Tratamento de temas interessantes de uma forma desinteressante. Abordagem inconsequente acerca da consequência das coisas. Tudo será devidamente tratado, mas sem qualquer resolução. Os leigos também têm direito a opinião...

domingo, 25 de setembro de 2016

Conduzido por mim...

Estou realmente só quando conduzo e me sinto bem comigo

No carro, estou entregue a mim, nos meus pensamentos, confortável

No exterior sopra o vento, forte, frio, mas cá dentro estou em paz e sossego

A velocidade passa, por fora, não me afecta cá dentro

Não quero ouvir o rádio, a interacção de pensamentos e interjeições distraem-me

Não telefono para ninguém, porque me ocuparia o silêncio e eu gosto de estar só, apenas comigo

E no que penso ?

Penso que realmente esta curva pode ser feita sem travar, segurando o carro simplesmente com a direcção e a caixa de velocidades, uma certa sensação de controlo, segurança e auto-confiança

Lá fora o vento continua a soprar forte, cá dentro a temperatura é amena, a calma é confortável, dá-me espaço e a clarividência de que podia ter ido mais longe, mais rápido, podia ter sido mais franco, mais amigo, mais pleno, mais completo, podia ter sido tudo aquilo que gostaria de ser


Mas no passado não foi assim, a vida colocou-me em situações de descrença de desconfiança, de desconforto financeiro, de ansiedade, de dúvida, a ingenuidade confundiu-me, a pureza esvaiu-se

Instalou-se a incerteza, tornei-me um encenador de mim próprio, um actor descontrolado que foi pedindo conselhos, sabendo que se fossem bons não eram gratuitos e seriam seguidos pelos próprios

Agora sigo nesta viagem calma, silenciosa, numa das estradas secundárias do nosso país, um brilho de Sol interditado por algumas nuvens plenas de graça, vazias de nada, eu conduzido por mim e assim tomo consciência de que renasceu a confiança de seguir em frente, o meu caminho

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Opulência sentimental

Quando estamos felizes podemos estar a ferir alguém.


Eu acredito que o mundo é constituído com base em antagonismos exactamente como definiu Heraclito na sua dialética universal, em que tudo o que existe é fruto do equilíbrio que resulta do confronto entre opostos.
Portanto sempre que nos sentimos felizes há alguém, algures a sofrer com isso.
A nossa felicidade é invejada, causa desconforto nos outros que não a vivem. É posta em causa, gera desconfiança e lança a duvida.

Aquele que demonstra o seu estado de alma aos quatro ventos é porque no fundo esconde qualquer coisa, lança-se a dúvida.

Quando a dúvida não resulta começa o processo de intriga e má-lingua. Nesta fase inicia-se um afastamento silencioso mas nada respeitoso, apenas estratégico.
Nos bastidores de tudo a ignorância vai fazendo o seu caminho de mão dada com a arrogância da estupidez.
Mesmo aqueles a quem ajudaste não te reconhecem o mérito, apenas te devolvem inveja e desprezo.
Sentem-se desrespeitados por não viveres na zona cinza da vida, como eles.
O despeito que sentem leva-os a baloiçarem muito facilmente entre um descabido excesso de auto estima e uma profunda insegurança nascida da falta de amor-próprio.

O seu próprio umbigo é o centro do universo e para além deles nada mais existe.
Tenta afastar-te dessas pessoas. Se por motivos de força maior tal não for possível, então só te resta uma saída, tens de largar essa opulência sentimental e viver esses momentos para ti e para os teus, aqueles que realmente te amam.


Não sejas extravagante na exibição da felicidade, por dois motivos. O primeiro é o mais obvio, a felicidade é um estádio passageiro e intermitente, é por isso muito fugaz. O segundo motivo é menos evidente, mas muito mais contundente, a inveja de terceiros. Eles podem fazer-te a vida negra, não vão descansar enquanto não te virem na mó debaixo, “Eu não disse que aquilo não durava muito, vês?”, "Era só fogo de vista..."

A felicidade deve ser vivida em recato e paz, sem exibicionismo, senão a coisa pode correr mal. O sucesso incomoda os néscios. 

As tristezas sim devem ser partilhadas. O fracasso desperta solidariedade. Essas pessoas gostam de ver o outro em baixo, por dois motivos. O primeiro tem a ver com eles próprios, sentem-se melhor porque existe outro que está bem pior. O segundo motivo porque têm a oportunidade de oferecer ajuda, o que é uma boa forma de afagar o seu ego, sentindo-se úteis.

Portanto o melhor é partilhares as tristezas e guardares os momentos felizes para ti e para os teus.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O que poderia ter sido...


Um rapaz simpático com propensão para não ser levado a sério. Um pouco infantil mas sem padecer do complexo de Peter Pan, austero no aspeto, vago nas conversas porque muito do que era dito tinha origem desbocada e carecia de confirmação. Mas sempre, sempre a conversa fácil mesmo que a despropósito. Um autêntico palhaço de si próprio.

Em tempos fora meu colega de trabalho. O pai havia-se zangado com ele. Sendo meu amigo senti-me na obrigação de ajudar. Eu na altura vivia sozinho, ele sempre podia ajudar a pagar a prestação. Durante 6 meses partilhamos a casa, depois ele casou e saiu.

Entretanto mudei de local de trabalho e perdemos o contacto, mas havia um telefonema de quando em vez ao longo dos anos, sempre por iniciativa dele.

Todos os Natais me ligava a desejar “Boas Festas para ti e para os teus”. Por vezes um telefonema sobre algum tema que envolvia alguém nosso conhecido, outras vezes eu não conhecia e ele estranhava, porque na verdade ele tinha muita facilidade em falar com toda a gente.

Entrementes passaram vinte e cinco anos de um ligação superficial e longínqua, entrecortada com sentimentos de culpa da minha parte por ser sempre ele a ligar. Por vezes eu não atendia, estava muito ocupado, mas sempre devolvi as chamadas. De novo as conversas ocas sem bem nem mal, simplesmente assim conversas de circunstancia.

Com todas as cambiantes da vida, torno a cruzar-me profissionalmente com ele no inicio deste ano. Foi ele que me recebeu e encaminhou na apresentação aos novos espaços, às novas pessoas. Tudo isto da forma mais natural do mundo como sempre foi, sem pedir nada em troca.

Surge então a reestruturação da nossa empresa, ele é um dos selecionados para sair. É convocado para a assinatura da carta de rescisão, pede-me para estar presente e para o orientar em relação ao processo de desvinculação. Nessa altura surpreendeu-me quando me confessou que estava num processo de divorcio após 25 anos de casamento.

O peso das circunstancias fazia-se sentir. Passou cerca de um mês em que de vez em quando lhe liguei. Pareceu-me deprimido, mais pela separação do que pelo despedimento. Tentei animá-lo, puxei-o para cima, que tudo haveria de correr bem, disse-lhe que agora teria de olhar em frente e seguir.

No ultimo telefonema que tivemos foi ontem. Disse-lhe que havíamos de almoçar um destes dias, ele respondeu-me que sim...

Mas já não vamos, o Alberto Lisboa suicidou-se hoje de madrugada atirando-se da varanda de um sétimo andar.

Nunca irei saber se tudo poderia ter sido diferente se tivéssemos ido almoçar no próprio dia...

Adeus amigo, desculpa não ter estado mais atento...




segunda-feira, 16 de maio de 2016

Agora sou Tri...

Em Outubro quando perdemos na Turquia frente ao Galatasaray e logo a seguir na Luz frente ao Sporting, pus-me apático, descrente na táctica imprecisa de Rui Vitória. A falta de reacção à adversidade que a equipa revelava avisava-me que viriam dias ainda piores. As coisas foram andando sem grandes motivos para regozijo, entre jogos assim, assim e outros muito sofríveis.

Mas eis que surge o mago da táctica, o catedrático do futebol, Jorge Jesus. A sua falta de educação e o seu ego inflamado provocaram as hostes mais desconfiadas do meu clube. Os ataques soezes que fez ao nosso treinador, nada mais fizeram do que acicatar o benfiquismo adormecido em todo clube. E unidos partimos para conquistar aquele titulo que, para mim é dos mais saborosos de sempre.

No inicio do campeonato éramos considerados os “under dogs” dos três grandes, aqueles que tinham o plantel mais fraco, porque os outros investiram e nós desinvestimos.

Cedo nos apercebemos que o Porto ia ter dificuldades. Pinto da Costa tardou a entender que Lopetetgui, em boa hora, descaracterizou o jogo da equipa. Mesmo assim vacilámos no jogo da Luz, já com Péseiro, em que eles venceram sem nada terem feito para que isso sucedesse.

O reverso da medalha ocorreu em Alvalade, num jogo que vencemos exactamente da mesma forma, com a diferença de que na Luz havíamos criado mais chances de golo do que o Sporting viria a criar.

A partir desta altura a choradeira leonina não mais parou, não vamos falar de erros de arbitragem, que os houve para ambos os lados e ainda tenho sérias duvidas de quem terá sido mais beneficiado. Falo antes dos jogos de bastidores ditados pelo evidente complexo de inferioridade colectivo de que padecem os dirigentes leoninos.

Para se valorizarem recorrem à menorização dos adversários, em vez de privilegiarem os seus atributos preferem denegrir os dos outros.

Nunca ouvirão da minha parte algum comentário a subvalorizar um enorme jogador como João Mário, muito gostaria que jogasse na minha equipa.



Ainda o subterfúgio da vitoria moral: “Não ganhamos mas jogamos melhor.” Não estamos a falar de natação sincronizada ou de patinagem artística, aí sim existem notas artísticas para quem actua. O Brasil no Mundial de 1982 foi a selecção que apresentou o futebol mais vistoso e ganhou o quê? Nada, foi eliminado pela Itália nos quartos-de-final.

Chamo a atenção a uma grande parte de adeptos leoninos que preferem acreditar numa ladainha estafada de calimeros que perdem tudo por injustiça.

Deviam antes questionar-se sobre as prioridades, cuja lenga-lenga Jorge Jesus já utilizava no Benfica, e a inerente falta de resultados. O investimento desmedido que acarretava um discurso de inevitabilidade de apuramento para a Liga dos Campeões que não se concretizou. A irresponsável redução do património do clube, na perda de activos a custo zero ou abaixo do mercado. As disputas jurídicas consecutivamente perdidas e com prejuízos directos nas contas do clube. As disputas internas tornadas publicas por populismo e por necessidade de defesa. A falta de resultados desportivos pode ser ocultada em discursos bacocos e demagógicos feitos no Facebook, mas não compõem a tesouraria.

Não podem iludir os adeptos para sempre, porque uma mentira não é por ser repetida muitas vezes que se torna verdadeira.

Se perdem no hóquei patins é porque foi uma injustiça, se perdem no andebol ou no futsal foram roubados, se perdem no râguebi é porque não estavam preparados, nunca acontece haver mérito dos adversários. Em relação ao voleibol ou no basket não há queixas porque também não têm equipas na primeira divisão.

Não tenho dúvidas que o Benfica está no caminho certo. Sem cometer loucuras, havemos de continuar a ter uma equipa competitiva baseada nos valores que nos caracterizavam há muitos anos atrás, baseando-se na força do clube, na sua formação, tentando projectar novos valores que mais cedo ou mais tarde serão a base da nossa selecção, mesclando a irreverência própria da juventude com a experiência de alguns jogadores já identificados com a mística do clube.

Estou crente que vamos alcançar o tetra, mas se não conseguirmos não será nenhum drama. No desporto há que saber ganhar e saber perder, temos é de manter o legado de orgulho que recebemos da geração anterior e entregá-lo às gerações futuras, porque o Benfica é imortal...

segunda-feira, 28 de março de 2016

“Pimenta no cú dos outros para mim é refresco”...


Hoje presto a minha homenagem aos meus colegas de trabalho que foram convidados a rescindir contrato com uma empresa que ajudaram a fazer crescer.


Muitas vezes prejudicaram as suas próprias vidas familiares porque era preciso apresentar-se no local de trabalho fora de horas e mesmo durante os fins de semana.

Alguns deles trabalharam na empresa mais de 30 anos. É desnecessário explanar os episódios caricatos, dramáticos ou simplesmente quotidianos em que sempre colocaram o profissionalismo acima de qualquer vantagem pessoal.

Será impossível contabilizar o rendimento que ajudaram a aportar à empresa, os clientes que captaram, que ajudaram a criar e a fazer crescer, os postos de trabalho que ajudaram a gerar, a riqueza que trouxeram aos acionistas, os impostos que ajudaram a coletar e tudo isto para o bem comum.

Ao longo de todos estes anos fizeram quase de tudo na empresa. Contribuíram para desenvolvimento de projetos de inovação, quer a nível de ações piloto, quer com muitas ideias que foram postas em pratica.

Durante estes anos tiveram convites de muitas outras empresas do ramo, mas não aceitaram por estarem convictos de seguirem na direção certa.

De forma geral as avaliações profissionais foram sempre acima da média. Foram promovidos por mérito várias vezes ao longo da carreira. Folhas disciplinares limpas. Níveis de absentismo irrelevantes.

Muitos fizeram a sua formação académica já em pleno desempenho de funções, em cursos pós laborais, com o sacrifício do tempo que deveria ser dedicado à família. Na sua maioria nem se aperceberam do crescimento dos filhos.

Muito embora não me recorde de em algum momento terem contribuído para a situação em que se encontra a empresa, não ponho em causa a necessidade do seu redimensionamento mesmo sob o custo da redução de empregados. Na verdade o mercado já não permite estruturas tão pesadas.

O que questiono é a forma absolutamente surreal como a mesma está a ser levada a cabo.

Existem casos de pessoas convidadas a sair que não são surpresa para ninguém. Nas grandes organizações, existem sempre elementos deslocados, desmotivados e não produtivos por um motivo ou por outro. Não são esses casos que me incomodam...

Verifico que a extinção de uma função acarreta a extinção do colaborador independentemente do seu valor. Então estamos perante uma situação perversa em que se "deita pela janela o bebé junto com a água do banho".

Elementos de muito valor para a empresa são dispensados só porque estavam no local errado à hora errada, outros que nada produzem, que apenas têm direitos e não sentem que tenham deveres, permanecem.

É evidente que as equipas são formadas por critérios que só aos decisores dizem respeito, não discuto. Sei no entanto, que o mérito não é um desses critérios.

Os colegas de que falo, agora dispensados, não são nenhuns malandros, não fizeram mal a ninguém, não prejudicaram ninguém. Antes pelo contrário, ajudaram muita, mesmo muita gente a subir na carreira.

Foram correspondendo aos desafios que lhes foram propostos ao longo das carreiras e fizeram crescer a empresa. E agora, por erros que não lhes podem ser imputados, são eles os bodes expiatórios dos pecados dos gurus da gestão que os arrastaram até este ponto.

Eu fiquei de fora por mera sorte, não estava no lugar errado à hora errada. Não os abandonei. Tentei apoiá-los o mais que pude mas senti-me frustrado porque pouco podia fazer para além apoio moral.

Ao longo do processo fui assistindo a aconselhamentos sintéticos e superficiais por parte de pessoas que não estavam envolvidas. É fácil opinar quando não se tem de arcar depois com o peso da decisão. Por outro lado assisti ao alheamento dos outros que não tinham sido selecionados para o despedimento, com certeza aliviados por não terem sido contemplados.

Conforme diz o adágio brasileiro: “Pimenta no cú dos outros para mim é refresco”...

Neste processo kafkiano, fica aqui o meu lamento por aqueles que ficaram sem saber do que foram culpados.

São credores de todo o meu respeito e conhecendo-os sei que vão vingar nos desafios que a partir de agora entendam abraçar...

Obrigado por tudo o que comigo partilharam.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Massificação da estupidez.


Alguém algures nos Estados Unidos achou interessante filmar um amigo a levar com um balde de água pela cabeça abaixo. Como essa imagem teve uma grande difusão pela Net, começaram a multiplicar-se pelo mundo inteiro filmagens de banhos que mais tarde vieram dar azo a uma campanha que tinha o objetivo meritório de recolher fundos para uma associação de doentes. Não há dúvida que o final foi feliz, mas não invalida que na sua génese esteve um acontecimento absolutamente ridículo e estúpido.

Os intelectuais da opinião dominam os media, eles falam de tudo. Dão pareceres imediatos aos mais difíceis problemas. É impensável alguém tornar-se politicamente relevante sem ter participado em algum painel de comentários quer político, quer desportivo. Exemplo cabal desse facto, os nossos actuais governantes são todos produtos de audiências televisivas.

Possivelmente conseguiriam o mesmo resultado de outra forma. Muitas vezes sem sabermos porquê surge um fenómeno global de repetição em que não conseguimos situar o motivo que despoletou tal evento.

Lembro-me do caso ocorrido na publicação da saga “50 sombras de Grey.” Ao lermos alguma das suas paginas, torna-se difícil explicar a razão de tal sucesso porque o texto não tem nível literário, por outro lado o desenvolvimento do tema não atinge nível suficiente para interessar alguém com um erotismo mais desenvolvido. O amor faz-se não se teoriza.

Depois foi lançado o filme, logo ocorreu fenómeno semelhante. Um produto bem embrulhado para ser consumido pelas massas. Não obstante a desilusão que se observava a quem regressou da sua exibição, o filme fez grandes receitas.

Tudo o que tenha uma linguagem simplista, direta e desprovida de arte, vende. Exemplo disso são os escritores “à la minuta” que pululam pela net, que sem o mínimo de condições estéticas, apelam ao raciocínio básico e fácil, tornando-se campeões de vendas, com trabalhos absolutamente descartáveis e que nada de novo trazem à cultura. Basta apelar a emoções básicas, frases feitas e enredos “deja vu” normalmente com finais felizes e têm sucesso garantido.

O recentemente falecido pensador italiano Humberto Eco colocou o dedo na ferida ao afirmar numa entrevista, uma grande verdade acerca daquilo em que se está a transformar o homem moderno.

Disse Eco:
“As redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que, antes destas plataformas, apenas falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a colectividade. Normalmente, eles eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel. O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade.”

Existem imbecis com formação académica. Os imbecis de que fala Eco nada têm a ver com nomenclaturas académicas. Ele refere-se aos cretinos e à ausência de sentido crítico que abunda nos dias de hoje entre nós. Cada vez mais as pessoas agem como carneiros por medo de serem excluídos de um grupo.

Torna-se difícil explicar que é importante termos uma ideia do contexto geográfico em que estamos inseridos. A geopolítica pode ser determinante nas decisões que tomamos nas nossas vidas, mas quem entende isso? Nem sequer compreendem o que têm esses temas a ver com as suas vidas.

Quando observamos que entre a nossa juventude acham que não é necessário saber de geografia, o que é a ONU ou a UE. Preocupa-me o niilismo desta gente. Esta incultura deve ser bloqueada. Temos de disponibilizar toda a informação para que haja um bom critério nas escolhas e para melhorar a qualidade das decisões.

As acções não são reflectidas, são puramente imediatistas, as consequências não são medidas, são desvalorizadas. Por vezes ocorrem situações atrozes de desculpabilização, exactamente porque alegam não estar na posse de toda a informação na tomada de decisão.

A partilha de sentimentos, intimidades e interesses pessoais via internet, tornam as pessoas reféns de atitudes e actuações de grupo. Faz com que reajam de acordo com um enquadramento colectivo, receando serem excluídas por não partilharem dos mesmos interesses que os seus pares. A necessidade de aceitação e o medo de represálias limita o sentido crítico.

Este epifenómeno condiciona o raciocínio das mentes mais frágeis que não conseguem discernir entre o que é melhor para cada individuo “per si” e o que no colectivo se sobrepõe. Cercado por um totalitarismo populista o individuo vive o logro da individualidade, nada mais sendo do que uma pequena peça de um ardiloso engenho manipulador.

O conhecimento de um povo é “conditio sine qua non” para o seu desenvolvimento. Ora se esse conhecimento é reduzido, as possibilidades de sucesso serão também reduzidas. Mas na verdade toda a gente tem direito à estupidez. Porque embora ela abunde, existe muita informação e conhecimento e cada um, no seu próprio discernimento, faz a sua escolha.

Sempre que alguém segue uma tendência porque sim, estamos na presença de uma pessoa que não pensa pela sua cabeça. Embora tenha tomado uma opção, trata-se de uma decisão compulsiva, sem sentido crítico, sem qualquer esforço de escrutínio, limita-se apenas a seguir a tendência porque assim garante que vai estar de acordo com a maioria. São situações que se verificam diariamente.

Os produtos são massificados pela publicidade de forma a condicionar a decisão. “Se as outras pessoas têm, eu também vou ter, senão corro o risco de estar fora de moda”.

Se pensarmos em programas de televisão baseados em reality shows, podemos observar o nível de audiências que atingem. Por outro lado os temas que são abordados pelos personagens que neles actuam, são o espelho do nível cultural que actualmente vivemos.

É este o problema que vivemos com a democratização dos meios de informação, ela leva à massificação da estupidez.

solar




Azul, polido
Transparente, diferente
Translucido, quente
Sempre, permanente
Ondulante em verde
Laranja telhado
Moinho redondo
De novo transparente
Sempre, diferente
Calmo, torrente, ardente
Presente...
Um pássaro que pousa
Voando, pousando, pausando
Ave pernalta
Saltita no espelho
Água flutuante
Contente, reluzente
A brisa bafeja,
Com hálito de maresia
Magenta brilhante
A prata refletida
E o som sereno
Sinaliza manso
O movimento perpétuo
Da Natureza brilhando.

domingo, 20 de setembro de 2015

ser ou estar?


E porque escrevo?
Talvez por não saber fazer outra coisa


Talvez porque não tenha inspiração suficiente para ser pragmático
Talvez porque não tenha coragem para gritar,
Saltar, sair e fugir
Então escrevo...

E um dia afasto-me da escrita
Vai-me demonstrando que de nada serve
Ser pragmático é não escrever
É não ser.
Existir é não ser
Porque ser é complexo
Existir é simplesmente estar

Os ingleses não têm razão no verbo to be
Porque ser não é o mesmo que estar.
Ser é muito mais complicado, implica permanência, não é episódico
A escrita é aquilo que permanece no fim quando tudo acaba
É a escrita que nos deixa para sempre vivos
E o que existir deixa de ser, pura e simplesmente desaparece e o ser permanece
Então concluo que escrevo para ser e para deixar de existir.

domingo, 6 de setembro de 2015

Migrantes - ajudar sim, integrar não...



Eu nasci em Angola e vim de lá com os meus pais em 1975, portanto não sou um retornado, sou um refugiado.

As minhas raízes sempre foram lusas, as dificuldades na nova vida não foram diferentes de tantas outras crianças portuguesas, exceptuando talvez, as temperaturas. Recordo-me de ter passado muito frio nos primeiros anos na Europa.



A procura por uma vida melhor é um apelo da condição humana. Os portugueses são por natureza um povo migrante, temos comunidades espalhadas pelo mundo inteiro, somos um povo com grande facilidade de adaptação e integração, pelo que entendemos bem a tragédia por que passam os migrantes desta era. Mas existem diferenças culturais significativas entre nós e estes povos.

Recentemente estive em Londres, Paris e Munique. A diversidade étnica destas cidades é imensa. Os românticos poderão falar de cosmopolitismo, é verdade que sim, existe, mas do que observei posso antever que vão ter problemas muito sérios num futuro próximo. Grande parte dos imigrantes Islâmicos não estão integrados, penso que por vontade própria...Existem espaços inúmeros nestas cidades onde a tensão é latente.

Por estes motivos discordo que se fale em integração. A aculturação tem de ser voluntária e individual. Compete a cada indivíduo fazer pela vida. por outro lado, se for massiva e imposta resulta em guetos...

Os migrantes que agora se refugiam na Europa, foragidos da guerra e perseguição nos seus países, vêm para uma realidade completamente diferente daquela que vivem. Para além das enormes diferenças culturais, sobrevem a religião que no caso em análise é absolutamente estruturante nas sociedades islâmizadas o que inviabiliza praticamente a integração. Não estamos a falar de países moderadamente islâmicos.

A grande maioria dos migrantes são oriundos de Estados em que a religião tem um poder esmagador nas suas vidas e note-se, por vontade propria da grande maioria da população. São portanto povos que convivem mal com a democraticidade de um Estado laico.

Já se verificaram alguns episódios de intolerância religiosa por parte de grupos de migrantes. Por exemplo: vários grupos rejeitarem ajuda da Cruz Vermelha, exactamente por ter uma cruz como símbolo. Temos de saber lidar com este tipo de problemas, não com intolerância mas sim com compreensão e humanismo.

Claro que temos a obrigação de lhes prestar a ajuda humanitária de que necessitam, mas esta acção terá de ser meramente conjuntural até que se resolva o problema de fundo, a reintegração das populações nos seus países de origem.

A Europa precisa de ajuda para resolver este problema.


Neste momento só resta a solução militar, para isso terão de combater os grupos radicais de uma forma massiva, nos territórios que agora ocupam. A Europa tem de conseguir a ajuda das grandes potências militares globais (como a Rússia e os Estados Unidos) e das potências regionais (como Turquia e Irão). Só envolvendo todas estas vontades poderão obter um resultado rápido e duradouro.

Só eliminando a gênese do problema poderemos criar condições para o retorno e normalização das suas vidas.

A normalização do dia a dia nos países que actualmente estão destruturados, levará ao regresso voluntário das populações agora em migração.

Mais do que isso. Os países de origem têm de ter condições para reterem as suas populações. Para isso necessitam de empregos. A Europa em vez de deslocalizar a produção de bens de consumo para o Oriente, como tem feito, deverá instalar os seus centros de mão de obra nos países que nos circundam na bacia do Mediterrâneo.


Se este assunto for tratado desde já, será relativamente rápido, caso contrário caminharemos para uma guerra civilizacional sem precedentes...

Para memória futura, recordo que escrevi este post em Setembro de 2015, veremos o que se irá passar.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

David Purley, o espectador acidental...




Quando se realizou o grande Prémio de Formula 1 da Holanda em 1973, no circuito de Zandvoort, tinha eu 7 anos. Vivia em Angola e não tinha televisão, por isso não pude assistir em direto à morte do piloto britânico Roger Williamson. Só anos mais tarde ouvi falar na tragédia que ocorreu nesse dia 29 de Julho. Quando vi as imagens das gravações da época fiquei estarrecido.

Zandvoort foi a segunda corrida de Williamson na Formula 1. Pilotava um March que tinha partido a meio do pelotão, numa grelha onde o melhor tinha sido o Lotus de Ronnie Peterson. Na volta seis, quando era 13º, um furo provocou uma batida nos “rails” na curva Scheivlak, o carro capotou, incendiou-se e Williamson ficou virado de cabeça para baixo, não podia sair.

David Purley, um piloto privado e seu amigo, seguia na 14ª posição. Parou o seu March e correu em direcção a Williamson, tentou virar o carro, pois sabia que ele estava vivo. Entretanto, o incêndio espalhava-se e os comissários do circuito assistiam passivos, julgavam que o carro que Purley estava a virar… era o dele próprio!

Sabendo o que se passava, Williamson gritou para Purley: “Por Amor de Deus, David tira-me daqui!”.

Purley tentava o impossível, pedia aos comissários para o ajudar, pedia para que os outros carros parassem. Mas estes não o fizeram, a organização não tinha interrompido a corrida limitando-se a assinalar o local com uma bandeira amarela.

Impotente perante o que estava a acontecer, Purley saiu do local a chorar compulsivamente, enquanto a corrida continuava. Só quando os comissários finalmente apagaram o fogo é que viram a realidade. Roger Williamson estava carbonizado. O promissor piloto inglês de 25 anos, que tinha ganho tudo na Formula 3 britânica, estava morto na sua segunda corrida da carreira. Por todo o mundo se assistiu à tragédia que havia sido transmitida em direto.

Mais tarde o diretor da prova tentou justificar o ocorrido com um mal entendido, disse que ninguém percebeu que estava um piloto dentro do carro, toda a gente pensou que o carro era o de Purley. O assunto nunca foi entregue à justiça.

David Purley foi condecorado com a medalha George Cross, a mais alta distinção inglesa por coragem em situações de salvamento, recebeu ainda mais 12 outros prémios.

Foi graças ao negócio de família, a fábrica de frigoríficos LEC, que David Purley cresceu num berço de ouro. Mas o berço de ouro não o inibiu do gosto pela aventura. Descobriu desde cedo o prazer de voar e incentivado pelo pai, tirou o brevet aos 16 anos. Nessa altura, era o mais jovem a fazê-lo no Reino Unido.

Contudo, pouco depois decidiu alistar-se no exercito britânico, no Regimento de Pára-Quedistas. Em 1967 durante um salto de treino o seu páraquedas falhou parcialmente a abertura, mas David sobreviveu ao salto.

Após ter cumprido o serviço militar em 1968, Purley foi atraído para o mundo dos automóveis pelo seu amigo Derek Bell que começava a ter uma carreira bem sucedida nas corridas. Vendo o automobilismo como um bom motivo para manter os seus níveis de adrenalina, comprou um AC Cobra e começou a vencer algumas corridas. Em 1970 decidiu mudar-se para os monolugares.

Nesse ano, comprou um velho chassis Brabham de Formula 3 e decidiu formar uma equipa, a LEC Refrigeration Racing, batizando-o com o nome da empresa da família. Foi nessa altura que conheceu Roger Williamson.

Williamson era um dos melhores do seu tempo, dominava a Formula 3, acabando por vencer três títulos entre 1971 e 1972.

Em 1972, Purley mudou-se para a Formula 2, onde arranjou um chassis March. Não conseguiu mais do que um terceiro lugar nas ruas da cidade francesa de Pau, arrebatando apenas os quatro pontos dessa corrida.

Em 1973 começou a temporada na Formula Atlantic, arranjou um March 731 de Formula 1. Tal como nas outras vezes, inscreveu-o com a equipa LEC Refrigeration e participou em algumas corridas.

Estreia-se na Fomula 1 no GP do Mónaco. A sua segunda prova será apenas em Julho, em Silverstone, mas sofre um despiste logo na primeira volta.

Vai ser na terceira corrida em que participa, o GP da Holanda, que o seu nome ficará conhecido no mundo inteiro. Partindo da 21ª posição, Purley ganhou algumas posições até à oitava volta, quando viu acidentar-se o outro March de Roger Williamson, o que se passou depois já vos contei.

Purley voltou a correr no GP de Itália, terminando a corrida no nono posto, que viria a ser a sua melhor prestação na categoria máxima do automobilismo.

A partir do ano seguinte, concentrou-se na Formula 5000, competindo a bordo de um Lola. Essa passagem foi um sucesso, sendo campeão em 1976. Após esta conquista decidiu que era altura de voltar à Formula 1.

Em 1977 cria o seu próprio monolugar com a ajuda de alguns técnicos de renome na Fórmula 1, o LEC CRP1 estreou-se em Jarama no GP de Espanha, mas acabou por não se qualificar. A corrida seguinte seria em Zolder, na Bélgica. E aí, Purley deu nas vistas.

Durante a corrida, apareceu-lhe o Ferrari de Niki Lauda que o pressionou durante muitas voltas, mas Purley não cedeu. Terminou na 13ª posição. No final perguntou de modo sarcástico ao seu mecânico:

“Quem era aquele idiota do carro vermelho?”

Lauda ouviu a pergunta e tiveram uma troca de palavras em que o austriaco chamou a Purley “coelho” e este respondeu-lhe, chamando-o “rato”.

Purley não deixou o episódio passar em claro. Na corrida seguinte, o GP da Suécia, colocou o desenho de um coelho no chassis do seu carro. Lauda achou piada e apareceu com a palavra “Rato” escrita no seu capacete, e assim com alguns risos foi sanado o incidente entre os dois.

No GP da Grã-Bretanha, dado o grande número de carros inscritos, os organizadores tiveram de realizar uma pré-qualificação. David Purley tentou o seu melhor, mas na segunda sessão de treinos, o acelerador do seu LEC ficou preso e o carro embateu fortemente nas barreiras de proteção, David sofreu graves lesões nas pernas, na pélvis e no tórax. Mas sobreviveu.

Esteve quase um ano a recuperar dos ferimentos. Após ter feito uma corrida com um Porsche 924 em Brighton, voltou ao cockpit do seu LEC em 1979, para disputar a Aurora Series, o campeonato britânico de Formula 1. Para além do LEC, também tripulou um Shadow, com alguns resultados de relevo, mas no final desse ano, decidiu abandonar a carreira de piloto.

A partir de então resolveu dar uso ao seu brevet de aviador, Purley começou a dedicar-se à acrobacia aérea. Contudo, a 2 de Julho de 1985, quando fazia acrobacias ao largo da sua cidade natal, Bognor Regis, no Pais de Gales, calculou mal uma manobra e caiu nas águas do Canal da Mancha. Tinha 40 anos de idade.

O seu corpo nunca foi encontrado.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Peter Francisco o português herói americano.


"Um Hércules de 6 pés e meio de altura que empunhava um sabre de seis pés de comprimento, Peter Francisco foi provavelmente o soldado mais extraordinário da Guerra da Revolução Americana".
Joseph Gustaitis, na American History Magazine


Na sua vida a lenda e a realidade misturam-se de tal forma que se torna muito difícil distinguir uma da outra. Em Portugal a sua história é praticamente desconhecida.

Sabe-se que Pedro Francisco terá nascido em Porto Judeu, nos Açores em 1760. Muito cedo terá emigrado com a família para os Estados Unidos. Conta-se que aos cinco anos foi adoptado por um juiz de City Point na Virgínia.

Aos dezasseis anos, media 1,98 m e pesava 120 kgs, tornou-se ferreiro. A sua força física e estatura possibilitaram-lhe que se alistasse no 10º Regimento da Virgínia.

Em Setembro de 1777, serviu sob o comando do general George Washington em Brandywine Creek na Pensilvânia, onde as forças dos colonos tentaram deter o avanço de 12.500 soldados britânicos que avançavam em direcção a Filadélfia.

Foi o general George Washington quem determinou que uma espada especial adequada ao seu tamanho, fosse confeccionada para Francisco.

Washington terá dito posteriormente acerca de Peter Francisco: "Sem ele teríamos perdido duas batalhas cruciais, provavelmente a guerra e, com ela, a nossa liberdade. Ele era verdadeiramente um Exército de um Homem Só."

Na batalha de Camden em 1780 terá realizado um dos seus maiores feitos, quando, após os colonos se terem retirado diante dos britânicos, deixaram no terreno uma enorme peça de artilharia com cerca de 450 kgs. Afirma-se que Francisco a colocou às costas e a terá transportado para que não caísse nas mãos do inimigo. Em homenagem a esse feito, os correios dos Estados Unidos emitiram em 1974 um selo comemorativo.

Os seus feitos foram sendo relatados entre os soldados que lutavam pela independência face aos britânicos. Muitas vezes eram utilizadas para levantar o moral dos mal equipados soldados rebeldes.

Em 1850, o historiador Benson Lossing registou no "Pictorial Field Book of the Revolution" que "um bravo virginiano deitou abaixo 11 homens de uma só vez com a sua espada. Um dos soldados prendeu a perna de Francisco ao seu cavalo com uma baioneta. E enquanto o atacante, assistido pelo gigante, puxava pela baioneta, com uma força terrível, Francisco puxou da sua espada e fez uma racha até aos ombros na cabeça do pobre coitado!"

Mais tarde, enquanto recuperava dos ferimentos, Peter Francisco foi apresentado ao francês Marquês de Lafayette. Um francês que tinha vindo com um contingente militar para auxiliar os rebeldes na luta contra os britânicos.

Francisco sofreu mais seis ferimentos ao serviço do seu país, tendo morto um número incerto de britânicos e sido condecorado ao final do conflito por generais americanos que se certificaram de que ele estava presente na rendição do general Charles Cornwallis e dos britânicos em Yorktown, a 19 de Outubro de 1781.

Tornou-se um homem abastado, sendo nomeado para a Câmara de Representantes da Virgínia. Foi sepultado em 1831 com honras militares no Cemitério Shockoe Hill em Richmond, na Virgínia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

MIA - Sindrome da Mediocridade Inoperante Activa.


“Quando surge um verdadeiro génio no mundo, podemos reconhecê-lo pelo seguinte sinal: todos os medíocres conspiram contra ele.”
Jonathan Swift (1667 – 1745) autor de As Viagens de Gulliver

É verdade que os génios não abundam, normalmente estas características são detidas por pessoas criativas, artistas, cientistas, investigadores, pensadores, gestores, desportistas ou outros. Seria impensável um mundo constituído apenas por génios. Mas são esses que fazem a diferença, é com eles que o mundo progride.

Essas qualidades podem ser inatas ou adquiridas. A maioria de nós, na sua mediania ambiciona atingir níveis de excelência nos vários quadrantes da vida. É a nossa condição natural de tentar alcançar a felicidade e a perfeição.

O valor inverso é a mediocridade. É de notar que não é um factor tão negativo como pode parecer à primeira vista. De facto se todos fôssemos criadores geniais, o mundo seria um caos. Quem se encarregaria das dimensões naturais e normais da nossa vida? Ninguém iria querer trabalhar nas fábricas, recolher o lixo, lavar pratos nos restaurantes, assegurar funções básicas, etc. Deste equilíbrio de valências resulta o quotidiano.

Luís de Rivera, catedrático espanhol de psiquiatria, define assim a mediocridade:

“ A mediocridade é incapacidade para valorizar, apreciar ou admirar a excelência e define-se em 3 graus

1. A mediocridade comum é a forma mais simples e inócua. Os seus sintomas são a hiper-adaptação, a falta de originalidade e uma normalidade tão absoluta que poderia ser considerada patológica: a chamada “normopatia”. Os que a manifestam não têm ponta de criatividade e não sabem distinguir a excelência, mas respeitam as indicações que lhes dão e são consumidores bons e obedientes. O conformismo permite que se sintam razoavelmente felizes.

2. A mediocridade pseudocriativa, acrescenta à anterior uma tendência pretensiosa para imitar os processos criativos normais. Enquanto o medíocre comum não se esforça para além do mínimo exigível, o pseudocriativo sente necessidade de aparentar e ostentar poder. A imagem é tudo para ele, mas, como não distingue o belo do feio, o bom do mau, não mostra inclinação para favorecer progressos de qualquer tipo e incentiva as manobras repetitivas e imitativas.

3. A mediocridade inoperante activa (MIA). Trata-se do mais prejudicial e agressivo, pelo que encaixa no perfil da maioria dos praticantes de assédio.
É esta variante de mediocridade maligna que tem como único objectivo prejudicar o talento alheio e quem se destaca pelos seus méritos. Enquanto as categorias anteriores são simplesmente incapazes de reconhecer o génio, os MIA também se propõem destruí-lo por todos os meios ao seu alcance. O indivíduo afectado por esta síndrome desenvolve uma grande actividade que não é criativa nem produtiva, e possui um enorme desejo de notoriedade e influência. Por isso, tende a infiltrar-se em organizações complexas, nomeadamente as que já se encontram minadas por formas menores de mediocridade, com o objectivo de entorpecer ou aniquilar o progresso dos indivíduos brilhantes.

A mediocridade e o seu oposto, a excelência, surgem ligadas a uma série de características contraditórias: a primeira costuma ter por aliados a inveja, a imitação, o conformismo, a adaptação, a tradição, a inércia e a rotina; a segunda é amiga da admiração, da criatividade, do inconformismo, da rebeldia, da inovação, da curiosidade e da iniciativa."

Deixo-vos a tarefa de enquadramento de cada uma delas no vosso próprio quotidiano e vão decerto chegar à mesma conclusão a que eu próprio cheguei: São muito mais os medíocres do que os outros...