comparando as incomparáveis médias de golos por jogo:

Cristiano Ronaldo 0,57 golos/ jogo Eusébio 1,02 golos/ jogo

José Mourinho uma vez afirmou acerca de Eusébio:
“Se alguém pudesse estabelecer um paralelismo com aquilo que são os maiores jogadores de futebol actualmente e pensar no que ele seria hoje se tivesse 20 ou 30 anos... Acho que seria uma coisa assombrosa!”.

Patrick Kulivert, internacional holandês, disse numa entrevista:
“Fiquei conhecido como Pantera Negra por semelhanças com o seu jogo. Sabias que os miúdos das escolas do Ajax, dos 7 aos 14 anos, veem não sei quantas jogadas e superjogadas e uma delas, nunca mais me esqueci, é aquela do Eusébio no jogo com a Coreia do Norte, em que ele apanha a bola no meio campo, passa por um, outro, mais um e outro ainda, até ser carregado em falta dentro da área? Pois bem, é o vídeo que nos ensina o domínio da bola... Que jogada, a bola não lhe sai do pé...”

Karl Heinz Rummenigge, sobre Eusébio:
“Eu tinha 10 anos na altura do mundial de 66 e eu queria ser sempre o Eusébio nos jogos de rua, era o jogador da época, o exemplo a seguir, pela força física e pela capacidade técnica.”

Alfredo Di Stefano :
“Para mim Eusébio é o melhor de todos os tempos, uma força da natureza, um talento do outro mundo nos dois pés e uma impulsão fantástica capaz de cabeceamentos mortíferos. Um verdadeiro fora de série”.

Na minha maneira de ver Eusébio nasceu com as condições morfológicas para ser um atleta de eleição. Atingiu um nivel assombroso, apesar de ter sido operado 7 vezes aos joelhos. Independentemente do trabalho muscular desenvolvido na sua progressão na alta competição, não se pode comparar com a tecnologia que está ao dispor dos grandes astros do futebol atual.

Sempre jogou em Portugal, um país fechado, absolutamente ignorado pelo resto do mundo. Eusébio nunca jogou nos grandes centros de influência mediática, como Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha ou França. Foi impedido de jogar no estrangeiro por Salazar. A visibilidade foi conquistada nas competições europeias, porque o campeonato português era perfeitamente ignorado. Com as devidas diferenças, Portugal nos anos sessenta teria uma visibilidade europeia idêntica à que hoje temos da Albânia. Imaginem o que é dar destaque a um desportista com estas origens, tem forçosamente de ser muito superior à média para conseguir evidenciar-se.

Hoje Ronaldo tem uma máquina mediática que suporta e alimenta toda a sua espantosa visibilidade global. Todos os seus feitos têm uma repercussão imediata. Mal comparado, lembro-me do caso de David Beckham, um futebolista mediano, mas que graças a uma fantástica máquina promocional, atingiu uma projeção global.

A nível estatístico não há comparação possível. Na era Eusébio era muito raro um jogador de futebol fazer 40 jogos oficiais por época, hoje os atletas das melhores equipas do mundo, fazem cerca de 60 jogos por ano. Esta diferença serve para explicar a grande quantidade de recordes que são atualmente batidos.

Outra grande diferença tem a ver com os craques que coexistem em cada época.

Actualmente Cristiano Ronaldo tem apenas um fenomenal jogador ao seu nível: Lionel Messi. Todos os restantes estão a um nível um pouco mais baixo, casos de: Manuel Neuer, Frank Ribery, Zlatan Ibrahimovic, Arien Robben, Neymar, Gareth Bale, Luis Suarez, Aguero, Eden Hazard, etc.

Vejamos quem eram os craques contemporâneos de Eusébio:
Di Stefano, Péle, Puskas, Bobby Charlton, Beckenbauer, Cruyff, George Best, Garrincha, Lev Yashin, Gigi Riva. Todos estes nomes figuravam como atletas da primeira elite do futebol mundial e com potencial para ganhar a “Bola de Ouro”, mas este troféu não tinha nessa altura, os mesmos critérios de hoje.

Quando no Verão de 2009 Eusébio esteve na apresentação de Cristiano Ronaldo no Estádio Santiago Bernabéu, perante 85.000 adeptos; Alfredo Di Stefano, que foi o seu ídolo de sempre, virou-se para Eusébio e disse-lhe: “Isto serias tu...”.

Ronaldo é sem dúvida, o melhor jogador da atualidade. É um nome que nos enche de orgulho, pela visibilidade que nos dá pelo mundo fora. Recordo uma vez que fui a Roma e a primeira figura que me recebeu no aeroporto de Fiumicino, foi uma foto enorme de Cristiano Ronaldo a publicitar um perfume. Nas Maldivas quando disse a um dos nativos que vínhamos de Portugal, ele logo retorquiu com um largo sorriso: Ronaldo!

Mas não se pode comparar o incomparável.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Schubert, o génio que dormia de óculos


Oiço Schubert há muitos anos. As suas melodias simples e melancólicas que invocam paisagens de Inverno, transportam-me para um bem estar interior pleno de paz.

Schubert morreu em Viena no de 1828, aos 31 anos, sem dinheiro e dependente da ajuda de amigos. Muitos dos que estudaram a vida do compositor acreditam que foi vítima de sífilis.

Conta-se que, pouco antes da sua morte, manifestou seu último desejo: queria ouvir, na cama, o Quarteto nº 14, de Beethoven.

Actualmente não é tão conhecido popularmente como Beethoven. Não obstante, o seu contributo para a música é importantíssimo. Aliás, pode-se considerar a música de Schubert como uma perfeita transição entre os dois compositores. Era herdeiro do classicismo de Mozart, mas tinha já o espírito de renovação que levaria ao romantismo de Beethoven.

Nascido num subúrbio de Viena, em 31 de janeiro de 1797, Schubert foi cantor no Coro da Capela Imperial durante 6 anos. Depois trabalhou como professor de musica na escola primária do pai.

Durou pouco tempo este trabalho. Schubert foi despedido pelo pai, devido à sua indisciplina. Por vezes durante uma aula o jovem compositor escrevia uma composição no caderno de qualquer aluno. Os atritos com o seu pai eram constantes.

Schubert foi morar na casa de amigos, levando uma vida de boémia. Nunca se casou. Na sua única aventura amorosa contraiu a sífilis que mais tarde o levaria à morte prematura. Escrevia música pela manhã, passeava pela tarde e a noite ia para a casa de algum amigo apresentar as novas obras.

A sua vida em Viena não tinha amores fulminantes ou triunfos memoráveis. Foi simples, despretensiosa, preocupado apenas em fazer música. Vivia nas casas dos amigos, tocando esporadicamente, compondo uma ou outra peça por encomenda.

Aos 18 anos, já tinha escrito 203 peças musicais. Ao longo da sua curta vida escreveu cerca de 600 ” lieder”, pequenas peças sobre textos de Shakespeare e Goethe e outros poetas menores.

Chegou a ter grande sucesso com as suas “lieder”, mas o dinheiro auferido pela venda dos seus direitos autorais rapidamente desapareceu. As suas outras grandes obras não tinham o mesmo reconhecimento. Nunca chegou a apresentar publicamente nenhuma das suas sinfonias ou óperas.

Segundo relatos da época, Schubert escrevia como que em transe, em qualquer lugar, a qualquer hora. Mesmo durante a noite dormia de óculos para anotar mais rápido as ideias que tivesse.

As suas sinfonias não chegaram a ser apresentadas durante a vida. O próprio manuscrito da sua mais famosa obra a “Inacabada”, foi encontrado por acaso, 43 anos depois de sua composição.

Escrita em 1822, esta sinfonia é "inacabada" por ter apenas duas partes. Naquela época o usual era que as sinfonias tivessem quatro partes ou movimentos. Hoje é impossível saber porque ficou inacabada. A morte de Schubert, aos 31 anos não foi a causa, pois depois da Inacabada ele ainda escreveu mais uma sinfonia, num total de nove. Também não quis deliberadamente quebrar as regras vigentes. Prova é que chegou a escrever os oito primeiros compassos de um terceiro movimento, mas ficou por aí a obra...

Schubert pouco se importava com o que escrevia. Frequentemente esquecia manuscritos em bancos de jardim, casas de amigos, tavernas ou em qualquer outro lugar.

Embora não tenha realmente sido amado por nenhuma mulher e ter vivido numa pobreza constante, o temperamento de Schubert era sempre lembrado pelos amigos como muito alegre. Não deixa de ser paradoxal o contraste entre a melancolia da sua música e o espírito jovial relatado pelos amigos da época.

Ao contrário de Beethoven que revolucionou os conceitos musicais da época, Schubert respeitou as regras de então, mas sublimou-as a um nível genial, como hoje lhe é reconhecido.