Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

sexta-feira, 11 de março de 2016

Massificação da estupidez.


Alguém algures nos Estados Unidos achou interessante filmar um amigo a levar com um balde de água pela cabeça abaixo. Como essa imagem teve uma grande difusão pela Net, começaram a multiplicar-se pelo mundo inteiro filmagens de banhos que mais tarde vieram dar azo a uma campanha que tinha o objetivo meritório de recolher fundos para uma associação de doentes. Não há dúvida que o final foi feliz, mas não invalida que na sua génese esteve um acontecimento absolutamente ridículo e estúpido.

Os intelectuais da opinião dominam os media, eles falam de tudo. Dão pareceres imediatos aos mais difíceis problemas. É impensável alguém tornar-se politicamente relevante sem ter participado em algum painel de comentários quer político, quer desportivo. Exemplo cabal desse facto, os nossos actuais governantes são todos produtos de audiências televisivas.

Possivelmente conseguiriam o mesmo resultado de outra forma. Muitas vezes sem sabermos porquê surge um fenómeno global de repetição em que não conseguimos situar o motivo que despoletou tal evento.

Lembro-me do caso ocorrido na publicação da saga “50 sombras de Grey.” Ao lermos alguma das suas paginas, torna-se difícil explicar a razão de tal sucesso porque o texto não tem nível literário, por outro lado o desenvolvimento do tema não atinge nível suficiente para interessar alguém com um erotismo mais desenvolvido. O amor faz-se não se teoriza.

Depois foi lançado o filme, logo ocorreu fenómeno semelhante. Um produto bem embrulhado para ser consumido pelas massas. Não obstante a desilusão que se observava a quem regressou da sua exibição, o filme fez grandes receitas.

Tudo o que tenha uma linguagem simplista, direta e desprovida de arte, vende. Exemplo disso são os escritores “à la minuta” que pululam pela net, que sem o mínimo de condições estéticas, apelam ao raciocínio básico e fácil, tornando-se campeões de vendas, com trabalhos absolutamente descartáveis e que nada de novo trazem à cultura. Basta apelar a emoções básicas, frases feitas e enredos “deja vu” normalmente com finais felizes e têm sucesso garantido.

O recentemente falecido pensador italiano Humberto Eco colocou o dedo na ferida ao afirmar numa entrevista, uma grande verdade acerca daquilo em que se está a transformar o homem moderno.

Disse Eco:
“As redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que, antes destas plataformas, apenas falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a colectividade. Normalmente, eles eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel. O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade.”

Existem imbecis com formação académica. Os imbecis de que fala Eco nada têm a ver com nomenclaturas académicas. Ele refere-se aos cretinos e à ausência de sentido crítico que abunda nos dias de hoje entre nós. Cada vez mais as pessoas agem como carneiros por medo de serem excluídos de um grupo.

Torna-se difícil explicar que é importante termos uma ideia do contexto geográfico em que estamos inseridos. A geopolítica pode ser determinante nas decisões que tomamos nas nossas vidas, mas quem entende isso? Nem sequer compreendem o que têm esses temas a ver com as suas vidas.

Quando observamos que entre a nossa juventude acham que não é necessário saber de geografia, o que é a ONU ou a UE. Preocupa-me o niilismo desta gente. Esta incultura deve ser bloqueada. Temos de disponibilizar toda a informação para que haja um bom critério nas escolhas e para melhorar a qualidade das decisões.

As acções não são reflectidas, são puramente imediatistas, as consequências não são medidas, são desvalorizadas. Por vezes ocorrem situações atrozes de desculpabilização, exactamente porque alegam não estar na posse de toda a informação na tomada de decisão.

A partilha de sentimentos, intimidades e interesses pessoais via internet, tornam as pessoas reféns de atitudes e actuações de grupo. Faz com que reajam de acordo com um enquadramento colectivo, receando serem excluídas por não partilharem dos mesmos interesses que os seus pares. A necessidade de aceitação e o medo de represálias limita o sentido crítico.

Este epifenómeno condiciona o raciocínio das mentes mais frágeis que não conseguem discernir entre o que é melhor para cada individuo “per si” e o que no colectivo se sobrepõe. Cercado por um totalitarismo populista o individuo vive o logro da individualidade, nada mais sendo do que uma pequena peça de um ardiloso engenho manipulador.

O conhecimento de um povo é “conditio sine qua non” para o seu desenvolvimento. Ora se esse conhecimento é reduzido, as possibilidades de sucesso serão também reduzidas. Mas na verdade toda a gente tem direito à estupidez. Porque embora ela abunde, existe muita informação e conhecimento e cada um, no seu próprio discernimento, faz a sua escolha.

Sempre que alguém segue uma tendência porque sim, estamos na presença de uma pessoa que não pensa pela sua cabeça. Embora tenha tomado uma opção, trata-se de uma decisão compulsiva, sem sentido crítico, sem qualquer esforço de escrutínio, limita-se apenas a seguir a tendência porque assim garante que vai estar de acordo com a maioria. São situações que se verificam diariamente.

Os produtos são massificados pela publicidade de forma a condicionar a decisão. “Se as outras pessoas têm, eu também vou ter, senão corro o risco de estar fora de moda”.

Se pensarmos em programas de televisão baseados em reality shows, podemos observar o nível de audiências que atingem. Por outro lado os temas que são abordados pelos personagens que neles actuam, são o espelho do nível cultural que actualmente vivemos.

É este o problema que vivemos com a democratização dos meios de informação, ela leva à massificação da estupidez.

solar




Azul, polido
Transparente, diferente
Translucido, quente
Sempre, permanente
Ondulante em verde
Laranja telhado
Moinho redondo
De novo transparente
Sempre, diferente
Calmo, torrente, ardente
Presente...
Um pássaro que pousa
Voando, pousando, pausando
Ave pernalta
Saltita no espelho
Água flutuante
Contente, reluzente
A brisa bafeja,
Com hálito de maresia
Magenta brilhante
A prata refletida
E o som sereno
Sinaliza manso
O movimento perpétuo
Da Natureza brilhando.

domingo, 20 de setembro de 2015

ser ou estar?


E porque escrevo?
Talvez por não saber fazer outra coisa


Talvez porque não tenha inspiração suficiente para ser pragmático
Talvez porque não tenha coragem para gritar,
Saltar, sair e fugir
Então escrevo...

E um dia afasto-me da escrita
Vai-me demonstrando que de nada serve
Ser pragmático é não escrever
É não ser.
Existir é não ser
Porque ser é complexo
Existir é simplesmente estar

Os ingleses não têm razão no verbo to be
Porque ser não é o mesmo que estar.
Ser é muito mais complicado, implica permanência, não é episódico
A escrita é aquilo que permanece no fim quando tudo acaba
É a escrita que nos deixa para sempre vivos
E o que existir deixa de ser, pura e simplesmente desaparece e o ser permanece
Então concluo que escrevo para ser e para deixar de existir.

domingo, 6 de setembro de 2015

Migrantes - ajudar sim, integrar não...



Eu nasci em Angola e vim de lá com os meus pais em 1975, portanto não sou um retornado, sou um refugiado.

As minhas raízes sempre foram lusas, as dificuldades na nova vida não foram diferentes de tantas outras crianças portuguesas, exceptuando talvez, as temperaturas. Recordo-me de ter passado muito frio nos primeiros anos na Europa.



A procura por uma vida melhor é um apelo da condição humana. Os portugueses são por natureza um povo migrante, temos comunidades espalhadas pelo mundo inteiro, somos um povo com grande facilidade de adaptação e integração, pelo que entendemos bem a tragédia por que passam os migrantes desta era. Mas existem diferenças culturais significativas entre nós e estes povos.

Recentemente estive em Londres, Paris e Munique. A diversidade étnica destas cidades é imensa. Os românticos poderão falar de cosmopolitismo, é verdade que sim, existe, mas do que observei posso antever que vão ter problemas muito sérios num futuro próximo. Grande parte dos imigrantes Islâmicos não estão integrados, penso que por vontade própria...Existem espaços inúmeros nestas cidades onde a tensão é latente.

Por estes motivos discordo que se fale em integração. A aculturação tem de ser voluntária e individual. Compete a cada indivíduo fazer pela vida. por outro lado, se for massiva e imposta resulta em guetos...

Os migrantes que agora se refugiam na Europa, foragidos da guerra e perseguição nos seus países, vêm para uma realidade completamente diferente daquela que vivem. Para além das enormes diferenças culturais, sobrevem a religião que no caso em análise é absolutamente estruturante nas sociedades islâmizadas o que inviabiliza praticamente a integração. Não estamos a falar de países moderadamente islâmicos.

A grande maioria dos migrantes são oriundos de Estados em que a religião tem um poder esmagador nas suas vidas e note-se, por vontade propria da grande maioria da população. São portanto povos que convivem mal com a democraticidade de um Estado laico.

Já se verificaram alguns episódios de intolerância religiosa por parte de grupos de migrantes. Por exemplo: vários grupos rejeitarem ajuda da Cruz Vermelha, exactamente por ter uma cruz como símbolo. Temos de saber lidar com este tipo de problemas, não com intolerância mas sim com compreensão e humanismo.

Claro que temos a obrigação de lhes prestar a ajuda humanitária de que necessitam, mas esta acção terá de ser meramente conjuntural até que se resolva o problema de fundo, a reintegração das populações nos seus países de origem.

A Europa precisa de ajuda para resolver este problema.


Neste momento só resta a solução militar, para isso terão de combater os grupos radicais de uma forma massiva, nos territórios que agora ocupam. A Europa tem de conseguir a ajuda das grandes potências militares globais (como a Rússia e os Estados Unidos) e das potências regionais (como Turquia e Irão). Só envolvendo todas estas vontades poderão obter um resultado rápido e duradouro.

Só eliminando a gênese do problema poderemos criar condições para o retorno e normalização das suas vidas.

A normalização do dia a dia nos países que actualmente estão destruturados, levará ao regresso voluntário das populações agora em migração.

Mais do que isso. Os países de origem têm de ter condições para reterem as suas populações. Para isso necessitam de empregos. A Europa em vez de deslocalizar a produção de bens de consumo para o Oriente, como tem feito, deverá instalar os seus centros de mão de obra nos países que nos circundam na bacia do Mediterrâneo.


Se este assunto for tratado desde já, será relativamente rápido, caso contrário caminharemos para uma guerra civilizacional sem precedentes...

Para memória futura, recordo que escrevi este post em Setembro de 2015, veremos o que se irá passar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

David Purley, o espectador acidental...




Quando se realizou o grande Prémio de Formula 1 da Holanda em 1973, no circuito de Zandvoort, tinha eu 7 anos. Vivia em Angola e não tinha televisão, por isso não pude assistir em direto à morte do piloto britânico Roger Williamson. Só anos mais tarde ouvi falar na tragédia que ocorreu nesse dia 29 de Julho. Quando vi as imagens das gravações da época fiquei estarrecido.

Zandvoort foi a segunda corrida de Williamson na Formula 1. Pilotava um March que tinha partido a meio do pelotão, numa grelha onde o melhor tinha sido o Lotus de Ronnie Peterson. Na volta seis, quando era 13º, um furo provocou uma batida nos “rails” na curva Scheivlak, o carro capotou, incendiou-se e Williamson ficou virado de cabeça para baixo, não podia sair.

David Purley, um piloto privado e seu amigo, seguia na 14ª posição. Parou o seu March e correu em direcção a Williamson, tentou virar o carro, pois sabia que ele estava vivo. Entretanto, o incêndio espalhava-se e os comissários do circuito assistiam passivos, julgavam que o carro que Purley estava a virar… era o dele próprio!

Sabendo o que se passava, Williamson gritou para Purley: “Por Amor de Deus, David tira-me daqui!”.

Purley tentava o impossível, pedia aos comissários para o ajudar, pedia para que os outros carros parassem. Mas estes não o fizeram, a organização não tinha interrompido a corrida limitando-se a assinalar o local com uma bandeira amarela.

Impotente perante o que estava a acontecer, Purley saiu do local a chorar compulsivamente, enquanto a corrida continuava. Só quando os comissários finalmente apagaram o fogo é que viram a realidade. Roger Williamson estava carbonizado. O promissor piloto inglês de 25 anos, que tinha ganho tudo na Formula 3 britânica, estava morto na sua segunda corrida da carreira. Por todo o mundo se assistiu à tragédia que havia sido transmitida em direto.

Mais tarde o diretor da prova tentou justificar o ocorrido com um mal entendido, disse que ninguém percebeu que estava um piloto dentro do carro, toda a gente pensou que o carro era o de Purley. O assunto nunca foi entregue à justiça.

David Purley foi condecorado com a medalha George Cross, a mais alta distinção inglesa por coragem em situações de salvamento, recebeu ainda mais 12 outros prémios.

Foi graças ao negócio de família, a fábrica de frigoríficos LEC, que David Purley cresceu num berço de ouro. Mas o berço de ouro não o inibiu do gosto pela aventura. Descobriu desde cedo o prazer de voar e incentivado pelo pai, tirou o brevet aos 16 anos. Nessa altura, era o mais jovem a fazê-lo no Reino Unido.

Contudo, pouco depois decidiu alistar-se no exercito britânico, no Regimento de Pára-Quedistas. Em 1967 durante um salto de treino o seu páraquedas falhou parcialmente a abertura, mas David sobreviveu ao salto.

Após ter cumprido o serviço militar em 1968, Purley foi atraído para o mundo dos automóveis pelo seu amigo Derek Bell que começava a ter uma carreira bem sucedida nas corridas. Vendo o automobilismo como um bom motivo para manter os seus níveis de adrenalina, comprou um AC Cobra e começou a vencer algumas corridas. Em 1970 decidiu mudar-se para os monolugares.

Nesse ano, comprou um velho chassis Brabham de Formula 3 e decidiu formar uma equipa, a LEC Refrigeration Racing, batizando-o com o nome da empresa da família. Foi nessa altura que conheceu Roger Williamson.

Williamson era um dos melhores do seu tempo, dominava a Formula 3, acabando por vencer três títulos entre 1971 e 1972.

Em 1972, Purley mudou-se para a Formula 2, onde arranjou um chassis March. Não conseguiu mais do que um terceiro lugar nas ruas da cidade francesa de Pau, arrebatando apenas os quatro pontos dessa corrida.

Em 1973 começou a temporada na Formula Atlantic, arranjou um March 731 de Formula 1. Tal como nas outras vezes, inscreveu-o com a equipa LEC Refrigeration e participou em algumas corridas.

Estreia-se na Fomula 1 no GP do Mónaco. A sua segunda prova será apenas em Julho, em Silverstone, mas sofre um despiste logo na primeira volta.

Vai ser na terceira corrida em que participa, o GP da Holanda, que o seu nome ficará conhecido no mundo inteiro. Partindo da 21ª posição, Purley ganhou algumas posições até à oitava volta, quando viu acidentar-se o outro March de Roger Williamson, o que se passou depois já vos contei.

Purley voltou a correr no GP de Itália, terminando a corrida no nono posto, que viria a ser a sua melhor prestação na categoria máxima do automobilismo.

A partir do ano seguinte, concentrou-se na Formula 5000, competindo a bordo de um Lola. Essa passagem foi um sucesso, sendo campeão em 1976. Após esta conquista decidiu que era altura de voltar à Formula 1.

Em 1977 cria o seu próprio monolugar com a ajuda de alguns técnicos de renome na Fórmula 1, o LEC CRP1 estreou-se em Jarama no GP de Espanha, mas acabou por não se qualificar. A corrida seguinte seria em Zolder, na Bélgica. E aí, Purley deu nas vistas.

Durante a corrida, apareceu-lhe o Ferrari de Niki Lauda que o pressionou durante muitas voltas, mas Purley não cedeu. Terminou na 13ª posição. No final perguntou de modo sarcástico ao seu mecânico:

“Quem era aquele idiota do carro vermelho?”

Lauda ouviu a pergunta e tiveram uma troca de palavras em que o austriaco chamou a Purley “coelho” e este respondeu-lhe, chamando-o “rato”.

Purley não deixou o episódio passar em claro. Na corrida seguinte, o GP da Suécia, colocou o desenho de um coelho no chassis do seu carro. Lauda achou piada e apareceu com a palavra “Rato” escrita no seu capacete, e assim com alguns risos foi sanado o incidente entre os dois.

No GP da Grã-Bretanha, dado o grande número de carros inscritos, os organizadores tiveram de realizar uma pré-qualificação. David Purley tentou o seu melhor, mas na segunda sessão de treinos, o acelerador do seu LEC ficou preso e o carro embateu fortemente nas barreiras de proteção, David sofreu graves lesões nas pernas, na pélvis e no tórax. Mas sobreviveu.

Esteve quase um ano a recuperar dos ferimentos. Após ter feito uma corrida com um Porsche 924 em Brighton, voltou ao cockpit do seu LEC em 1979, para disputar a Aurora Series, o campeonato britânico de Formula 1. Para além do LEC, também tripulou um Shadow, com alguns resultados de relevo, mas no final desse ano, decidiu abandonar a carreira de piloto.

A partir de então resolveu dar uso ao seu brevet de aviador, Purley começou a dedicar-se à acrobacia aérea. Contudo, a 2 de Julho de 1985, quando fazia acrobacias ao largo da sua cidade natal, Bognor Regis, no Pais de Gales, calculou mal uma manobra e caiu nas águas do Canal da Mancha. Tinha 40 anos de idade.

O seu corpo nunca foi encontrado.